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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Hotel stories

Hotel stories
Francisca Matteoli (Assouline, 2002)

A editora americana Assouline é quase uma prima da alemã Taschen: ambas publicam volumes artísticos, feitos do melhor papel disponível, com uma seleção de temas e um cuidado gráfico pouco vistos por aí. São livros geralmente caros - embora de vez em quando eu consiga encontrar algumas pechinchas, como essa, e já tenha ganhado de presente outras obras da Taschen- e há muitos exemplares feitos para colecionadores, com preços que passam fácil dos US$ 300 e chegam a mais de US$ 1000.

Por motivos profissionais - e um preço bem mais razoável -, comprei em Miami este Hotel stories, certa de que estava adquirindo um livro bonito para me distrair com as situações vividas por uma série de celebridades em hotéis famosos ao redor do mundo. Bem, o livro é bonito. E as histórias de gente como Truman Capote (e suas festas no Plaza de Nova York), Dorothy Parker (e a Round Table no Algonquin), Agatha Christie (e um mistério envolvendo o hotel Pera Palace, em Istambul), Marilyn Monroe e Yves Montand (e o caso que tiveram no Beverly Hills Hotel, em Los Angeles, durante as filmagens de Adorável pecadora) são mesmo deliciosas. Mas, desta vez, a tentativa artística da Assouline não deu muito certo - não, pelo menos, para mim. Talvez na intenção de deixar as páginas com cara de antigas, já que muitas têm fotos de época, a fonte tipográfica usada no livro tem umas falhas, propositais, que tornam a leitura cansativa. Também senti falta de legendas nas imagens, pra saber quem eram os retratados, que partes do hotel eram aquelas ou quando as fotos foram feitas. Vai pra conta da minha chatice.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

I love your style

I love your style
Amanda Brooks (itbooks/HarperCollins, 2009)

Pelo preço dos livros no Brasil, esta edição americana, impressa num papel bacana e cheia de boas fotos, nem está tão cara: R$ 48,58, um equivalente razoável aos US$ 19,99 originais (sem contar os impostos que se pagam por absolutamente qualquer coisa comprada nos Estados Unidos, e que variam de acordo com o estado; são 7% em Miami). Mas vale, mesmo, por ter sido um dos melhores livros sobre estilo que li nos últimos tempos: é, certamente, um título que eu recomendaria a quem está começando a se interessar pelo assunto, ao lado de The little black book of style, The one hundred e Esquadrão da Moda.

Amanda Brooks, a autora, é uma consultora de moda bem-nascida e de extremo bom gosto que não tem pudor em escrever sobre suas preferências, ainda que polêmicas ("Acho ok usar casacos de pele, mas não estou aqui para sugerir que você deva fazê-lo"), nem de incrementar o livro com várias fotos suas, mesmo que em momentos de vergonha fashion - a galeria da página 24 me fez dar boas risadas ao me lembrar de alguns desastres saídos do meu próprio armário no passado. Mas o melhor de tudo é que, como todo bom livro do gênero, ela não dita regras, e sim afirma, o tempo todo, que cada mulher tem um estilo particular e que o importante, mesmo, é descobri-lo para que seja cada vez mais valorizado.

Ainda assim, Amanda Brooks dá umas diretrizes para quem é perdido no assunto ou para quem quer relembrar alguns conceitos. Começa por dividir o livro em capítulos sobre os estilos clássico, bohemian, minimal, high fashion, street e eclético - acho que sou uma mistura do eclético com o clássico, embora aqui e ali use umas flores exageradas na lapela e capriche nos sapatos diferentes; são marcas do meu estilo. No fim, fala sobre diversos jeitos de comprar: roupas básicas, em brechós, em lojas de design e redes de marcas mais populares. Tudo isso ilustrado por centenas de fotos, preto-e-branco e coloridas, em que aparecem, além dela própria, gente como Jacqueline Kennedy, Sofia Coppola, Bianca Jagger, Chloë Sevigny, Catherine Deneuve, Audrey Hepburn, Agyness Deyn, Kate Moss, Angelina Jolie e tantas outras. Não porque elas são lindas ou magérrimas ou ricas, mas porque têm estilo, porque sabem se vestir de acordo com a própria personalidade. Tem mais: ao final de cada capítulo há uma série de indicações inspiradoras de livros e filmes.

Quando comecei a ler o livro e vi a quantidade de fotos da autora, achei que ia encontrar mais um daqueles volumes feitos só para afagar o ego de quem escreve - e, por consequência, achei que ia detestar a leitura. Ao contrário, adorei: é preciso uma autoestima enorme, o que é bem diferente de um ego inflado, para colocar-se no lugar de outras mulheres e admitir que isso pode ficar bem em você, mas não fica em mim. É o que faz Amanda Brooks, para sorte de quem sabe que vestir-se de acordo só faz aumentar o prazer da gente ser a gente mesma.

domingo, 20 de junho de 2010

Solar

Solar
Ian McEwan (Jonathan Cape, 2010)

Tenho muita raiva de mim mesma quando começo a ler qualquer coisa sobre alguma obra que está na minha fila de leituras. Eu já sabia que compraria o novo McEwan, qualquer que fosse o assunto - por que, então, conferir o que foi escrito sobre ele no lançamento britânico, no lançamento americano? Pior: até consegui passar batido sobre as críticas, mas não resisti a uma sinopse. E, por causa dela, coloquei o peso de Solar num acontecimento que até tem importância para a trama, mas que não é, nem de longe (como eu imaginava), o fio condutor da história. Paciência, azar. Quem sabe agora eu aprendo.

Comecei a ler Solar num fim de semana de trabalho em São Roque, continuei em Miami e terminei aqui em São Paulo, em meio a uma agenda de compromissos muito apertada e ao tratamento para uma infecção no dente que me faz sentir muita dor e tomar tanto analgésico que faria inveja ao Doutor House. Escrevo tudo isso pra tentar entender por que eu não me apaixonei pelo livro - desde Reparação, eu meio que me sinto obrigada a me apaixonar por qualquer McEwan -, embora reconheça nele a prosa sensacional do escritor e tenha dado muita risada em alguns momentos de ironia inteligente e intensa.

O livro vale principalmente por Michael Beard, o personagem principal, um sujeito detestável que vive das honras amealhadas por um prêmio Nobel de Física, conquistado algumas décadas atrás. No ano 2000, Beard está às voltas com o fim de seu quinto casamento, um emprego conveniente e inócuo e a ameaça do aquecimento global. Mas falar mais é fazer como a sinopse que eu li, e tirar a graça da história.

Beauty in bloom

Beauty in bloom
Natalie Bloom (Allen & Unwin, 2008)

Este livro é como aquelas propagandas de perfume importado exibidas nos canais da TV a cabo: lindas e sem importância nenhuma. Mas tenho um fraco por livros lindos, ainda mais quando tratam de pequenos prazeres, como sapatos, maquiagem, elegância, gente bonita. Pena que a relevância, aqui, seja realmente zero, principalmente pra quem, como eu, está tarimbada na leitura de obras mais consistentes a respeito de estilo.

A autora australiana, eu só soube durante a leitura, é dona de uma marca de cosméticos batizada com seu sobrenome - daí o trocadilho no título. Ou seja: tinha tudo pra dar dicas bacanas de cuidados com a pele, o corpo, já que é disso que se trata. Mas, embora ela não fique o tempo todo fazendo propaganda de sua empresa, o que já é boa coisa, pouco se aproveita de seus textos óbvios e cheios de clichês, na linha "beleza é indefinível, nada que se possa comprar", "viva rodeada de tudo o que você ama" ou "atitude positiva é sua luz interior; deixe que ela brilhe". Acho que só gostei de saber como são feitas flores de origami e de aprender um pouco sobre as diferentes texturas de maquiagem (matte, sheer, shimmer, satin, gloss). Ok, é fútil, mas eu já sabia desde o começo que era uma leitura fútil. E, pelo menos, o livro é bonito.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Jamie's America

Jamie's America
Jamie Oliver (Penguin/Michael Joseph, 2009)

Adoraria ser daquelas pessoas que perdem o apetite diante de qualquer contratempo - briga com o namorado, com o chefe, baixo-astral. Comigo, acontece o contrário: comer é, sim, muito bom, e nessas horas ainda serve como consolo, compensação. Aumento de peso, colesterol mais alto? Nem lembro que isso existe. Claro, depois há um preço a pagar. Mas quando o ânimo desaba e a tristeza se instala, quase nada ajuda tanto quanto uma boa comida de alma.

Às vezes eu nem parto pra cozinha, como seria natural, e me contento lendo livros de receitas. Esse Jamie Oliver, que acabou de sair em português, foi uma de minhas últimas aquisições. Nele, o chef-escritor percorre seis regiões/cidades americanas - Nova York, Louisiana, Arizona, Los Angeles, Georgia e Wildwest - para ver como as pessoas comem e dar suas versões de pratos clássicos, como a salada Waldorf, criada no hotel Waldorf-Astoria, em Nova York (ele usa iogurte em lugar da maionese).

Suas aventuras pela Louisiana incluem até uma receita de torresmo, os pork cracklings, além de jambalaya e gumbo, clássicos da cozinha cajun. No Arizona, o clima tem um pezinho no México, com chillis e sopa de tortilla, e na cozinha dos índios Navajo. Fiquei com vontade de preparar as panquecas de maçã que ele fez para os cowboys com quem viajou pelo Wyoming (um daqueles estados americanos que nunca vêm à cabeça quando a gente tem insônia e tenta se lembrar de cada um dos 50, até o sono chegar) e as costelinhas de porco da Georgia.

Como todo livro de Jamie Oliver, o projeto gráfico é uma atração em si: cheio de colagens, imagens das pessoas locais, um monte de fotos do próprio chef e de cada um dos pratos. Minha preferida? O frango assado, "sentado" sobre uma garrafa de cerveja Budweiser. Divertido - e apetitoso.

sábado, 5 de junho de 2010

Lit Wit

Lit Wit
Richard Lederer

Isto não é um livro, mas fala deles e de escritores, então merece estar aqui - até porque, adorei. Trata-se de um jogo, uma trivia literária, com 100 fichas divididas em quatro temas: textos, autores, títulos e gêneros. Em cada uma, perguntas variadas em diversos graus de dificuldade. Fã de jogos intelectuais que sou, me diverti pra caramba tentando adivinhar, ou me lembrar, das respostas. Mas memória não é, definitivamente, o meu forte...

Eis uma pequena amostra do que pode ser encontrado no joguinho, que traz as fichas organizadas numa simpática caixinha (comprei na Books & Books, que, além de livros, tem boas surpresas, como esta):

* Use the following anedocte to identify the author: "As a young cadet, this American writer was expelled from West Point for reporting to a march wearing nothing but white gloves."

* Why did George Orwell choose Nineteen Eighty-Four as the title and year of his novel?

* Identify the titles and name the author of the literary work, quoted below, that end well: "That might be the subject of a new story - but our present story is ended."

segunda-feira, 12 de abril de 2010

The devil and Sherlock Holmes

The devil and Sherlock Holmes
David Grann (Doubleday, 2010)

Ao lado da minha cama, no chão, existe uma pasta com diversas matérias publicadas pela Vanity Fair no último ano: como não consigo ler tudo quando a revista chega (e é a única que eu assino), tiro as páginas com os textos que me interessam e guardo tudo para uma sonhada leitura futura. Pois com as matérias deste livro - são doze, nove delas editadas originalmente na The New Yorker - aconteceu o contrário: li tudo de uma vez, sei lá se porque em livro (na verdade, em Kindle) é melhor, sei lá se porque os temas são interessantes, ou se porque David Grann escreve muito bem.

A primeira matéria trata da morte suspeita de um inglês especialista em Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes. Depois vêm textos sobre um oceanógrafo que dedica a vida a encontrar uma lula-gigante, sobre um francês "especialista" em assumir outras identidades, um bombeiro que não se lembra do que aconteceu no 11 de setembro, o julgamento do que foi tida como a mais violenta gangue dentro das prisões americanas e outros, de temas tão variados. Meus preferidos: a história de um escritor que narra, em seu romance de estreia, um crime até então aparentemente insolúvel, acontecido na Polônia (e o caminho que levaram os policiais até ele) e a última reportagem, sobre o haitiano que comandava uma milícia do tipo esquadrão da morte, no Haiti, e ao mesmo tempo tinha ligações com a CIA.

Mais do que excelentes trabalhos de jornalismo investigativo, as histórias reunidas por Grann neste livro são, para mim, pequenas peças literárias. Não se trata do "new journalism" de Truman Capote e John Hersey, ou dos escritos de Joel Silveira, no Brasil. Temas interessantes, trabalho competente e muito bem-escrito; isso basta.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Paris é uma festa

Paris é uma festa
Ernest Hemingway (Bertrand Brasil, 2006)

Ando apaixonada pela Paris do início do século 20 e, se alguém me perguntasse, hoje, onde e em que época hipotética eu gostaria de ter vivido, diria que seria nessa Paris de Picasso e Matisse e Hemingway e Fitzgerald e Gertrude Stein (embora não me falte a certeza de que eu pertenço mesmo ao aqui e ao agora, e que qualquer outra época idealizada - o Rio de Janeiro dos anos 50-60, a Nova York da Round Table, a São Paulo modernista - seria de um sofrimento enorme pra mim). Mas no começo do século 20 Paris era, sim, uma festa, e todo mundo conhecia todo mundo, e se encontrava nos cafés, e o dinheiro era curto mas dava até pra passar férias na Espanha, de vez em quando na Suíça.

É o que conta Ernest Hemingway, que chegou à cidade depois de ter sido motorista de ambulância na Primeira Guerra Mundial e que, em Paris, deu início à carreira de escritor enquanto era correspondente de um jornal canadense. Morava com mulher e filho num apartamentozinho na margem esquerda do Sena e alugava um quarto num hotel, ali perto, para poder trabalhar em paz. Logo que chegou, ficou conhecendo Gertrude Stein, com quem manteve uma relação intensa de amizade até que um fato velado, ou mal-explicado (pelo menos no livro), fez com que se afastassem - acho que teve a ver com a homossexualidade da escritora.

Assim, entre confissões das apostas feitas no jóquei (e que levaram um bom dinheiro para o ralo), o excelente relato de seu método de trabalho e os planos de viagem para Pamplona, Madri e Valência, Hemingway vai falando não só da vida, mas de amigos como Sylvia Beach, dona da livraria Shakespeare and Company, Ford Madox Ford ("I always held my breath when I was near him in a closed room"), Ezra Pound e, principalmente, F. Scott Fitzgerald, com quem Hemingway empreendeu uma viagem das mais bizarras.

Paris é uma festa foi organizado pela última mulher do escritor e publicado em 1964, depois de sua morte - Hemingway se matou com um tiro, em 1961. Ano passado, talvez um pouco antes, um de seus netos relançou o livro, dessa vez com mudanças na ordem dos capítulos e com o acréscimo de informações que, segundo ele, ajudariam a melhorar a imagem de sua avó, a segunda mulher do escritor, que aparece no fim do volume. Eu não vi nada de absurdo na maneira como o autor tratou do fim de seu casamento; achei até elegante. E, de qualquer modo, o livro que Hemingway imaginou me parece bem melhor do que qualquer variação que tenha vindo depois dele.

domingo, 28 de março de 2010

Uma real leitora

Uma real leitora
Alan Bennett (Record, 2008)

Livrinho divertido e descompromissado, que li em dois dias, nas férias. A história começa quando a rainha da Inglaterra - a própria, Elizabeth II - é atraída para uma biblioteca ambulante por seus cães de caça. Lá, conhece o bibliotecário e um funcionário gay do palácio (que, aliás, não tem a menor necessidade de ser gay; isso não influencia em nada a trama; ou será que minha memória já se deteriorou de vez?). Para não criar constrangimento, resolve levar um livro emprestado. E gosta da experiência da leitura, capaz de distrai-la um pouco dos chatos assuntos de Estado.

Mas seu interesse crescente pelos livros começa a provocar mudanças nem sempre desejáveis - o tal funcionário gay é promovido a uma espécie de assistente, por exemplo, e cria-se uma expectativa geral, no reino, para saber o que Elizabeth anda lendo. Até que o secretário particular da rainha (ou seria o Primeiro Ministro?) se vê obrigado a interferir.

É bacana ver que Alan Bennett não se deixou levar pela fórmula fácil e edificante da redenção. Imaginou uma história improvável e contou-a da melhor maneira - com vários momentos de ironia inteligente, o que já é suficiente pra eu gostar de alguma coisa. Fim de papo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Wash this blood clean from my hands

Wash this blood clean from my hands
Fred Vargas (Penguin USA, 2007)

A francesa Fred Vargas inaugurou a série de romances policiais vivida pelo detetive Jean-Baptiste Adamsberg com O homem dos círculos azuis. Depois, vieram O homem do avesso, a graphic novel Les quatre fleuves, Fuja logo e demore para voltar, a coleção de três novelas Coule la Seine, Sous les vents de Neptune (este Wash this blood clean from my hands, em inglês), Relíquias sagradas e Un lieu incertain. Não sei o que levou a Companhia das Letras a lançar os quatro títulos, em português, fora da ordem cronológica. Mas deve ter sido um motivo e tanto, porque poucas coisas são tão importantes a ponto de estragar a surpresa de uma história de detetives - é o que acontece com quem lê Relíquias... antes de Wash this blood..., como eu.

Ok: mesmo fazendo várias referências ao livro anterior, Relíquias... não entrega totalmente o jogo. Mas acaba com duas dúvidas fundamentais que surgem durante a narrativa de Wash this blood..., principalmente no final, porque a gente já sabe quem é mocinho e quem é bandido, quem é pai de quem, quem salva quem e onde (embora o salvamento seja espetacular).

Acontece que Jean-Baptiste Adamsberg tem um passado tumultuado. Foi envolvido num crime acontecido há mais de trinta anos e nunca se livrou da obsessão de pegar o assassino, o Netuno (ou Tridente) do título francês. E, mesmo sabendo que o sujeito morreu há mais de uma década, meu detetive preferido põe em dúvida a própria sanidade mental quando crimes semelhantes aos que o bandido praticava começam a aparecer aqui e ali - até mesmo no Canadá, onde seu time de detetives passa por um treinamento de quinze dias. Não estraga dizer que Camille está em Montreal. Que Adamsberg continua quase um porco chauvinista (mas um adorável porco chauvinista). Que uma das melhores personagens do livro é também uma das mais improváveis. E que, como em todo romance de Fred Vargas que eu li até hoje, é preciso suprimir um pouco do amor pela credibilidade para sair do livro feliz.

domingo, 14 de março de 2010

O último caso da colecionadora de livros

O último caso da colecionadora de livros
John Dunning (Companhia das Letras, 2009)

"Só o Kindle salva", pensei, ao saber que teria de ficar uma semana sem carregar peso, digitar e fazer movimentos bruscos com o braço direito, por causa de uma cirurgia. Foi tudo bem - e o Kindle realmente salvou, tão fácil que é de ler só apertando os botõezinhos com a mão esquerda. Mas eu imaginava que, com sete dias inteirinhos sem poder fazer absolutamente nada, a não ser ler e ver TV, eu devoraria três, quatro títulos em uma tacada, e acabei empacando neste aqui.

Foi meu terceiro romance com Cliff Janeway desde que descobri o detetive em A promessa do livreiro - nas férias, havia lido também Assinaturas e assassinatos (outra vez no Kindle, outra vez em inglês: The sign of the book). E foi o que menos gostei. Começa bem, termina relativamente bem, mas a maior parte da trama é muito cansativa: uma repetição sem fim de situações, algumas até inverossímeis, no chato ambiente das corridas de cavalos.

Janeway é chamado por um sujeito antipático e misterioso para avaliar a coleção de livros de um velhote que acabou de morrer. Não aceita. Mas acaba envolvido na história ao ver antigas fotografias e conhecer a filha do falecido.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sala dos homicídios

Sala dos homicídios
P.D. James (Companhia das Letras, 2004)

O nome em português não ajuda muito - "Murder Room", o título original, não só é mais sonoro como direciona toda a trama para um lugar crucial, a sala dedicada a vários crimes famosos do período entre-guerras, instalada num museu próximo a Londres. Bem, o Museu Dupayne não existe de verdade, como explica P.D. James no prefácio. Mas todos os assassinatos explorados no "murder room" aconteceram realmente e estão registrados na Scotland Yard. É para lá, desta vez, que se dirige a investigação de Adam Dalgliesh, o detetive-poeta que, como eu já disse, só não roubou meu coração porque já sou apaixonada por Jean-Baptiste Adamsberg.

Gostei bem mais deste livro do que de Paciente particular, o mais recente título de P.D. James e minha estreia na obra da escritora. Primeiro porque Dalgliesh parece mais humano e simpático. Depois, a trama de mistério me agradou mais: começa com um incêndio criminoso, segue com uma série de interrogatórios que coloca todos os suspeitos sob a luz negativa da antipatia, não dá uma palhinha de quem pode ter cometido os assassinatos (ou melhor, até dá; mas esse é o tipo de leitura rápida em que a gente não presta muita atenção quando lê, mesmo) e traz aquele tipo de suspense que me faz prender a respiração e pensar coisas como "não, P.D. James, você não seria capaz de matar meu personagem favorito, seria?" - e como você sabe que sim, ela seria, fica na maior torcida pra alguma coisa acontecer na última hora e salvar seu personagem favorito de um triste fim.

Mas realmente não é uma boa ideia começar a ler as aventuras de Adam Dalgliesh de trás para frente. Paciente particular, o mais recente, é o 14º da série; Sala dos homicídios é o 12º. Só que agora resolvi ler policiais no Kindle, porque fica muito mais barato e não ocupa espaço aqui em casa, e nem tudo está disponível para o formato. Bem, A certain justice, o 10º, está. Vai ver é assim que eu preciso ler P.D. James, de dois em dois livros, do fim para o começo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Invisible

Invisible
Paul Auster (Henry Holt, 2009)

James Wood, o crítico da revista New Yorker, desceu a lenha não só neste livro, mas em quase toda a obra de Paul Auster, dizendo que ele é um tipo peculiar de escritor pós-moderno. Bem, meu conhecimento literário não deve atingir nem 1% do conhecimento de James Wood - afinal, ele é crítico da New Yorker e eu não sou. Escrevo apenas sobre o que gostei ou não de ler, e quase nunca existe uma teoria, muito menos acadêmica, por trás dos meus gostos. Eu nunca havia pensado em Paul Auster como escritor pós-moderno. Eu nem sei o que é um escritor pós-moderno.

E gostei, muito, de Invisible, recém-lançado nos Estados Unidos. Como quase sempre, em Paul Auster, gostei menos pela história e muito mais pela narrativa, pela maneira como ele escreve - o segundo capítulo do livro de Adam Walker, um dos personagens-narradores, é um exemplo de como tratar um tema dificílimo com rara delicadeza e elegância (até o James Wood admitiu isso: "quite touching"). Mas admito que os leitores habituais de Auster vão reconhecer, em Invisible, diversos artifícios usados em livros anteriores, como o duplo e o livro-dentro-do-livro (dois temas que me atraem demais), e que tantos outros podem ficar irritados com as ambiguidades e incertezas da trama.

Na primavera de 1967, em Nova York, o jovem estudante Adam Walker conhece o professor francês Rudolf Born e sua namorada, Margot, numa festa. Born quer fundar, com Walker, uma revista literária. Margot quer levá-lo para a cama. Aí acontece uma briga. E um crime. E, de repente, a coisa toda muda de figura - porque nem tudo, nos romances de Paul Auster, é o que parece ser.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Coelho corre

Coelho corre
John Updike (Companhia das Letras, 1992)

Foi minha estreia no Kindle - porque eu queria começar Updike pelo primeiro volume da série Coelho, porque a edição em português está esgotada e porque, quando posso, prefiro ler no original, em inglês. Gostei muito, muitíssimo - e, mais de uma semana depois de terminada a leitura, ainda me pego pensando em várias cenas da história, na maneira elegante como John Updike escreveu esse livro, no meu sentimento, às vezes contraditório, em relação aos personagens.

Eu gosto de Harry "Rabbit" Angstrom? Sem dúvida, e, com o tempo, pretendo continuar a seguir suas andanças pelos três outros livros da série. Torci por ele o tempo todo, senti dó de sua ingenuidade alegre e fiquei com muita, muita raiva no momento em que sua infantilidade atingiu um grau que eu não imaginava poder alcançar. Depois de apenas dois daiquiris, Harry foi imaturo, cruel, egoísta. Senti vergonha por ele - e não é disso que são feitos os grandes personagens?

Também gosto muito de Jack Eccles, de suas conversas com Rabbit, sua dedicação ao trabalho na igreja (embora um pouco intrusiva demais para o meu gosto, mas sabe-se lá como eram as coisas em fins dos anos 50 numa cidadezinha dos Estados Unidos; sabe-se lá como são, hoje, em outras cidadezinhas provincianas espalhadas pelo mundo). Foram as mulheres, em Coelho corre, que me deixaram com os dois pés atrás. Não dá pra respeitar Janice, muito menos sua mãe. Mrs. Angstrom tem mais pulso. Ruth talvez seja quem eu entenda melhor, pelo medo de se dedicar a um relacionamento de verdade, pela tentativa de mostrar independência para, no fim das contas, se deixar submeter. E Lucy Eccles, a única mulher da história que eu gostaria, mesmo, de conhecer mais nos três livros restantes sobre Rabbit.

O início da trama, em resumo: Harry Angstrom um dia volta para casa e encontra o cenário desolador de sempre - mulher bêbada vendo TV, o apartamento desarrumado pela bagunça do filho pequeno, o cansaço depois de um dia num trabalho desanimador. Ele sai para buscar o carro, estacionado em frente à casa da sogra. E, num estalo, decide passar a noite dirigindo rumo ao Sul.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Enchantment - The life of Audrey Hepburn

Enchantment - The life of Audrey Hepburn
Donald Spoto (Harmony Books/Random House, 2006)

Nem sei quando foi que eu comecei a amar Audrey Hepburn - sei que Bonequinha de luxo efetivamente mudou a minha vida e que, se eu pudesse escolher, teria exatamente o shape e os Givenchy de Holly Golightly. Já adulta, fui vendo um filme de Audrey atrás do outro: Cinderela em Paris, Sabrina, o ótimo Um clarão nas trevas, Paris quando alucina, My fair lady, Como roubar 1 milhão de dólares, Charada, A princesa e o plebeu.

Sabendo da minha admiração pela atriz, minha cunhada me deu esta biografia de presente, há uns dois anos. Mas só agora consegui pegar pra ler direito: gostei de muitas coisas e não gostei de várias outras. Foi bacana, por exemplo, conhecer detalhes do começo da vida de Audrey Hepburn - saber que ela passou a Segunda Guerra, ainda criança, fingindo ser holandesa, e não britânica, pra não correr o risco de ser pega pelos alemães; saber que ela testemunhou o fuzilamento do tio e de dois primos, também durante a guerra; saber que ela carregou pelo resto da vida o trauma de ter sido abandonada pelo pai. E são bacanas as histórias dos bastidores de diversos filmes da jovem atriz: o caso dela com William Holden e o mau-humor de Humphrey Bogart em Sabrina, a traição do estúdio ao dublá-la sem aviso prévio em My fair lady, o estrelismo de Fred Astaire em Cinderela em Paris, a recusa de Gary Grant em trabalhar com Audrey até Charada.

O lado ruim do livro resume-se - e isso não é pouco - à idolatria de Donald Spoto em relação a seu personagem. O autor trata Audrey Hepburn como uma mulher sem defeitos: amada por todos, estudiosa, simples, modesta em relação ao próprio talento, devotada aos maridos, à mãe, ao pai e aos filhos, elegante sem ser fashion victim, ciosa da própria privacidade, generosa, dedicada a causas nobres. Mas santos não existem, certo? Eu acho impossível que Audrey Hepburn - que qualquer ser humano - não tenha dado uma escorregadinha sequer. Ainda assim, até para falar de pelo menos duas vezes em que ela traiu seu primeiro marido, Mel Ferrer (com o roteirista Robert Anderson e com o ator Albert Finney), Spoto escreve como se ela fosse apenas a vítima de um casamento infeliz, e logo muda de assunto para não ter que entrar no mérito da coisa. Quem sabe, um dia, eu encontre uma biografia mais pé no chão sobre ela.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Eloise

Eloise
Kay Thompson (Cia. das Letrinhas, 2002)

Li hoje, no Daily Beast, uma matéria sobre Hilary Knight, o ilustrador de Eloise - e descobri, com a maior surpresa, que a Kay Thompson que escreveu a história é a mesma Kay Thompson que viveu o papel da editora de moda em um dos meus filmes preferidos com Audrey Hepburn, Cinderela em Paris (sincronicidade, diria o Jung: estou, nos últimos dias, lendo uma biografia de AH). Eu nunca teria imaginado. E se, como diz Anne Fadiman em At large and at small, a vida dos autores pode servir para aumentar nossa compreensão da obra, agora eu gosto ainda mais de Eloise.

Não que a menina seja uma criança adorável, no sentido Pollyanna-boazinha da coisa. Eloise é espoleta e traquinas. Tem 6 anos e mora no hotel Plaza, em Nova York, com a babá, um cachorrinho e uma tartaruga chamada Skipperdee. Nenhum lugar, nem ninguém, são obstáculos para a garota fazer o que mais gosta: descobrir o mundo, ainda que apenas dentro do hotel. Ela vai a casamentos para os quais não foi convidada. Sobe e desce pelas escadas ou pelo elevador o dia inteiro. Bate altos papos com o garçom e outros funcionários do Plaza. E brinca de faz de conta, e irrita o professor de francês, e conta que sabe mascar chiclete e soletrar. Acho que Eloise é uma criança feliz.

The lost symbol

The lost symbol
Dan Brown (Doubleday, 2009)

A meu favor, conta o fato de eu nunca ter me considerado "intelectual" - porque dá uma certa vergonha gastar meu tempo lendo uma bobagem de Dan Brown quando eu poderia tirar o atraso de tanto livro bom que comprei e acabou guardado na estante sem sequer ter sido aberto. Bem, não sou perfeita. E sei que a) qualquer Dan Brown, por mais que tenha 500 páginas, pode ser lido em um fim de semana; b) não é preciso prestar atenção nas qualidades literárias do autor, já que elas não existem; c) por mais inverossímeis que sejam, suas tramas rocambolescas conseguem me deixar extremamente curiosa pra saber como é que tudo será resolvido no final.

(Meu único comentário sobre a escrita de Dan Brown - como disse, não existem qualidades literárias, e ninguém precisa ser crítico pra ver isso - diz respeito à maneira irritante como ele usa frases em itálico sem a menor coerência e muito menos parcimônia, como bem notou o blog de livros do Guardian. "The Cube. Katherine Solomon's lab." Que raios é isso? O pensamento do sujeito ou apenas uma forma de enfatizar o lugar aonde ele chegou? É irritante. E acontece o tempo inteiro.)

A essa altura - o livro será lançado no Brasil ainda este mês -, muita gente já deve saber do que trata a nova empreitada do professor Robert Langdon, de Anjos e demônios e O código Da Vinci: a busca frenética por um de seus grandes amigos, sequestrado por um maluco em Washington, e a tentativa de solucionar um antigo mistério ligado à Maçonaria. Como nas aventuras anteriores de Langdon, tudo acontece muito, muito rápido (dessa vez, em apenas uma noite). Como nas aventuras anteriores, não dá pra saber em quem confiar (seria a diretora da CIA mocinha ou bandida? E o administrador do Congresso? E o padre cego? E o próprio amigo sequestrado?). E, como nas aventuras anteriores, não faltam perigos e reviravoltas (mas quem, em sã consciência, pode acreditar que Dan Brown mataria seu principal e mais lucrativo personagem?).

Sei lá se é porque já estou familiarizada com a fórmula do escritor, ou porque conheço os principais monumentos de Washington D.C., ou porque é tudo mesmo muito óbvio - neste livro, consegui "descobrir" os dois principais mistérios da história bem antes da metade. Vantagem? Nenhuma. Apenas a constatação de que, por pior escrito que seja, O código Da Vinci ainda é mais divertido.

domingo, 18 de outubro de 2009

Secret ingredients

Secret ingredients
Organizado por David Remnick (Random House, 2007)

Taí um livro que eu queria ter feito, taí o tipo de livro que eu queria passar o resto da minha vida fazendo: uma seleção de excelentes textos sobre comida publicados na revista New Yorker. E não são apenas resenhas de restaurantes ou perfis de gente que marcou época na cozinha, mas histórias - histórias como a de quando Julia Child, afônica, foi a um restaurante chinês e se comunicou com a dona apenas trocando bilhetinhos, ou o conto escrito por Louise Erdrich sobre a amizade entre duas corajosas mulheres, uma delas casada com um açougueiro.

Para mim, o melhor talvez esteja nos textos que abrem o capítulo "Eating in", escritos por M.F.K. Fisher. Eu já tinha lido dois livros de Ms. Fisher: Um alfabeto para gourmets, que me agradou muito, e Como cozinhar um lobo, que, na época, achei meio mais-ou-menos (hoje eu fico pensando, ainda mais depois de ler os textos dela em Secret ingredients, se não seria bom retomar essas leituras com uma predisposição maior para entender a voz de M.F.K. Fisher - uma voz que, como a de Elizabeth David, soa mal-humorada a princípio, mas vai revelando uma ironia inteligente e um conhecimento enorme à medida em que a gente se acostuma ao discurso).

O primeiro texto de "Eating in" é o Secret ingredients que dá nome ao livro. Assim como eu, a autora tem uma birra enorme de gente que escreve receitas sem contar o "pulo do gato": aquela pitada de um temperinho que faz toda a diferença, a técnica de assar de um jeito perfeito, as quantidades todas em "punhado", "mãozada", "um tanto". Em outro artigo, Ms. Fisher fala das casseroles, receita que toda dona de casa americana preparava, nos anos 60, achando que estava economizando tempo ao assar (numa caçarola, ahá) sobras de comida com arroz ou macarrão. (Ela escreveu isso em 1968 e, já naquela época, pregava o uso de pelo menos legumes frescos para deixar o prato mais apetitoso.) Ms. Fisher é elegante e engraçada até para falar de tripa - e dar uma receita completa do ingrediente, com direito a descrições e detalhes que fazem a gente agradecer por livro de cozinha não vir com o cheiro da própria.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

At large and at small

At large and at small
Anne Fadiman (Allen Lane, 2007)

Foi, acho, em 2002, que um amigo me disse: "Você vai adorar Ex-Libris." Não adorei: amei. É esse o livro que eu dou de presente para algumas pessoas especiais que, como eu, também adoram não apenas os livros, mas as palavras, a escrita. E há muito tempo eu andava de olho em blogs, na Amazon, nos lançamentos do mercado americano, para ver se encontrava algum outro título assinado por Anne Fadiman, de quem me tornei fã. Até que encontrei. Foi uma longa (ou, pelo menos, assim pareceu) espera até a Cultura entregar minha encomenda e outros demorados meses até que eu finalmente me dedicasse à obra - que li num minuto, voltando várias vezes aos ensaios que mais gostei.

Trata-se, como diz o subtítulo, de Confessions of a literary hedonist - e não tem como eu não invejar, em Anne Fadiman, sua escrita elegante, seu conhecimento literário, sua vida passada entre os livros, a forma singular como ela transforma até assuntos distantes de mim (o amor pelo Ártico, a canoagem, a devoção por Charles Lamb, de quem eu nunca tinha nem ouvido falar) em temas de interesse imediato. Se o Gênio da Lâmpada aparecesse em minha frente, agora, para me conceder três desejos, um deles certamente seria "quero escrever como e sobre o que Anne Fadiman escreve".

Em At large and at small, o ensaio de que mais gostei parte de um personagem - Procrustes, em inglês, que eu não conhecia, mesmo adorando mitologia grega - e relaciona sua prática cruel de tortura e assassinato ao que Anne Fadiman chama de "guerras culturais", a aparente necessidade das pessoas em politizar a arte. "Coffee" é um texto ótimo não apenas sobre o hábito de beber café (que eu retomei recentemente, graças à Nespresso), mas sobre as obras produzidas sob o efeito da cafeína. Em "Night owl", Anne Fadiman fala de si e de vários outros escritores que produzem melhor à noite. E tem ensaio sobre sorvete, sobre Samuel Taylor Coleridge, correspondência, mudanças de casa, a bandeira americana... Assuntos tão diferentes, abordagens idem, que só conseguem se transformar num livro tão bacana por causa da competência da autora.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

How to eat

How to eat
Nigella Lawson (Wiley, 2002)

No tempo da minha mãe, a grande bíblia culinária era o livro das receitas de Dona Benta - embora, até onde eu saiba, Dona Benta nunca tenha entrado na cozinha do Sítio do Picapau Amarelo para cozinhar nada; tia Nastácia, sim, era a quituteira oficial do lugar (mas era negra, e vai saber se "pegava bem" publicar o livro de receitas de uma negra nos idos de sei lá quando). Eu li muito a edição que minha mãe ganhou como presente de noivado, em 1964, e que ainda existe, quase firme e quase forte, na casa dela.

Também eu tenho minhas bíblias culinárias, livros que procuram tratar de comida de um jeito simples, saudável e saboroso, que me ensinem maneiras diferentes de comer o que eu gosto - e jeitos gostosos de comer o que eu normalmente não comeria -, que não fiquem pregando excessos mas que também não levem tão a sério a proibição a ingredientes que, ultimamente, acabaram entrando numa espécie de índex culinário. Deles fazem parte o Dean & Deluca cookbook, o Jamie's dinners, alguns livros da Patricia Wells e esse How to eat. (Comentário fora de propósito: linda do jeito que é, Nigella Lawson tem toda razão em aparecer na capa de quase todos os seus livros.)

Mais do que as receitas, que são muitas e geralmente ótimas, o bacana deste livro de Nigella são os textos em que ela, vá lá, ensina a comer. O primeiro capítulo, "Basics, etc.", fala de ingredientes, ensina alguns preparos fundamentais (caldos, frango assado), dá ideias de como aproveitar sobras variadas, mostra o que é possível ter sempre à mão no freezer (isso eu aproveitei demais; aprendi que dá pra manter queijo ralado congelado, por exemplo). E o resto do livro segue na mesma linha, com capítulos sobre refeições para uma ou duas pessoas, comida rápida e fácil, cardápios para almoços de fim de semana... Até uma seção sobre "low fat" a rainha do creme e da manteiga escreveu. Só fico em dúvida se é o melhor livro dela porque também gosto muito do Express. De qualquer forma, ambos são excelentes na característica que, para mim, é capaz de transformar um livro de receitas em bíblia culinária: dão ótimas ideias para as minhas aventuras na cozinha.