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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

How to eat

How to eat
Nigella Lawson (Wiley, 2002)

No tempo da minha mãe, a grande bíblia culinária era o livro das receitas de Dona Benta - embora, até onde eu saiba, Dona Benta nunca tenha entrado na cozinha do Sítio do Picapau Amarelo para cozinhar nada; tia Nastácia, sim, era a quituteira oficial do lugar (mas era negra, e vai saber se "pegava bem" publicar o livro de receitas de uma negra nos idos de sei lá quando). Eu li muito a edição que minha mãe ganhou como presente de noivado, em 1964, e que ainda existe, quase firme e quase forte, na casa dela.

Também eu tenho minhas bíblias culinárias, livros que procuram tratar de comida de um jeito simples, saudável e saboroso, que me ensinem maneiras diferentes de comer o que eu gosto - e jeitos gostosos de comer o que eu normalmente não comeria -, que não fiquem pregando excessos mas que também não levem tão a sério a proibição a ingredientes que, ultimamente, acabaram entrando numa espécie de índex culinário. Deles fazem parte o Dean & Deluca cookbook, o Jamie's dinners, alguns livros da Patricia Wells e esse How to eat. (Comentário fora de propósito: linda do jeito que é, Nigella Lawson tem toda razão em aparecer na capa de quase todos os seus livros.)

Mais do que as receitas, que são muitas e geralmente ótimas, o bacana deste livro de Nigella são os textos em que ela, vá lá, ensina a comer. O primeiro capítulo, "Basics, etc.", fala de ingredientes, ensina alguns preparos fundamentais (caldos, frango assado), dá ideias de como aproveitar sobras variadas, mostra o que é possível ter sempre à mão no freezer (isso eu aproveitei demais; aprendi que dá pra manter queijo ralado congelado, por exemplo). E o resto do livro segue na mesma linha, com capítulos sobre refeições para uma ou duas pessoas, comida rápida e fácil, cardápios para almoços de fim de semana... Até uma seção sobre "low fat" a rainha do creme e da manteiga escreveu. Só fico em dúvida se é o melhor livro dela porque também gosto muito do Express. De qualquer forma, ambos são excelentes na característica que, para mim, é capaz de transformar um livro de receitas em bíblia culinária: dão ótimas ideias para as minhas aventuras na cozinha.

sábado, 28 de março de 2009

Histórias de cronópios e de famas

Histórias de cronópios e de famas
Julio Cortázar (Civilização Brasileira, 1998)

Esta é a segunda vez que escrevo um segundo post sobre o mesmo livro desde que comecei o blog. A primeira - O livro no Brasil - foi distração. Agora, é intencional. O caso é que, depois das minhas melhores amigas insistirem muito, criei um (micro)perfil no Facebook. Ainda estou apanhando, não sei muito bem o que estou fazendo lá, mas, em todo caso, resolvi me inscrever em algumas comunidades sobre livros. Dei uma olhada em mais de 500 delas e, embora "Jonathan Safran Foer is extremely premium" e "I wish I could get amnesia so I could re-experience Harry Potter anew" tenham me tentado, acabei entrando apenas em duas discussões genéricas e numa outra sobre O morro dos ventos uivantes.

Eu teria entrado também numa comunidade sobre os cronópios de Cortázar, não fosse ela em espanhol. (Não adianta forçar: não leio, não entendo e não falo espanhol; prefiro nem tentar o portunhol.) E sempre que eu penso em Cortázar eu penso em Histórias de cronópios e de famas, e sempre que penso no livro penso em A foto saiu fora de foco, uma historinha simpática e tristinha que poderia ter sido feita pra mim, tamanha a fidelidade com que me descreve. No dia em que eu finalmente criar coragem de escrever sobre a depressão e a ansiedade, já sei o que usar como epígrafe.

terça-feira, 17 de março de 2009

O livro das ilusões

O livro das ilusões
Paul Auster (Companhia das Letras, 2002)

Faz muito tempo que estou ensaiando para escrever sobre O livro das ilusões, talvez meu Paul Auster preferido. Começa pelo título, que é lindo. Tem a epígrafe, de Chateaubriand: Man has not one and the same life. He has many lives, placed end to end, and that is the cause of his misery. E o enredo envolvente sobre o encontro de um professor com um velho comediante que o mundo acreditava estar morto, e a história do artista, e os filmes que ele deixou prontos e ninguém nunca viu, e o envolvimento do professor com a filha postiça do artista, e o destino da obra desconhecida.

Eu demorei alguns anos e vários livros para descobrir que meu interesse e quase devoção por Paul Auster devia-se ao principal elemento em sua obra: o acaso. O imponderável. A vida como ela é, e não como a gente gostaria que fosse. Houve um tempo - durante, talvez, uns vinte anos? - em que eu torcia pela esperançosa troca de papéis: a vida, essa sim, seria passível de condução; a literatura é que deveria funcionar ao acaso, segundo o ânimo e o humor do escritor. Que nada. Paul Auster usa o acaso da vida a seu favor, em livros que tratam do acaso da vida de um jeito às vezes terno, às vezes cruel, quase sempre denso. Do jeito que a vida é.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Entre panelas e tigelas: a aventura continua

Entre panelas e tigelas: a aventura continua
Heloísa Bacellar (DBA, 2008)

Foi preciso um bom desprendimento financeiro pra desembolsar a grana desse livro, a "continuação" de Cozinhando para amigos - no bom gosto das fotos e do projeto gráfico, nos textos agradáveis e nas receitas tentadoras. Mas livro é sempre dinheiro bem gasto, penso eu, e eu adoro me convencer com argumentos como "logo logo é meu aniversário e eu mereço os presentes que puder me dar". É verdade, by the way.

Pois esse segundo volume de Cozinhando para amigos parece ainda melhor que o primeiro. Não deu tempo de ler tudo, mas reparei que várias porções, dessa vez, são menores - o que facilita muito a vida de quem mora sozinha, como eu, porque dá pra calcular melhor a quantidade de ingredientes na hora de fazer as receitas divididas. O primeiro capítulo me ganhou de cara: "Eu adoro maçã". Eu também adoro maçã, mas com uma condição: que ela seja processada em bolos, biscoitos, sucos, purês, sopas, saladas. (Acontece o mesmo com a goiaba, sou fanática pelos derivados mas não gosto in natura.) Minha primeira experiência vai ser um arroz com feijão-verde, abóbora e queijo de coalho. Mas chega de falar em comida porque amanhã vou tirar um raio-X do estômago e já entrei no jejum de 12 horas requerido pelo exame...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Classic make-up & beauty

Classic make-up & beauty
Mary Quant (Dorling Kindersley, 2007)

Já fazia algum tempo que eu não chorava tanto quanto na noite passada. O choro de tristeza é pior do que o choro de raiva, o da dor física e, claro, o da alegria e o da emoção. Parece que deixa marcas mais fundas, abre rugas que teimam em não fechar nem com cremes moderníssimos, transforma lágrimas e secreções num só jorro salgado que ao mesmo tempo alivia e causa repulsa.

Portanto hoje, quando acordei, o espelho denunciou as marcas do choro e da noite mal dormida. E eu só consegui adquirir segurança suficiente pra levantar a cabeça e sair para o trabalho depois de meia hora usando os truques desse livro para desinchar os olhos e dar ao rosto uma aparência menos abatida. Classic make-up & beauty ensina, com centenas de fotos e passo-a-passos instrutivos, como reconhecer seu tipo de pele, passar blush, pintar direito os olhos para valorizá-los e aumentá-los - foi a minha salvação matinal. Então eu descobri que maquiagem, além de muito importante para o meu bem-estar, pode ser de ajuda fundamental nos dias em que a tristeza parece estampada na cara.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Calvin e Haroldo - Tem alguma coisa babando embaixo da cama

Calvin e Haroldo - Tem alguma coisa babando embaixo da cama
Bill Watterson (Conrad do Brasil, 2008)

Por muito tempo, eu tive medo de viajar de avião. (Hoje, pelo menos, o kit "comprimidos tarja-preta/máscara de olhos /travesseiro de pescoço /protetores de ouvido" garante uma noite tranqüila e sem preocupações durante o vôo.) E, por todo esse tempo, uma das poucas coisas que desviavam minha atenção de todo barulho suspeito, aviso do piloto e luzes sinistras eram os livros de Calvin e Haroldo. Até na pior situação dá pra achar graça nas tirinhas do moleque e seu tigre de estimação.

Calvin acredita que seu bicho de pelúcia é de verdade, tem medo dos monstros debaixo da cama, faz constantes pesquisas de aprovação sobre o comportamento do pai e deixa a mãe doida - em resumo, aproveita a vida de uma criança de 6 anos que, além de inteligente, é criativa pra caramba. Um adorável pestinha e seu invejável melhor amigo, ambos cheios de tiradas filosóficas melhores que muito livro adulto circulando por aí.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O barão nas árvores

O barão nas árvores
Italo Calvino (Companhia das Letras, 1991)

Essa semana eu encontrei um pedacinho do passado e foi bom ver que, por mais que certas coisas não possam ser de novo o que já foram, a lembrança que vai existir pra sempre é bonita e carinhosa, uma lembrança que a gente sempre pode retomar pra se sentir reconfortado, quando preciso. De uma maneira menos tortuosa do que pode parecer, esse livro causa em mim o mesmo efeito: pensar nele traz uma sensação de aconchego que eu sinto apenas diante de coisas cheias de lirismo e beleza.

Na leitura de alguns - principalmente de quem não vê o sutil valor de Calvino -, O barão nas árvores não passa de uma fábula ingênua. Pra mim, não é. A história de Cosme Chuvasco de Rondó, um nobre rapaz do século 18 que, num certo dia de sua vida, resolve viver em cima das árvores, está cheia de uma ironia inteligente e de uma delicada poesia. Do alto, Cosme vê melhor a vida aqui embaixo. Acompanha as idas e vindas de sua família. Apaixona-se por Viola. E permanece firme ao propósito de nunca mais descer.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O mistério dos sete relógios

O mistério dos sete relógios
Agatha Christie (Nova Fronteira, 2002)

Ontem eu percebi que tenho três relógios parados em casa (todos em torno das 11 horas. Bizarro). E aí me lembrei desse livro, um dos que mais gosto de Agatha Christie, e que começa não com três, mas com sete relógios enfileirados na cena de um crime - havia ainda um oitavo, que foi jogado com força para fora da janela. Por quê?

Engraçado, em nenhum dos meus Agatha Christie preferidos o mistério é solucionado por Hercule Poirot ou Miss Marple. São sempre detetives, digamos, improvisados. Está certo que, nesse caso, o trio formado por Bundle, Bill e Jimmy ganha uma mãozinha do "impassível" superintendente Battle, da Scotland Yard, um personagem bacana que aparece em poucas histórias de Christie. Junto, o trio vai passar um fim de semana numa mansão aristocrática, invade um lugar suspeito num bairro londrino mais suspeito ainda e se vê envolvido não só em assassinatos, mas no roubo de importantes documentos. E ainda tem uma pitada de romance pra incrementar a história.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A elegância do ouriço

A elegância do ouriço
Muriel Barbery (Companhia das Letras, 2008)

Foi o querido doutor Reinaldo que me indicou esse livro, tão doce e tão surpreendente. Acho que ele põe fé na minha recuperação, já que os temas tratados estão longe de ser fáceis, ainda que trabalhados com leveza e uma certa poesia. É daquele tipo de leitura que dá vontade de voltar para a primeira página assim que a história acaba. E eu chorei no final - fazia muito tempo que eu não chorava por causa de um livro.

A elegância do ouriço - o título estranho se justifica de um jeito bem pertinente - é formado pelas narrativas paralelas da concièrge de um edifício em Paris e de uma garota de 12 anos que mora no mesmo prédio. Renée, a concièrge, esconde sua personalidade forte e seu gosto pela cultura porque não considera que essas sejam características apropriadas para alguém em sua posição. A garota, que só tem o nome revelado na parte final do livro, acredita que a vida não tem o menor sentido e por isso decide se matar em seu aniversário de 13 anos. Daí, a certa altura, a vida das duas se entrelaça.

domingo, 21 de setembro de 2008

The one hundred

The one hundred
Nina Garcia (Collins, 2008)

Estou longe de ser fashionista ou de seguir a ditadura da moda, mas confesso que tenho adorado os livros sobre o assunto. Como sabiamente disse um amigo meu, é só depois dos 30 anos que a gente aprende de verdade a se vestir, a saber o que cai bem, que peças nos valorizam, o que evitar e assim por diante - e isso só acontece graças ao acúmulo de informações adquiridas ao longo do tempo e às dezenas de fotografias que nos mostram naquelas irreverentes, necessárias e despreocupadas roupas da juventude (se você passou por isso nos anos 80 e começo dos 90, o trauma é maior).

Informações, e não regras, mudaram a maneira com que eu me visto. Se eu sei que listras horizontais engordam, procuro evitá-las. Se eu sei que gola alta não favorece o meu colo, uso decotes em V. Tudo é válido para que eu me sinta bem dentro da roupa que estou usando no lugar em que trabalho, num bar ou restaurante, na festa de família. Nina Garcia colabora para isso ao elencar as 100 peças que, em sua opinião, vão se manter sempre em alta, não importa o modismo atual: o pretinho básico, um casaco caramelo, jaqueta jeans, meias pretas opacas... Qualquer uma delas, porém, deve ser usada de acordo com o seu tipo físico, seu estilo de vida, sua personalidade. Eu, por exemplo, ficaria ridícula numa saia de oncinha. Mas encher o braço de pulseiras diferentes, coloridas e barulhentas até que não é má idéia...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

The Dean & Deluca cookbook

The Dean & Deluca cookbook
David Rosengarten

Quem já foi a Nova York conhece, ou já deve ter ouvido falar na Dean & Deluca - pra quem gosta de comer bem, é uma perdição. Misto de empório gourmet, rotisserie, padaria e café, a D&D tem uma loja grandinha no Soho e, agora, um quiosquinho dentro da livraria do shopping de Columbus Circle. Já fui viciada no sanduíche de legumes e queijo de cabra que ele faziam. Em minha última visita, em janeiro, aumentei muito meu estoque calórico com uns deliciosos scones de cranberry e laranja.

Mas a D&D não é só loja e nem é só café. Sua rotisserie deixa qualquer um com vontade de largar os livros de receita e passar a comer só os franguinhos grelhados, saladas e massas que eles inventam. Boa parte das criações D&D foi reunida nesse livro, que está longe de ser uma mera compilação culinária: fala também (e principalmente) dos ingredientes, das diferenças culturais em relação a eles, dá sugestões de preparo e, por fim, lá vêm a receita. Eu já fiz várias, sempre com sucesso. Se é que o livro tem algum defeito, é deixar de fora a parte das sobremesas. Ou melhor, de confeitaria - eu adoraria saber preparar aquele scone de cranberry e laranja.

sábado, 19 de julho de 2008

Seis propostas para o próximo milênio

Seis propostas para o próximo milênio
Italo Calvino (Companhia das Letras, 1990)

Minha edição desse livro de Calvino é também da Companhia das Letras, mas de uma coleção bem mais antiga, e que tinha capas bem mais feias. O livro que eu tenho nem é tão velho assim - comprei em junho de 1991, como anotei com marca-texto azul numa das páginas iniciais - mas já está esfarelando. Nem meus dez volumes da Inspetora, bem mais antigos, estão tão acabados. Nem meu Ernani Silva Bruno, de 1954. E o que eu sinto quando vejo o Seis propostas... esfacelado não é dó, não é tristeza: é orgulho. Isso é que dá ler demais, e eu definitivamente sou do tipo que deixa o livro aberto pra marcar a página, ou marca com a orelha, que anota a lápis, volta a anotar com caneta, e depois com canetas de outras cores de acordo com as releituras, e que comenta as anotações. Só não entendo por que nunca consegui dobrar as pontas das páginas para me lembrar onde parei a leitura; como a camareira do Ex-libris de Anne Fadiman, vai ver eu acho que o livro podia sofrer.

Seis propostas... reúne cinco textos que Italo Calvino preparou para uma série de conferências em Harvard. Morreu antes de completar o sexto, mas o trabalho que deixou vale por toda a sua obra. Segundo o escritor, a literatura deve se basear em leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. Não preciso nem pegar o livro na estante para me lembrar de um exemplo de leveza, o trecho de um poema de Leopardi que falava sobre a lua (...luna, cara luna, che fai tu in ciel? dimme, che fai?...). Um não, dois trechos de dois poemas - em 1991, eu ainda estudava italiano e gostava de declamá-los como se fossem um só. É esquisito pensar agora, ao escrever esse post, que meu livro preferido de Calvino pregue virtudes que eu não sei se consigo aplicar na escrita ou na vida. O novo milênio já chegou e anda correndo. Mas onde a leveza, onde a exatidão?

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Histórias de cronópios e de famas

Histórias de cronópios e de famas
Julio Cortázar (Civilização Brasileira, 1998)

Passei os últimos 15 anos da minha vida tentando descobrir se eu sou mais cronópio ou mais fama. É claro que somos todos um pouco de cada - mas eu me lembro de que o homem que me falou desse livro pela primeira vez achava que eu podia tentar ser um pouco mais cronópio. E não é raro acontecer de eu tomar uma decisão, ou uma atitude, e ficar me questionando se isso é coisa dos destrambelhados cronópios ou dos famas chatos e organizados, que não têm qualquer imaginação.

Aí eu sempre me lembro que a resposta mais próxima para a pergunta "quem sou eu?" está mesmo no livro. Julio Cortázar, o escritor com cara de gato, evidentemente não me conheceu. Mas ninguém poderia ter me descrito de maneira melhor do que ele, no textinho A foto saiu fora de foco. É a história de um cronópio.

domingo, 6 de julho de 2008

Flicts

Flicts
Ziraldo (Melhoramentos, 2003)

Eu não esqueço a emoção de ter chegado ao fim de Flicts pela primeira vez, e sou capaz de sentir o mesmo arrepio de grand finale sempre que o leio de novo - pra completar, me lembro da frase final cantada apoteoticamente num musical gravado em disco acho que nos anos 80, mais um motivo para eu me emocionar. Sempre gostei de finais apoteóticos.

Esse talvez seja o melhor livro infantil de Ziraldo, junto com O menino maluquinho. Conta a história de uma cor, Flicts, que não existia em lugar nenhum do mundo, nem na natureza, nem nas caixas de lápis coloridos. Flicts então era esnobado, botado pra escanteio pelas outras cores, e tinha uma auto-estima no pé. Até que... A tentação de reproduzir aqui a frase final do livro é grande, mas prefiro guardá-la do meu jeito emocionado.

Em alguma Bienal do Livro dos anos 90, Ziraldo causou polêmica ao criar um botton que dizia "Ler é mais importante que estudar". Concordei inteiramente. Por essas e outras, eu o tinha como uma espécie de modelo das coisas sensatas da vida. Até que, no começo dos anos 2000, eu esperava pacientemente numa fila de embarque enorme no aeroporto Santos Dumont, no Rio, até fazer o check-in para São Paulo. De longe, lá vem ele: cabelos brancos bem cuidados, o colete inseparável. E Ziraldo, então... fura a fila, alegando um compromisso, e embarca antes de todo mundo. Flicts teria se envergonhado.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Guess how much I love you

Guess how much I love you
Sam McBratney (Walker Books UK, 2006)

Desde Pedro, o coelho, de Beatrix Potter, eu não me interessei por nenhum outro coelhinho literário fofinho até conhecer a dupla de pai e filho deste livro encantador - pra dizer a verdade, pai e filho são duas lebres, e não coelhos. Há uma edição em português, mas foi em inglês que eu o li, logo depois do lançamento, e foi em inglês que eu o mandei de presente para o homem com quem descobri um amor tão intenso quanto a distância que nos separava.

É esse, justamente, o tema do livro: a intensidade do amor, que a lebre-filho tenta traduzir em distâncias, numa divertida competição com o pai. "Eu te amo daqui até o rio", diz o filho. "Mas eu te amo até as montanhas que ficam depois do rio", rebate o pai. Não dá pra quantificar o amor. Mas a disputa dos dois bichinhos dá uma boa idéia de até onde ele pode chegar.

domingo, 22 de junho de 2008

A Inspetora e o caso do broche desaparecido

A Inspetora e o caso do broche desaparecido
Santos de Oliveira (Ediouro, 1979)

Faz muito tempo que eu conheço um livreiro daqueles que não se encontram mais hoje em dia. Alguém que sabe do que está falando, que conhece o gosto dos clientes e indica livros que sem dúvida irão agradá-los. Ele já não tem mais loja, mas continua exercendo sua vocação de facilitador literário ao procurar em sebos - e quase sempre encontrar - os títulos difíceis que a clientela lhe pede.

Há uns dois ou três anos, eu lhe propus um desafio: encontrar para mim qualquer volume da série da Inspetora, uma coleção infanto-juvenil publicada na Ediouro nos anos 70/80 e escrita por Santos de Oliveira - um outro nome usado por Ganymédes José. Já tinha quase esquecido da história quando um dia cheguei em casa e o porteiro me entregou um pacotão de papel pardo. Quando abri, encontrei nove livros da Inspetora, e foi chorando de emoção que liguei para o livreiro, não só para perguntar como eu fazia o pagamento mas também para agradecer seu trabalho. Acho que ele ficou contente, porque dias mais tarde me arrumou o décimo livro, e por esse não quis nem cobrar.

Garota esperta e inteligente, Eloísa mora numa fazenda com os pais, a prima Malu, a empregada Bortolina e José Luís, filho do caseiro. Os quatro garotos formam a Patota da Coruja de Papelão, sempre pronta a resolver os mistérios que aparecem na pequena cidade: roubo de jóias, assaltos, sabotagens, luzes misteriosas... Escrito numa época em que ninguém estava nem aí com o politicamente correto, José Luís é tratado de orelhudo e gordo, Bortolina de negrinha burra e por aí vai. Pena. Não fosse por isso, a Patota da Coruja de Papelão bem que merecia um relançamento caprichado.

sábado, 21 de junho de 2008

Uma rua como aquela

Uma rua como aquela
Lucília Junqueira de Almeida Prado (Planeta do Brasil, 2003)

Outro dia li no jornal que Lucília Junqueira de Almeida Prado estava lançando um novo livro. Fiquei surpresa: numa ignorância vergonhosa a respeito das escritoras que marcaram minha infância, eu nem sabia que ela ainda estava viva. Pois está, e aos 84 anos editou um romance autobiográfico, Sob as asas da aurora (Scortecci/Conquista). (E Teresa Noronha, Isa Silveira Leal, Giselda Laporta Nicolelis, Stella Carr, Maria José Dupré, o que terá acontecido com elas? O principal nome masculino da lista, Ganymedes José, eu sei que morreu precocemente.)

Sobre esses livros dos anos 70 e começo dos 80, não é exagero dizer que, durante a leitura, eu me mudava para dentro deles. Foi o que aconteceu com Uma rua como aquela, que me transportou para uma rua sem saída, travessa da avenida Brasil, em São Paulo, e que me fazia imaginar diálogos com o Reinaldo, o Alexandre, a Fátima, a dona Iaiá do piano, o Planador, o Carlão, a Lavínia - caramba, eu queria ser a Lavínia! (E acho que foi ela quem me ensinou a enfrentar a série de amores platônicos que eu viveria durante a adolescência.) Ainda tenho meu exemplar desse clássico particular, e o releio sempre que posso, ao menos uma parte ou outra. Conheço as histórias de trás pra frente e não deixo nunca de me emocionar com elas, a carta de Alexandre que Lavínia lê para a garotada no dia em que a Apolo 11 pousa na Lua, a molecada levando de volta o piano de dona Iaiá, a fala decisiva do Avarento no fim do livro. Acho que é disso que os livros inesquecíveis são feitos: boas histórias e excelentes lembranças.

domingo, 15 de junho de 2008

Auto-engano

Auto-engano
Eduardo Giannetti (Cia. das Letras, 2005)

Eduardo Giannetti é a maior fonte de epígrafes para os livros que eu não vou escrever, e contribui não só com idéias próprias como com frases dos outros - "É doce manter nossa mente fora do alcance daquilo que a fere", de Sófocles, está entre as minhas preferidas e resume muito bem o espírito do livro. Essa minha pequena edição de bolso tem centenas de marcações, parágrafos sublinhados e anotações numa letra tremida que eu às vezes peno para decifrar, ou que remetem a sei lá quais pensamentos andavam povoando minha cabeça na época da leitura (eu devia começar a marcar também quando um livro é lido, e não apenas quando é comprado).

Porque é fácil a cabeça encher-se de idéias e reflexões a partir das idéias e reflexões de Giannetti. Auto-engano mostra como a condição do título é vital para seguirmos em frente. Dos disfarces animais como forma de defesa ou ataque às mentiras e afirmações que impomos a nós e aos outros, todo ser vivo precisa de ilusões. Difícil é encontrar o balanço adequado entre o engano produtivo e o engano covarde.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Harry Potter e as relíquias da morte

Harry Potter e as relíquias da morte
J.K. Rowling

Acho que não existe nada pior para um leitor compulsivo e ansioso do que uma história publicada em série. Quando o primeiro Harry Potter saiu em português, eu decidi: não vou morrer antes de ler o último episódio dessa saga. E pelos sete anos seguintes eu quase virei uma fanática dessas que discutem a trama em fóruns na internet e vão ao lançamento vestidas de Hermione. Li os dois primeiros volumes em português e a partir do terceiro eu só não ficava na fila da livraria, esperando as caixas serem abertas, porque já tinha encomendado o meu livro em inglês pela Amazon e lido tudo antes que ele chegasse aqui.

Eu gosto muito da boa literatura infanto-juvenil (tá, e da ruim também, desde que traga queridas lembranças da infância), mas não pensei que fosse cair tanto de amores por Harry Potter; no início, até torci o nariz pela badalação excessiva. Só que quando a curiosidade venceu e eu comprei o primeiro volume, a surpresa foi enorme: desde Monteiro Lobato, eu nunca tinha visto alguém criar um mundo de fantasia tão coerente e interessante. (Declaração: acho Tolkien muito, muito chato.) Pra completar, a história é ótima e tem uma dose certa de mistérios e revelações - você sai de cada livro com algumas dúvidas respondidas e outras ainda mais intrigantes.

A trama é manjadíssima (aos 11 anos, Harry Potter descobre que é bruxo, que seus pais morreram para salvá-lo do terrível vilão Voldemort e que ele, de alguma forma, tem seu destino ligado ao coisa-ruim do mundo mágico) e enorme (são sete livros! Tem gente que morre, que surge, segredos, aulas de magia, viagens, jogos de quadribol...). E não é porque pertence a um mundo diferente que Harry se vê livre das dores e aflições comuns a todo ser humano. Ao longo da saga, ele briga com os amigos, vira um adolescente chato, vê muita gente querida morrer e carrega nas costas um peso de culpa e confusões que o faria passar uns bons anos no divã.

Abri As relíquias da morte com um certo receio: e se J.K. Rowling resolvesse jogar fora tudo o que escrevera antes e apelar para um final meloso e maniqueísta? Não foi o que aconteceu. O sétimo volume é, certamente, o melhor de toda a série, onde tudo se encaixa e se explica. Pensando bem, até mesmo o epílogo, que de início achei dispensável, tem lá sua razão de ser. Agora eu já posso morrer - bem, pelo menos enquanto Rowling não inventar algo parecido outra vez.

PS. Apesar de eu ter lido a maior parte da saga em inglês, é preciso elogiar a excelente tradução de Lia Wyler, que conseguiu captar a essência dos neologismos latinistas de J.K. Rowling e criar termos em português à altura. Deu um show.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Fazes-me falta

Fazes-me falta
Inês Pedrosa (Planeta, 2003)

Faz parte da categoria "ai que inveja, como eu queria ter escrito isso". E da assustadora categoria "como é que podem ter escrito tão bem sobre mim sem ao menos me conhecerem?". É difícil falar de Fazes-me falta sem ter vontade de chorar. Folhear o livro para rever as dezenas de passagens anotadas, os post-its cor-de-laranja grudados nas páginas, alguns já amassados de tanto que eu esperei o dia de ler em voz alta as frases que eu mais gostei. Fazes-me falta é daquele tipo de livro que - assim como O passado, covardemente não lido - materializa as conversas que eu tive com ele, a história que eu vivi com ele, as discussões que tivemos e a milagrosa identidade. No livro de Inês Pedrosa, ela morreu e se comunica com o amigo em cartas recheadas de sentimento e lembranças; ele responde com questionamentos sobre Deus e o relacionamento. Dizer só isso é pouco; só que mais não há para ser dito.

Das páginas 13 e 14, que nem estavam marcadas com post-it: "Tu foste simplesmente à tua vida e eu fui à minha. Como sabes, eu vivo por relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso. De qualquer modo, a morte espreita sobre todos os prazeres dessa cronologia a que nos agarramos para escapar ao tempo. O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu - íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus - quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. Olho para o mar do Guincho, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas de mergulhar, e sinto-me também eu meio morto, meio frio. Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora de jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem o silêncio se transtornem. Cair em ti, cada vez mais longe da mísera ficção de mim."