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domingo, 7 de março de 2010

A autobiografia de Alice B. Toklas

A autobiografia de Alice B. Toklas
Gertrude Stein (CosacNaify, 2009)

Aos trancos - não porque não esteja gostando, mas porque o tempo parece ter se esmerado em pregar suas peças em mim -, estou terminando de ler Paris é uma festa, de Hemingway, numa versão em inglês, para o Kindle, anterior àquela que um de seus netos desfigurou para tentar melhorar a imagem da avó. E me diverti muito, logo no início, quando Hemingway fala de sua amizade com Gertrude Stein, bem na época retratada pela escritora nesse A autobiografia de Alice B. Toklas. Sim, trata-se de uma "autobiografia", mas escrita por outra pessoa - afinal, a vida de uma é a vida da outra.

Alice viveu com Gertrude por 38 anos, dividindo os papéis de amante, secretária, governanta e eventual cozinheira. Segundo MFK Fisher, no prefácio de O livro de cozinha de Alice B. Toklas, foi uma mulher baixinha, muito feia, de olhos vivos e gosto por chapéu espetaculares. Era dela a tarefa, como conta Gertrude e corrobora Hemingway (sem, no entanto, citar o nome de Alice), de conversar com as mulheres dos amigos da casa, de passar a limpo e de fazer a revisão dos textos da companheira.

Eu já tinha lido O livro de cozinha..., escrito pela própria Alice depois da morte de Gertrude Stein. É meio sisudo e, às vezes, até baixo-astral, embora traga histórias inspiradoras - muito diferente da bem-humorada autobiografia que, mesmo sem ter saído da pena da biografada, consegue mostrar de um jeito bem mais amigável quem foi, afinal, essa americana que largou tudo em seu país para viver, na França, com a escritora (já, então, um tanto famosa - se não pelos livros, pela fabulosa coleção de amigos: Picasso, Matisse, Apollinaire, Sherwood Anderson, vários outros).

É também através das palavras de Alice que Gertrude Stein fala muito de si mesma, quase sempre sem nenhuma modéstia ("Posso dizer que só três vezes na vida encontrei gênios [...] Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred Whitehead"), das frustrações e expectativas em relação à sua obra e de seu método de trabalho. Picasso, suas mulheres e seus quadros, ocupam boa parte das memórias, assim como a convivência com Matisse, desafeto da cozinheira Hélène: "(...) Monsieur Matisse vai ficar para jantar hoje, ela dizia, nesse caso não vou fazer omelete, mas ovos fritos. Gasta o mesmo número de ovos e a mesma quantidade de manteiga, mas demonstra menos respeito e ele vai entender."

Dá vontade de ler outra vez, assim que eu acabar o Hemingway, e continuar lendo outros escritos sobre essa época em Paris. O livro de Sylvia Beach sobre a Shakespeare and Company. Paris era ontem, de Janet Flanner, a correspondente da revista The New Yorker, na França, quando Gertrude, Alice, Pablo, Ernest e tantos outros viviam lá. É dela, aliás, a frase "qualquer autobiografia de uma será, necessariamente, uma biografia da outra", que usei adaptada ali em cima, e que aparece no ótimo posfácio de Silviano Santiago - ilustrado por uma foto das duas, Gertrude Stein levando um cachorro na coleira e Alice B. Toklas a seu lado, baixinha, muito feia, com um chapéu espetacular.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Enchantment - The life of Audrey Hepburn

Enchantment - The life of Audrey Hepburn
Donald Spoto (Harmony Books/Random House, 2006)

Nem sei quando foi que eu comecei a amar Audrey Hepburn - sei que Bonequinha de luxo efetivamente mudou a minha vida e que, se eu pudesse escolher, teria exatamente o shape e os Givenchy de Holly Golightly. Já adulta, fui vendo um filme de Audrey atrás do outro: Cinderela em Paris, Sabrina, o ótimo Um clarão nas trevas, Paris quando alucina, My fair lady, Como roubar 1 milhão de dólares, Charada, A princesa e o plebeu.

Sabendo da minha admiração pela atriz, minha cunhada me deu esta biografia de presente, há uns dois anos. Mas só agora consegui pegar pra ler direito: gostei de muitas coisas e não gostei de várias outras. Foi bacana, por exemplo, conhecer detalhes do começo da vida de Audrey Hepburn - saber que ela passou a Segunda Guerra, ainda criança, fingindo ser holandesa, e não britânica, pra não correr o risco de ser pega pelos alemães; saber que ela testemunhou o fuzilamento do tio e de dois primos, também durante a guerra; saber que ela carregou pelo resto da vida o trauma de ter sido abandonada pelo pai. E são bacanas as histórias dos bastidores de diversos filmes da jovem atriz: o caso dela com William Holden e o mau-humor de Humphrey Bogart em Sabrina, a traição do estúdio ao dublá-la sem aviso prévio em My fair lady, o estrelismo de Fred Astaire em Cinderela em Paris, a recusa de Gary Grant em trabalhar com Audrey até Charada.

O lado ruim do livro resume-se - e isso não é pouco - à idolatria de Donald Spoto em relação a seu personagem. O autor trata Audrey Hepburn como uma mulher sem defeitos: amada por todos, estudiosa, simples, modesta em relação ao próprio talento, devotada aos maridos, à mãe, ao pai e aos filhos, elegante sem ser fashion victim, ciosa da própria privacidade, generosa, dedicada a causas nobres. Mas santos não existem, certo? Eu acho impossível que Audrey Hepburn - que qualquer ser humano - não tenha dado uma escorregadinha sequer. Ainda assim, até para falar de pelo menos duas vezes em que ela traiu seu primeiro marido, Mel Ferrer (com o roteirista Robert Anderson e com o ator Albert Finney), Spoto escreve como se ela fosse apenas a vítima de um casamento infeliz, e logo muda de assunto para não ter que entrar no mérito da coisa. Quem sabe, um dia, eu encontre uma biografia mais pé no chão sobre ela.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Roberto Carlos em detalhes

Roberto Carlos em detalhes
Paulo César Araújo (Planeta, 2006

Faz tempo que estou para escrever sobre esta biografia que o Rei, a meu ver injustamente, mandou recolher das livrarias. Paulo César Araújo fez um trabalho de fã, mas com uma vantagem enorme sobre grande parte dos trabalhos de fãs que já vi publicados por aí: pesquisou de verdade, entrevistou um monte de gente, documentou direitinho, escreveu bem e ainda deixou de lado certos detalhes bizarros - que amigos meus contaram ao participar da produção de um show de RC - sobre a fase pós-morte de Maria Rita e pré-tratamento contra o TOC. Ou seja, respeitou o cara.

E eu nunca tinha lido nada tão completo sobre Roberto Carlos desde a infância, em Cachoeiro do Itapemirim, desde o começo ainda criança, no rádio. Na época do lançamento do livro, chegou-se a dizer que o Rei não gostou de ver revelados os detalhes do acidente de trem que lhe arrancou um pedaço da perna (depois, houve quem dissesse que ele nem tinha lido a biografia). Mas isso, sim, é público e notório; até algumas de suas canções são alusivas ao episódio. O livro conta, também, a história de alguns casinhos (com Maysa, com Sônia Braga) que nunca tinham sido muito falados, e que, em lugar de comprometer sua imagem, só ajudam a humanizar o ídolo.

Tive a sorte de comprar o livro nos primeiros dias do lançamento. Se não tivesse, provavelmente faria o que centenas de pessoas devem estar fazendo hoje: com uma simples pesquisa no Google, é possível descobrir dezenas de sites com o conteúdo integral do livro, para download.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Anarquistas, graças a Deus

Anarquistas, graças a Deus
Zélia Gattai (Companhia das Letras, 2009)

E aqui cabe a confissão: eu nunca gostei de Jorge Amado. Meu avô adorava, tinha uma boa coleção do baiano na estante. Li uns e outros, e até hoje não consegui me desfazer da ideia de que JA escreveu apenas dois livros: a linha Capitães da Areia/Mar Morto e a linha Gabriela/Dona Flor/Tieta. É claro que isso pode ser uma grande bobagem, mas foi o que senti. (Talvez eu ainda possa ler Tenda dos Milagres pra ver se mudo de opinião.)

Por isso, tive a maior surpresa ao ler Anarquistas, graças a Deus - e só li por insistência das minhas tias, acho que numas férias no Guarujá, diante da garantia delas de que o texto de Zélia Gattai não tinha nada a ver com o do marido. É verdade. Anarquistas... é o primeiro de uma série de livros com as memórias de Zélia. Mais centrado em seus pais, Ernesto e Angelina, conta a história de uma família de italianos que veio para o Brasil e viveu intensamente na São Paulo das primeiras décadas do século 20. Depois virou minissérie da Globo, mas essa eu não assisti.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Erico Verissimo

Erico Verissimo
Instituto Moreira Salles, 2003

Consta que, quando perguntado se podia dar uma declaração sobre Luis Fernando Verissimo para uma reportagem da revista Veja, Fernando Henrique Cardoso teria dito: "Verissimo, pra mim, só o Erico". Eu provavelmente responderia o mesmo. Não tenho nada contra o Luis Fernando, ao contrário. Mesmo com aquele jeito de tartaruguinha tímida, ele é muito simpático e eu gosto de Traçando New York e dos outros livros da série. Mas Erico é diferente. Erico é Literatura com L maiúsculo.

Esse é o 16º volume dos Cadernos de Literatura Brasileira, uma bela iniciativa do Instituto Moreira Salles - que edita, acredito que a cada seis meses, um volume inteiro sobre algum de nossos escritores. Ilustrado com belas fotos preto-e-branco (há um capítulo de Cristiano Mascaro sobre Porto Alegre e outro, de Edu Simões, sobre o interior gaúcho), o livrão traz uma cronologia, trechos de entrevistas concedidas por Verissimo a diversos jornais e revistas, ensaios sobre sua obra. Pra mim, o melhor de tudo é "Manuscritos/inéditos", com partes de um romance que EV deixou inacabado. Estão lá não apenas parágrafos inteiros do texto como reproduções coloridas de algumas páginas dos cadernos que ele usava para fazer anotações. Primeira descoberta: ele escrevia suas ideias tanto em português quanto em inglês. Segunda: ele desenhava seus próprios personagens. Acho um privilégio poder espiar a cabeça do escritor e conhecer seu método de trabalho. É claro que não existe fórmula, o que deixa tudo mais fascinante. Verissimo fazia assim, Cortázar daquele jeito, cada um descobre a melhor maneira de trabalhar e criar.

E para quem chegou até esse post porque digitou "árvore genealógica de O tempo e o vento" no Google, sinto muito. Vai ter que procurar em outro blog, abrir o bolso e comprar esse livro ou, muito melhor, largar a preguiça de lado e partir para a leitura da obra-prima de Verissimo.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

George, being George

George, being George
editado por Nelson W. Aldrich, Jr. (Random House, 2008)

Eu não sabia quase nada sobre o George Plimpton até ler uma matéria escrita pelo Graydon Carter, da Vanity Fair, no New York Times. Falava sobre o lançamento desse livro, contava algumas histórias que entraram para o folclore de Plimpton e me deixou morrendo de curiosidade sobre esse homem que nasceu rico, frequentou as melhores escolas, mudou-se para a Europa no pós-guerra e, quase de farra, juntou-se a outros americanos para, juntos, lançarem um marco da literatura mundial: a revista The Paris Review. (Qualquer um que se interesse a sério por livros e escritores deveria sair correndo em busca da compilação de entrevistas da PR, lançada pela Companhia das Letras.)

Organizado por um ex-editor da revista em Paris (depois a redação se mudou para Nova York), o livro é muitíssimo bem definido pelo subtítulo: George Plimpton's life as told, admired, deplored and envied by 200 friends, relatives, lovers, acquaintances, rivals - and a few unappreciative observers. Não existe um texto corrido, e sim parágrafos com o depoimento desses vários amigos, parentes, amantes, conhecidos, gente que participou da vida de Plimpton em cada uma de suas fases. Dá certo, e a gente percebe isso já no prólogo, uma sensacional coleção de testemunhos sobre a fascinação que ele tinha por fogos de artifício. Eu, que tenho uma birra tremenda por prólogos, adorei.

Eu ia dizer que George Plimpton teve uma vida invejável: foi gregário, festeiro, empreendedor, aventureiro. Virou celebridade, e isso não é coisa das mais fáceis no mundo literário. Mas não posso invejar, porque sou o anti-Plimpton total. E estou muito contente assim. É tão bom saber que os livros - e muitas biografias, como a do Richard Burton - podem preencher esse tantinho de desprendimento que eu não faço questão de aprender a essa altura da vida, porque gosto dela do jeito que é.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Maysa

Maysa - Só numa multidão de amores
Lira Neto (Globo, 2007)

Vi outro dia na TV a chamada para a próxima minissérie da Globo, sobre Maysa, e quase caí pra trás: a atriz escalada para o papel principal é a cara da cantora, uma semelhança impressionante. Já vi que vou ter de fazer o esforço de dormir tarde (ou melhor, de largar a leitura noturna mais cedo) pra acompanhar o programa; sempre gostei da voz de Maysa, de sua interpretação apaixonada de Ne me quitte pas e de Se todos fossem iguais a você.

Não sei se a biografia de Lira Neto ajudou na composição da minissérie; sei que o filho da cantora, Jayme Monjardim, colocou à disposição do autor arquivos familiares e os diários da mãe para ajudar na elaboração do livro. É bem feito, tem boas histórias e permite à gente entender os tais oceanos não pacíficos que mostravam seus olhos, no dizer de Manuel Bandeira. Maysa era precoce: compôs e cantou cedo, casou-se cedo, teve um filho cedo e começou a beber muito cedo. Não é de se espantar que também tenha morrido cedo, aos 40 anos, deixando pra trás um turbilhão de amores, tristezas, porres e gravações cheias de sentimento. Como em quase toda biografia, porém, só lamento que a quantidade de fotos do livro seja reduzida: é muito interessante ver a evolução da beleza de Maysa, da maquiagem pesada e cabelos arrumadinhos dos anos 50 à liberdade leonina das calças jeans e cabeleira revolta dos anos 70.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Some of me

Some of me
Isabella Rossellini (Random House, 1997)

Isabella Rossellini está entre os meus principais modelos de beleza; eu sempre pensei "quero chegar aos 40 (ou aos 45, ou aos 50) linda como ela". E adorei quando duas amigas-irmãs queridíssimas e xarás me deram de presente essa espécie de autobiografia, com dedicatórias bem sugestivas: "que seu sonho se realize", "ela é bem o seu padrão para se ter como ideal".

Estou longe, a anos-luz de distância de ter a beleza de Isabella Rossellini, mas gosto de pensar que é possível chegar aos 40 (e aos 45, aos 50) bem de rosto, corpo e espírito. E bem de corpo não significa ser magra; IR quase nunca foi. Mais importante: deve ser bem bacana chegar aos 45, a idade que ela tinha ao escrever o livro, com tanta história pra contar sobre experiências pessoais e lembranças dos outros - esse é o tal "bem de espírito" (alma, astral, humor, whatever). Tá certo que Isabella gasta metade das páginas pra dizer como é linda e como as pessoas costumam confundi-la com a mãe, que também era linda. Mas na outra metade ela fala de seus casamentos com Martin Scorsese e David Lynch, relata conversas imaginárias com o pai morto, conta dos filhos, da fase de modelo, de como virou atriz. Tudo cheio de fotos (eu sempre acho que poderia haver mais), incluindo a minha preferida: um quadro feito por David Lynch para ela, cheio de... abelhas mortas. Sensacional.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Os irmãos Karamabloch

Os irmãos Karamabloch
Arnaldo Bloch (Companhia das Letras, 2008)

Sempre gostei de ler o Arnaldo Bloch no site de O Globo (até o jornal fechar o acesso online aos não-assinantes) e de vez em quando ainda vejo seu blog. Por isso fiquei animada quando soube que é ele o autor de uma biografia dos irmãos Bloch - Karamabloch, nas palavras de Otto Lara Resende. Fundada por Adolpho Bloch, a revista Manchete fez parte da minha infância; a edição da semana batia ponto na casa de meus avós. E, vai saber por que a memória guarda essas coisas, ainda me lembro direitinho de uma capa publicada em 1979, quando Leonel Brizola voltou do exílio.

Os irmãos Karamabloch é um livro bacana. Mas podia ser muito melhor. Numa família com tanta história boa e gente interessante, até entendo a necessidade do autor em focar-se numa só figura, sob pena de escrever uma bíblia. O caso é que, em apenas 300 e poucas páginas, muita coisa acaba se perdendo. (Uma dúvida que não me sai da cabeça: que fim levou Liova, depois que os irmãos chegaram ao Brasil? Voltou a Salvador e acabou morrendo lá?) Eu mesma não sei como resolveria esse problema - para falar de Adolpho e suas realizações é necessário, sim, falar de Joseph e seus irmãos. Mas será que o livro precisaria voltar tanto no tempo? Ou dedicar tanto espaço às lembranças de Leonardo? E do próprio autor? Não sei. Não sei como eu faria. Mas Arnaldo Bloch bem que poderia lançar outro volume da saga familiar, com as histórias que ficaram de fora.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Sir Richard Francis Burton

Sir Richard Francis Burton
Edward Rice (Companhia das Letras, 1991)

Depois do Batman, Richard Burton é meu super-herói preferido - com a diferença de que RB não tinha nada de super e viveu de verdade, uma vida de aventuras às vezes tão surreais que em obras de ficção pareceriam exagero. Mas o cara era gente que faz e, entre outras coisas, organizou uma expedição para descobrir a nascente do Nilo, foi cônsul da Inglaterra no Brasil (dava expediente em Santos e viajou interior adentro, até Diamantina), aprendeu mais de vinte idiomas e dialetos, trabalhou como agente secreto na Ásia, África e Oriente Médio, traduziu o Kama Sutra e As mil e uma noites, fez a peregrinação a Meca mesmo sem ser muçulmano e a lista de seus feitos é tão extensa e intensa que um mero post não consegue resumir; Edward Rice precisou de quase 700 páginas.

E deu conta direitinho da tarefa. A gente sabe que uma biografia é boa quando dá vontade de ter participado da vida do biografado - por bem ou por mal, para admirá-lo ou odiá-lo mais de perto. Ou quando a gente sofre junto com o personagem, com a malária de Burton e o dardo que cortou sua face de lado a lado. E também quando dá vontade de largar tudo e ir atrás dos escritos do sujeito, das milhares de anotações que ele fez pelos lugares por onde passou, dos diários que preencheu, dos documentos que acumulou. Mas isso vai ser pra sempre impossível. Assim que Burton morreu, em 1890, aos 69 anos, sua mulher, uma doida-vaca-fanática católica, mandou queimar tudo o que ele deixou. Temia arruinar a reputação do marido. Arruinou foi a dela, e privou o mundo de aproveitar mais da vida fantástica que esse cara levou.

domingo, 23 de novembro de 2008

America's queen

America's queen
Sarah Bradford (Penguin USA, 2001)

Pra variar, a capa do livro que eu tenho é bem mais bonita, como já aconteceu aqui e aqui. Mostra Jacqueline Kennedy Onassis mais de perto, o queixo apoiado na mão, uma mulher mais parecida com a gente, e não com uma atriz de cinema, como aí ao lado. Jackie foi, é verdade, uma estrela, mas uma estrela do mundo real, com defeitos e sofrimentos que todos temos. Mesmo estrábica e baixinha, transformou-se num ícone fashion. Foi amada por seus "súditos" americanos durante e depois da presidência de John Kennedy. E começou a trabalhar (numa editora de Nova York) justamente quando não precisava, depois de ficar viúva do milionário grego Aristóteles Onassis.

Já faz tempo que li essa biografia - a data no começo do livro indica "30/11/01, pré-férias", uns dez dias que eu passei à beira de uma piscina, em Ilhabela -, e sempre que a vejo na estante tenho vontade de ler outra vez. Sei bem pouco sobre a família Kennedy, gostaria de saber mais. America's queen ajudou: mostrou que mesmo tendo crescido num ambiente milionário (graças ao padrasto rico) e se casado num clã poderoso, mesmo sendo plena de cultura e bom gosto, Jackie era uma mulher normal, que sofreu com traições e solidão, com a inveja da irmã, com a fama, com a morte estúpida de pessoas que ela amava. Agora eu torço para encontrar outra biografia, tão boa quanto, de John Kennedy e sua família.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Xul Solar

Xul Solar
Álvaro Abós (Editorial Sudamericana, 2004)

Conheci e me apaixonei pela obra de Xul Solar em dezembro de 2004, numa viagem a Buenos Aires. Foi também quando comprei esse livro, ainda que eu não fale nem portunhol e não tenha muita paciência para tentar entender o espanhol. Demorou, mas fui lendo aos poucos, confesso que pulando algumas partes que eu não compreendia, pelo menos pra me inteirar do básico sobre a vida do artista, um sujeito muito interessante que eu nunca tinha visto sequer citado em nenhum texto ou reportagem sobre a pintura latino-americana.

Mas Xul foi mais do que apenas pintor. Inventou idiomas como o neocriollo, criou um jogo esquisitíssimo (e muito bonito) parecido com o xadrez, foi amigo de Borges, contribuiu para a revista Martín Fierro... Entre os anos 20 e 50, só faltou virar a Buenos Aires cultural de cabeça pra baixo. Mais tarde, creio que em 2005, quando a Pinacoteca do Estado organizou uma excelente mostra das obras de Xul Solar, fui ver a exposição com o livro em punho. E descobri vários erros chatinhos, como nomes de obras incorretos. Infelizmente, o volume continua sendo a única referência que já encontrei, até hoje, sobre a vida e o fascinante trabalho desse argentino inspirador.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O santo sujo

O santo sujo
Humberto Werneck (Cosac Naify, 2008)

Ao ler a biografia de Jayme Ovalle, eu não me apaixonei perdidamente pelo personagem, como aconteceu com Hélio Pellegrino. Mas gostei do cara. Não, acho que gostei principalmente da época em que ele viveu, e de seu convívio com figuras que ainda conheço pouco, como Manuel Bandeira (que entrou para a minha lista de prioridades) e Augusto Frederico Schmidt. Talvez eu tenha ficado um pouco frustrada porque o lado místico de Ovalle, tão citado por Bandeira e outros amigos, aparece pouco; gostaria de saber, por exemplo, de que questões tão existenciais ele teria tratado em discussões diretas com Deus, como contaram seus contemporâneos.

Mas a biografia é exemplar, muitíssimo bem escrita e pesquisada (provavelmente as discussões com Deus não tiveram testemunha, daí a presença irrelevante no enredo), cheia de fotos interessantes e histórias divertidas. Só para conhecer a gnomonia inventada por Jayme Ovalle, a leitura já é válida - eu sou definitivamente kerniana, com um pé entre os onésimos. Também gostei de ler sobre uma Londres e uma Nova York utópicas, pra não falar do Rio de Janeiro entre os anos 10 e 50, e de imaginar como teria sido bom viver em qualquer uma delas numa época que aparentava ser tão fértil de cultura, artes, literatura.

Por fim, eu e minha chatice: como é que um livro tão caprichado, com um projeto gráfico tão bacana, capa dura, chique, elegante, deixa passar tanto erro de revisão? A esmo: "O pintor se divertia com as peças que pregava no avoado viajante. Um dia, ao recebê-lo na estação, surrupiou-lhe a maleta onde levava sua provisão de uísque. Já no hotel, dando pela falta da preciosa bagagem, Ovalle, desesperado, ligou para Di Cavalcanti: 'Me roubarão uma valise com uns uísques, e você sabe, eu agora só bebo uísque, sou um inglês, francês só quer saber de vinho, como é que eu vou fazer?'" E o pior é que tem mais.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Hélio Pellegrino

Hélio Pellegrino
Paulo Roberto Pires (Relume Dumará, 1998)

Foi paixão à primeira lida, e olha que o livro começa com o enterro de Hélio Pellegrino. Eu me emocionei com a cena. Fiquei triste por não ter conhecido HP. Eu me inquietei por não ser nascida em 1968 e ter perdido seu combate à ditadura (foi a ele que Zuenir Ventura dedicou seu 1968 - O ano que não terminou). E não é à toa que o subtítulo dessa minibiografia, editada na ótima coleção Perfis do Rio (que fim levou? Faz tempo que não vejo nada novo), seja "A paixão indignada" - Hélio Pellegrino era movido a paixão e a despertava em quem quer que estivesse por perto, para o bem ou para o mal.

De seus escritos, li pouco. Tenho um ou dois livros, que pego de vez em quando para folhear, sem nunca me ater completamente a eles talvez por medo do que possa encontrar. Creio que sua fala tenha sido mais proveitosa, como mostra a resposta que Hélio Pellegrino deu a Clarice Lispector numa entrevista para a revista Manchete, e que Paulo Roberto Pires transcreveu. É linda:

"Hélio, diga-me agora, qual é a coisa mais importante do mundo?"
"A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutalidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do entusiasmo - Deus comigo. O amor genuíno ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo."

Hélio Pellegrino rules.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A vida até parece uma festa

A vida até parece uma festa
Hérica Marmo e Luiz André Alzer (Record, 2002)

Em 1984, Sonífera ilha foi a trilha sonora das minhas férias de julho no Guarujá. Pouco depois, vi com minha prima um show dos Titãs no auditório do Anhembi, em São Paulo, e morri de aflição das caras feias de Arnaldo e Branco, que se jogavam no chão do palco e ficavam fazendo micagens a um palmo da nossa cara. E a gente lá, pulando e cantando, como foi em tantos outros shows da banda que vi ao longo dos anos.

Mesmo chapa-branca (Nando Reis, que havia acabado de se desligar dos Titãs, é meio que tratado como um pária no fim do livro), essa biografia me agradou pelo simples fato de contar a história de uma banda onipresente em minha vida. Eu fui adolescente com os Paralamas e os Titãs. Em uma fase de incrível auto-afirmação, no comecinho dos anos 90, Medo e O pulso foram meus hinos de resistência (bem, até certo ponto ainda são). Num show belíssimo para um estádio do Pacaembu vazio, em 1992, vi os Titãs e os Paralamas juntos, no palco, e entendi que eu podia gostar das duas bandas ao mesmo tempo. Senti a saída de Arnaldo Antunes. A morte de Marcelo Fromer. A saída de Nando Reis. E aí parei de ouvir os Titãs, porque do jeito que eles ficaram eu prefiro os discos solo tanto do Arnaldo quanto do Nando.

domingo, 29 de junho de 2008

O Sabadoyle

O Sabadoyle
Homero Senna (Casa da Palavra, 2000)

De vez em quando alguém aparece com a pergunta: "se você pudesse ter escolhido outro lugar e outra época para viver, qual seria?" Eu já respondi que seria o Rio dos anos 50, na transição para a bossa-nova. Ou a São Paulo do modernismo de 1922. A Paris de Picasso, de Hemingway e Fitzgerald. Na verdade, acho que nada seria melhor do que o aqui e o agora - só de contar com a internet e com um sistema de troca de mensagens que, durante a maior parte de minha vida, não passava de um imenso delírio futurista, já me dou por satisfeita com os anos 2000.

Mas dois momentos da nossa história literária me fazem ter vontade de, senão ter vivido a época, pelo menos poder voltar um pouquinho no tempo. Um é o Rio de Janeiro no final do século 19, como Brito Broca descreve muito bem em seu Vida Literária no Brasil - 1900. Outro é o mesmo Rio, só que o dos anos 60 e 70, quando o advogado e bibliófilo Plínio Doyle começou a receber amigos no sábado à tarde em torno de sua biblioteca. Sábado + Doyle = Sabadoyle. Uma confraria literária, nas palavras do autor Homero Senna, por onde passaram nomes como Carlos Drummond de Andrade (um dos fundadores do grupo), Pedro Nava, Raul Bopp, Afonso Arinos e Alphonsus de Guimaraens Filho, e que contou com visitantes ilustres como Di Cavalcanti e Lygia Fagundes Telles. As atas de cada encontro - porque até isso o clubinho tinha - chegaram a ser reunidas em dois livros: uma edição das atas-poema, feita pelos próprios confrades, e uma reunião das atas de Natal, lançadas pela Massao Ohno nos anos 90. Será que ninguém se interessa em editar tudo de novo?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Maldição e glória

Maldição e glória
Carlos Maranhão (Companhia das Letras, 2004)

Ao lado de Lúcia Machado de Almeida (O caso da borboleta Atíria, Spharion, O escaravelho do diabo) e Maria José Dupré (A ilha perdida, A montanha encantada, O cachorrinho Samba), Marcos Rey está para sempre ligado à coleção Vaga-Lume, que criança nenhuma perdia nos anos 70 e 80. Seu primeiro livro para a série da editora Ática foi O mistério do cinco estrelas, mais tarde seguido por O rapto do garoto de ouro e Um cadáver ouve rádio. Ao contrário da maioria de seus colegas de coleção, que ambientavam suas histórias em fazendas, florestas, cidades do interior e até no espaço, Marcos Rey fez do espaço urbano um coadjuvante para suas histórias. Léo, Gino e Angela, personagens de sua trilogia detetivesca, vivem em São Paulo e é nessa cidade que precisam desvendar um assassinato em O mistério do cinco estrelas.

Ok, mas estou falando de outro livro. Maldição e glória não tem crimes, trio de amigos detetives nem hotéis classudos. Ao contrário: começa às voltas com um garoto portador de hanseníase - a lepra - e, por isso, condenado a viver escondido para não ir parar nos sanatórios onde os doentes eram confinados. Marcos Rey, o garoto doente, evitou falar de sua condição por quase toda a vida. Da mesma maneira, foi só nos anos 80, com quase 60 anos de idade, que admitiu ter sido roteirista de pornochanchadas para a Boca do Lixo paulistana. Essas e outras histórias, como as passagens pelo rádio, TV, cinema, publicidade e teatro, estão reunidas nesta bem escrita biografia, que só não é melhor porque... bem, porque a vida de Marcos Rey não ajuda muito. O melhor, portanto, concentra-se na pior fase da vida do escritor: a luta contra a hanseníase, as internações, as seqüelas da doença - com direito a uma informação eletrizante descoberta por Carlos Maranhão e que diz muito sobre a política de saúde pública no Brasil dos anos 30.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Feliz ano velho

Feliz ano velho
Marcelo Rubens Paiva (Objetiva, 2006)

Assim como quase todo adolescente na década de 80, li Feliz ano velho ali pelos 15, 16 anos. Bacana. Revoltado. Marcelo Rubens Paiva conta sua história de um jeito quase brutal - o garoto classe média que viu o pai sumir durante a ditadura para nunca mais aparecer, aproveitou sexo e drogas à vontade durante os anos de estudante na Unicamp e acabou tetraplégico depois de um acidente imbecil, ao mergulhar de cabeça num lago raso.

Não sei como o classificam críticos e teóricos da literatura, mas pra mim Feliz ano velho passa longe do chamado romance (autobiográfico) de formação, como o O encontro marcado de Fernando Sabino. E, assim como O encontro marcado, ficou datado demais. Apesar de não folhear o livro faz um bom tempo, não acredito que hoje suas descrições de sexo e do consumo de drogas, do hospital e dos tratamentos, causassem o mesmo impacto que causaram nos obscuros anos 80. Ainda assim, foi a melhor coisa que Marcelo Rubens Paiva escreveu até hoje - o livro seguinte, Blecaute, fez com que eu desistisse de toda a obra de ficção do autor.

sábado, 14 de junho de 2008

O mago

O mago
Fernando Morais (Planeta, 2008)

Quando questionado sobre o massacre da gramática e da ortografia em seus primeiros livros, Paulo Coelho dizia que "Deus estava nos erros". Ao escrever a biografia do mago, Fernando Morais parece ter incorporado essa máxima: dá raiva encontrar, na primeira edição da obra, erros tão básicos de informação e revisão - Lily Marinho, viúva de Roberto Marinho, aparece como Lilly; na mesma data (e no mesmo capítulo), PC ora tem 34, ora 35 anos; o avô materno é tratado como avô paterno, "cigarro aceso" virou "cigarro acesso" e tigelinha, barbaridade!, virou tijelinha. (Tem mais, é que estou com preguiça de procurar.)

Erros acontecem com mais freqüência do que gostaríamos. Mas, infelizmente, esse não é o principal defeito do livro. Dá pra chamar de picaretagem - uma biografia que se pretende reveladora de grandes segredos não conta quase nada que já não foi dito sobre PC. Ah, tem lá as internações em clínicas psiquiátricas na adolescência, o moleque que ele atropelou e depois fugiu, a covardia diante da namorada presa pela ditadura. Interessante. Mas nada disso ajuda a entender o fenômeno em que PC se tornou no mundo todo com livros mal escritos, histórias piegas e doses cavalares de auto-ajuda.

As duas etapas da vida de Paulo Coelho que mais interessam a quem tenta entender seu sucesso dizem respeito, primeiro, à fase em que se dedicou ao ocultismo, magia negra e satanismo, fez um pacto (e depois desfez) com o demônio, diz ter estado na presença do coisa-ruim e de repente abandonou tudo. Só que Fernando Morais mal trata disso. Fala da conversão do escritor à ordem O.T.O., liderada por uma figura esquisita e adoradora do demônio, e de resto passa por cima: não há menção a rituais, cultos, benefícios ou qualquer outra coisa importante dessa época. Segundo, a reconversão ao catolicismo, depois de uma visão do Mestre (que ficaria famoso nas páginas de Diário de um Mago), seu mentor na R.A.M, uma ordem católica. Religião e magia? É isso o que o Mestre, Jean, combina. Como assim? Que raio de ordem é essa? Como surgiu? Por que PC foi escolhido para fazer parte dela? São perguntas básicas, que não merecem resposta ou consideração do biógrafo.

Por fim, e não menos absurdas, são a falta de bibliografia (não houve pesquisa para escrever o livro? Ele não leu artigos de jornal, outros livros sobre o mago, nada nada nada?) e de notas que digam como, quando e quem Fernando Morais entrevistou. As declarações de PC, por exemplo. Não dá pra saber se foram feitas ao autor ou se foram tiradas de alguma reportagem sobre ele - só dá pra ter certeza de que é ele quando Morais transcreve trechos de seus diários. Há opinião de gente que não se sabe quando, ou se, falou com Morais. Há lembranças de ex-namoradas que tanto podem ter conversado com o biógrafo ou saído da memória de Paulo Coelho. Fora a falta de explicação para tanta coisa de menor importância (PC plagiou Carlos Heitor Cony na juventude e depois o veterano escritor foi um de seus maiores cabos eleitorais para a Academia Brasileira de Letras; mas como Cony recebeu o plágio? No idea).

O caso é que Fernando Morais, assim como Paulo Coelho, diz em 600 páginas exatamente o que as pessoas querem ouvir, sem se aprofundar nos fatos realmente misteriosos - e interessantes - da vida do escritor. Pelo olhar de Fernando Morais, a mirabolante história de vida de Paulo Coelho não passa de outro mirabolante romance que poderia ter sido escrito pelo próprio Coelho.

PS. Cony manifestou-se a respeito do plágio de Paulo Coelho num artigo publicado na Folha de S. Paulo em 19/06/08.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Flores raras e banalíssimas

Flores raras e banalíssimas
Carmen Lucia Oliveira (Rocco, 2004)

Eu sempre fico em dúvida: o lugar mais bonito do Rio de Janeiro é o Aterro do Flamengo ou a Lagoa Rodrigo de Freitas? A pendência para o Aterro ganhou força desde que li esse livro, que o subtítulo indica como sendo "A história de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop" - não sei por que não está escrito "A história de amor de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop", pois é disso que trata. Feia, baixinha, determinada e ultra moderna para sua época, Lota vinha de uma tradicional família do Rio. Vivia em meio a intelectuais e artistas e, nos anos 40, seu sonho era criar uma organização que promovesse a cultura do Brasil. Em 1951, aos 40 anos, a poeta americana Elizabeth Bishop tomou um navio e foi parar no Rio de Janeiro. Bishop conhecia Mary Morse, a companheira de Lota. Mary apresentou Bishop a Lota - e repentinamente saiu de cena, porque a agitadora cultural e a poeta se apaixonaram na mesma hora.

Viviam entre o apartamento do Leme e uma casa de sonho construída em meio à mata de Petrópolis, numa relação de altos e baixos tumultuada pelo alcoolismo da americana e o trabalho da brasileira. E o Aterro do Flamengo? No começo dos anos 60, durante o governo de Carlos Lacerda, Lota foi encarregada de coordenar a criação de um parque no terreno à beira-mar do Flamengo. Moveu mundos, fundos e gente como Roberto Burle Marx e Sérgio Bernardes para, como disse, "transformar aquele terreno cheio de entulho num Central Park". Deu um trabalhão, causou um monte de brigas e certamente contribuiu para atrapalhar o casamento das duas. Mas sempre que saio do Santos Dumont, ao percorrer o Aterro e ver a Marina da Glória e o Pão de Açúcar logo ali em frente, não deixo de agradecer em pensamento à empreitada de dona Lota.