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segunda-feira, 28 de junho de 2010

I love your style

I love your style
Amanda Brooks (itbooks/HarperCollins, 2009)

Pelo preço dos livros no Brasil, esta edição americana, impressa num papel bacana e cheia de boas fotos, nem está tão cara: R$ 48,58, um equivalente razoável aos US$ 19,99 originais (sem contar os impostos que se pagam por absolutamente qualquer coisa comprada nos Estados Unidos, e que variam de acordo com o estado; são 7% em Miami). Mas vale, mesmo, por ter sido um dos melhores livros sobre estilo que li nos últimos tempos: é, certamente, um título que eu recomendaria a quem está começando a se interessar pelo assunto, ao lado de The little black book of style, The one hundred e Esquadrão da Moda.

Amanda Brooks, a autora, é uma consultora de moda bem-nascida e de extremo bom gosto que não tem pudor em escrever sobre suas preferências, ainda que polêmicas ("Acho ok usar casacos de pele, mas não estou aqui para sugerir que você deva fazê-lo"), nem de incrementar o livro com várias fotos suas, mesmo que em momentos de vergonha fashion - a galeria da página 24 me fez dar boas risadas ao me lembrar de alguns desastres saídos do meu próprio armário no passado. Mas o melhor de tudo é que, como todo bom livro do gênero, ela não dita regras, e sim afirma, o tempo todo, que cada mulher tem um estilo particular e que o importante, mesmo, é descobri-lo para que seja cada vez mais valorizado.

Ainda assim, Amanda Brooks dá umas diretrizes para quem é perdido no assunto ou para quem quer relembrar alguns conceitos. Começa por dividir o livro em capítulos sobre os estilos clássico, bohemian, minimal, high fashion, street e eclético - acho que sou uma mistura do eclético com o clássico, embora aqui e ali use umas flores exageradas na lapela e capriche nos sapatos diferentes; são marcas do meu estilo. No fim, fala sobre diversos jeitos de comprar: roupas básicas, em brechós, em lojas de design e redes de marcas mais populares. Tudo isso ilustrado por centenas de fotos, preto-e-branco e coloridas, em que aparecem, além dela própria, gente como Jacqueline Kennedy, Sofia Coppola, Bianca Jagger, Chloë Sevigny, Catherine Deneuve, Audrey Hepburn, Agyness Deyn, Kate Moss, Angelina Jolie e tantas outras. Não porque elas são lindas ou magérrimas ou ricas, mas porque têm estilo, porque sabem se vestir de acordo com a própria personalidade. Tem mais: ao final de cada capítulo há uma série de indicações inspiradoras de livros e filmes.

Quando comecei a ler o livro e vi a quantidade de fotos da autora, achei que ia encontrar mais um daqueles volumes feitos só para afagar o ego de quem escreve - e, por consequência, achei que ia detestar a leitura. Ao contrário, adorei: é preciso uma autoestima enorme, o que é bem diferente de um ego inflado, para colocar-se no lugar de outras mulheres e admitir que isso pode ficar bem em você, mas não fica em mim. É o que faz Amanda Brooks, para sorte de quem sabe que vestir-se de acordo só faz aumentar o prazer da gente ser a gente mesma.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Paris é uma festa

Paris é uma festa
Ernest Hemingway (Bertrand Brasil, 2006)

Ando apaixonada pela Paris do início do século 20 e, se alguém me perguntasse, hoje, onde e em que época hipotética eu gostaria de ter vivido, diria que seria nessa Paris de Picasso e Matisse e Hemingway e Fitzgerald e Gertrude Stein (embora não me falte a certeza de que eu pertenço mesmo ao aqui e ao agora, e que qualquer outra época idealizada - o Rio de Janeiro dos anos 50-60, a Nova York da Round Table, a São Paulo modernista - seria de um sofrimento enorme pra mim). Mas no começo do século 20 Paris era, sim, uma festa, e todo mundo conhecia todo mundo, e se encontrava nos cafés, e o dinheiro era curto mas dava até pra passar férias na Espanha, de vez em quando na Suíça.

É o que conta Ernest Hemingway, que chegou à cidade depois de ter sido motorista de ambulância na Primeira Guerra Mundial e que, em Paris, deu início à carreira de escritor enquanto era correspondente de um jornal canadense. Morava com mulher e filho num apartamentozinho na margem esquerda do Sena e alugava um quarto num hotel, ali perto, para poder trabalhar em paz. Logo que chegou, ficou conhecendo Gertrude Stein, com quem manteve uma relação intensa de amizade até que um fato velado, ou mal-explicado (pelo menos no livro), fez com que se afastassem - acho que teve a ver com a homossexualidade da escritora.

Assim, entre confissões das apostas feitas no jóquei (e que levaram um bom dinheiro para o ralo), o excelente relato de seu método de trabalho e os planos de viagem para Pamplona, Madri e Valência, Hemingway vai falando não só da vida, mas de amigos como Sylvia Beach, dona da livraria Shakespeare and Company, Ford Madox Ford ("I always held my breath when I was near him in a closed room"), Ezra Pound e, principalmente, F. Scott Fitzgerald, com quem Hemingway empreendeu uma viagem das mais bizarras.

Paris é uma festa foi organizado pela última mulher do escritor e publicado em 1964, depois de sua morte - Hemingway se matou com um tiro, em 1961. Ano passado, talvez um pouco antes, um de seus netos relançou o livro, dessa vez com mudanças na ordem dos capítulos e com o acréscimo de informações que, segundo ele, ajudariam a melhorar a imagem de sua avó, a segunda mulher do escritor, que aparece no fim do volume. Eu não vi nada de absurdo na maneira como o autor tratou do fim de seu casamento; achei até elegante. E, de qualquer modo, o livro que Hemingway imaginou me parece bem melhor do que qualquer variação que tenha vindo depois dele.

domingo, 7 de março de 2010

A autobiografia de Alice B. Toklas

A autobiografia de Alice B. Toklas
Gertrude Stein (CosacNaify, 2009)

Aos trancos - não porque não esteja gostando, mas porque o tempo parece ter se esmerado em pregar suas peças em mim -, estou terminando de ler Paris é uma festa, de Hemingway, numa versão em inglês, para o Kindle, anterior àquela que um de seus netos desfigurou para tentar melhorar a imagem da avó. E me diverti muito, logo no início, quando Hemingway fala de sua amizade com Gertrude Stein, bem na época retratada pela escritora nesse A autobiografia de Alice B. Toklas. Sim, trata-se de uma "autobiografia", mas escrita por outra pessoa - afinal, a vida de uma é a vida da outra.

Alice viveu com Gertrude por 38 anos, dividindo os papéis de amante, secretária, governanta e eventual cozinheira. Segundo MFK Fisher, no prefácio de O livro de cozinha de Alice B. Toklas, foi uma mulher baixinha, muito feia, de olhos vivos e gosto por chapéu espetaculares. Era dela a tarefa, como conta Gertrude e corrobora Hemingway (sem, no entanto, citar o nome de Alice), de conversar com as mulheres dos amigos da casa, de passar a limpo e de fazer a revisão dos textos da companheira.

Eu já tinha lido O livro de cozinha..., escrito pela própria Alice depois da morte de Gertrude Stein. É meio sisudo e, às vezes, até baixo-astral, embora traga histórias inspiradoras - muito diferente da bem-humorada autobiografia que, mesmo sem ter saído da pena da biografada, consegue mostrar de um jeito bem mais amigável quem foi, afinal, essa americana que largou tudo em seu país para viver, na França, com a escritora (já, então, um tanto famosa - se não pelos livros, pela fabulosa coleção de amigos: Picasso, Matisse, Apollinaire, Sherwood Anderson, vários outros).

É também através das palavras de Alice que Gertrude Stein fala muito de si mesma, quase sempre sem nenhuma modéstia ("Posso dizer que só três vezes na vida encontrei gênios [...] Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred Whitehead"), das frustrações e expectativas em relação à sua obra e de seu método de trabalho. Picasso, suas mulheres e seus quadros, ocupam boa parte das memórias, assim como a convivência com Matisse, desafeto da cozinheira Hélène: "(...) Monsieur Matisse vai ficar para jantar hoje, ela dizia, nesse caso não vou fazer omelete, mas ovos fritos. Gasta o mesmo número de ovos e a mesma quantidade de manteiga, mas demonstra menos respeito e ele vai entender."

Dá vontade de ler outra vez, assim que eu acabar o Hemingway, e continuar lendo outros escritos sobre essa época em Paris. O livro de Sylvia Beach sobre a Shakespeare and Company. Paris era ontem, de Janet Flanner, a correspondente da revista The New Yorker, na França, quando Gertrude, Alice, Pablo, Ernest e tantos outros viviam lá. É dela, aliás, a frase "qualquer autobiografia de uma será, necessariamente, uma biografia da outra", que usei adaptada ali em cima, e que aparece no ótimo posfácio de Silviano Santiago - ilustrado por uma foto das duas, Gertrude Stein levando um cachorro na coleira e Alice B. Toklas a seu lado, baixinha, muito feia, com um chapéu espetacular.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Confidencial

Confidencial - Segredos de Moda, Estilo e Bem-Viver
Costanza Pascolato (Jaboticaba, 2009)

Já fazia tempo que eu estava de olho neste livro - mas, ao mesmo tempo, eu tinha feito o propósito de tentar não comprar nada até o fim do ano, pra ver se dava conta de ler pelo menos alguns dos títulos empilhados em minha casa. Acho que bati meu recorde: fiquei 139 dias sem gastar dinheiro com livros pra mim (comprei alguns pra dar de presente, li uns quatro ou cinco dos antigos). Mas entrei em férias na semana passada e esse foi o melhor pretexto que encontrei para ir à Livraria Cultura e sair de lá com a Costanza debaixo do braço.

Só que eu achei - talvez tenha lido em algum lugar, quando o volume foi lançado, ou foi só wishful thinking - que a porção autobiográfica da obra seria maior que a parte de, vá lá, e com as devidas aspas, "autoajuda fashion". Ok, estou exagerando: não se trata de um manual de estilo como, por exemplo, o ótimo The little black book of stile (autoajuda fashion de primeira). E, que pena, tampouco fala da vida de Costanza como eu gostaria de saber, como biografia, mesmo.

Eu queria ler mais sobre a vida de Costanza Pascolato porque essa mulher é, para mim, o maior exemplo brasileiro de elegância e postura - fora que usa um perfume delicioso, que não diz a ninguém qual é (eu, pelo menos, nunca soube que tenha dito). Mas se faltam detalhes sobre sua trajetória (ela diz, en passant, que nasceu na Itália, veio pro Brasil ainda criança, trabalhou como editora de moda na Abril, hoje cuida da tecelagem da família, viaja muito a trabalho, nada do que eu já não soubesse), ela capricha em alguns conselhos para o, como diz, bem-viver. Alimentar-se corretamente, fazer exercícios (o dela é o pilates), fotografar-se em vários ângulos para descobrir que tipo de roupa fica melhor em seu corpo, manter uma disciplina ferrenha para conseguir o que deseja. Também lista modelos clássicos (a camisa branca, o terno bem-cortado, as pérolas, coisas que o também ótimo The one hundred explora melhor), fala da importância da maquiagem, de espiritualidade e do que talvez seja seu principal "segredo": tratar bem as pessoas, não importa quem sejam elas.

Dá pra ler em dois dias, uma leitura leve, que pode ser enquadrada na categoria "autoajuda" deste blog: livros que, com informações úteis e conselhos factíveis, ajudam a gente a se sentir melhor na própria pele.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um livro por dia

Um livro por dia
Jeremy Mercer (Casa da Palavra, 2007)

Acho que não li direito as resenhas quando este livro foi lançado, porque a ideia que eu fazia dele era totalmente diferente - achei que se tratasse, mesmo, de uma espécie de diário com todos os títulos que o autor leu, um por dia, durante os quatro meses em que viveu na livraria Shakespeare and Company, em Paris. (Se tem um lugar que eu faço questão de visitar em minha viagem, nos próximos dias, é esse. Quem sabe ainda dá tempo de ler a obra de Sylvia Beach, contando a origem da livraria, antes de partir.)

Fundada por George Whitman em 1951 e batizada em homenagem à Shakespeare and Company original, de Sylvia Beach, essa livraria na margem esquerda do Sena, em frente à Catedral de Notre-Dame, já faz parte do circuito turístico de Paris. É famosa não só por vender milhares de livros em inglês como também, e principalmente, por oferecer hospedagem grátis a estudantes, aspirantes a escritor, jovens poetas e qualquer outro ser intrépido que não tenha dinheiro para viver em Paris e tope morar entre os livros com a condição de arrumar sua cama toda manhã e dedicar algumas horas por dia ao trabalho na loja. Foi o que fez Jeremy Mercer, em 1999, quando saiu do Canadá ameaçado de morte. Por quatro meses, conviveu com gente como Luke, Simon, Kurt, Elina, artistas cada um a seu modo, e virou grande amigo de George.

Não foi uma vida fácil, como atesta Mercer: o único banheiro era nojento e não havia lugar para tomar banho. Os moradores da livraria, geralmente sem um tostão no bolso, contentavam-se com as refeições do restaurante estudantil ou os sanduíches de um bar próximo. Diversão era dividir uma garrafa de vinho sob uma ponte no Sena enquanto cada um contava uma história. Para Mercer, foi um período de aprendizado, o turning point de que sua vida precisava. Ele finalmente virou escritor. E eu estou louca de vontade de ver onde tudo isso aconteceu.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Guia gastronômico de Paris

Guia gastronômico de Paris
Patricia Wells (Ediouro, 1997)

Paris, outra vez, porque eu não vejo a hora de entrar naquele avião e passar uma semana comendo e bebendo sem culpa: pain au chocolat, baguete com camembert, cozinha de bistrô, vinho tinto, vinho tinto, vinho tinto. Não sei até que ponto as indicações deste guia de Patricia Wells (nem só da Provence vive minha autora culinária preferida) continuam válidas, porque o livro já tem mais de dez anos. De qualquer maneira, servem como uma excelente introdução ao tema "comida em Paris" - assim como Elisa Donel, Patricia fala dos queijos, pães, docinhos e restaurantes da cidade com muito conhecimento de causa.

Dureza é não saber onde guardar tanta informação, porque a memória é que não aguenta. Muito menos a mala e a bolsa que eu vou ter que carregar durante a viagem. Hoje um amigo meu aconselhou: "leve talheres para os piqueniques nos parques. E compre copos lá pra tomar vinho de um jeito decente no hotel." Não é má ideia. Isso eu consigo me lembrar. E como escolher entre tantas lojas de queijos, charcuterie, patisseries, boulangeries, onde comprar os ingredientes para o piquenique? Acho que vou ter de dar um jeito de contrabandear a Patricia na mala.

domingo, 17 de maio de 2009

The Provence cookbook

The Provence cookbook
Patricia Wells (HarperCollins, 2004)

Acordei com vontade de fazer um bolo de peras. Tenho uma receita ancestral da minha avó, usada originalmente para fazer bolo (ou torta, como ela chamava) de bananas, e que vai muito bem com outras frutas - pêssego, principalmente. (Eu poderia comer pêssegos ao longo de todo o ano.) Mas o que estou com vontade de comer é bolo de peras, então fui à estante atrás de uma de minhas autoras de cozinha preferidas: Patricia Wells.

Esse The Provence cookbook é lindo desde a capa, que reproduz um campo de lavanda (outro bolo que preciso aprender a fazer: de lavanda, para aproveitar um potinho que comprei no Dean & Deluca), até o projeto gráfico simples e elegante. Eu sei que peras não estão entre os ingredientes provençais mais típicos, mas imaginei que Patricia Wells não iria me desapontar. E eu tinha razão: um bolo úmido e macio, feito com as frutas que ela cultiva em seu pomar, marca presença entre receitas de pão de polenta com alecrim, galette de abobrinha, linguine com açafrão e daubes (cozidos) de carne com vinho tinto. Agora, só me resta conferir se tenho à mão todos os ingredientes para o bolo.

Bíblia

Bíblia Sagrada
(Editora Vida, 2003)

Eu adoro as listas Top 10 do site do Guardian. Agora à noite, sem sono, resolvi xeretar no acervo de quase 300 listas sobre literatura já feitas pelo jornal. E uma delas - Top 10 books in which things end badly - feita pelo escritor Richard Gwyn, começa pela Bíblia, um livro que sempre rondou nossa vida (ou pelo menos a de quem, como eu, cresceu como católico) como exemplo edificante, moralista, os bons vão para o céu e os maus vão para o inferno, faça o bem e receberás o paraíso.

Gwyn fala especificamente do Novo Testamento - como é que pode terminar bem uma história em que o filho acaba sendo crucificado pela vontade do próprio pai? -, mas quando eu vi a lista me vieram primeiro à cabeça algumas histórias do Velho Testamento. Abraão, por exemplo, que é obrigado por seu deus a sacrificar o próprio filho (tá, ele não sacrifica, mas só porque um anjo o redime na última hora). Jó, que sofre um infortúnio atrás do outro. E Moisés, pra mim a pior delas, porque mostra a crueldade com que pode ser recompensada a fé. O cidadão é separado da família ainda bebê, rompe com a família de criação para libertar os escravos judeus do Egito, lidera o povo pelo deserto durante sei lá quantas décadas e quando, finalmente, consegue ver a terra prometida do alto de um morro, seu deus o avisa de que ele vai morrer antes de colocar os pés lá. É o supra-sumo da sacanagem. Concordo com a lista do Guardian: nada pode terminar pior.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O livro de cozinha de Alice B. Toklas

O livro de cozinha de Alice B. Toklas
Companhia das Letras (1996)

Panorama da minha geladeira: um pedaço de manteiga, um litro de leite, um vidro de azeitonas pretas pela metade, duas garrafas de água mineral, geléia de figo, metade de um pacote de pão integral e dois ovos que não sei desde quando estão lá. (E uma garrafa de tequila ao lado do providencial margarita mix da José Cuervo, mas isso não conta.) Não tive tempo, e muito menos vontade, de ir ao supermercado. Sinto que eu poderia viver de leite com corn flakes até o ânimo voltar. E então me lembrei desse livro, quase uma autobiografia culinária da época em que Gertrude Stein e Alice B. Toklas viveram juntas, na França, de 1908 a 1946.

Com duas guerras mundiais nas costas, as duas passaram por vários períodos de racionamento. Durante a Ocupação, conta Toklas, a cota de carne semanal por pessoa era de 125 g. Elas se viravam com os produtos de sua horta e com os peixes dos rios próximos - até que os alemães proibiram a pesca. A certa altura, começaram a faltar leite, manteiga e ovos. De repente, alguém descobriu como pegar lagostins. E foi assim, de improviso em improviso, que as duas não só sobreviviam como ainda conseguiam receber os amigos. Nina Horta, em seu excelente Não é sopa, conta que mesmo depois da Segunda Guerra a dupla viveu dias de vacas magras. Convidaram o jovem estilista Pierre Balmain para jantar e ele deu por falta de um quadro de Cézanne na casa das duas. "Estamos jantando o Cézanne", disse Gertrude Stein, sem se abalar.

Queria eu ter a imaginação de Alice B. Toklas pra preparar alguma coisa com os parcos ingredientes da minha geladeira. Sei lá, umedecer as fatias de pão com o leite, espalhar por cima a geléia de figo, bater os ovos com um pouco de açúcar, derramar por cima e levar ao forno. Não deve ser de todo ruim. Mas aí eu fico sem ter o que comer no café, amanhã.

domingo, 10 de maio de 2009

Viajando pela Europa e pelo mundo

Viajando pela Europa e pelo mundo
José Cretella Jr. (Círculo do Livro, 1988)

Em setembro de 1988, quando comprei este livro (não achei a capa original para colocar aqui), eu nunca tinha nem andado de avião. Acho que só tinha saído do estado de São Paulo uma vez, para ir a Curitiba (as viagens que fiz pequenininha, com meus pais, não contam; eu era um bebê). E nunca, nunca poderia sonhar que um dia iria eu mesma escrever sobre turismo. Mas, de algum modo, "a mosca azul da viagem", como diz o professor José Cretella Jr. no começo de seu livro, já havia me picado. Eu guardava matérias sobre cidades interessantes, colecionava folhetos, lia o que pudesse sobre o assunto.

E, por isso, até hoje tenho um carinho enorme por esse livro, que me fez sonhar e me ajudou a planejar minha primeira viagem à Europa, em 1991. Ele só não foi comigo na mala porque eu já carregava um Frommer's gigantesco e perfeito pro espírito mochileiro: Europa a US$ 50 por dia. E também porque não é exatamente um guia, mas um apanhado de informações sobre lugares turísticos vistos pela perspectiva do autor. Hoje, percebo com facilidade alguns defeitos: a tradução de nomes próprios, diretrizes um pouco confusas, a narrativa um tanto empolada.

Mesmo assim, ainda sigo algumas dicas de José Cretella Jr. A de não aceitar encomendas em viagens, por exemplo. A de me informar ao máximo sobre o lugar que vou visitar (ele conta a história impagável de um turista que esperou Florença pela excursão inteira sem se ligar que, em italiano, o nome da cidade é Firenze). A de não visitar, em um dia, mais de um museu ou igreja. E a de fazer, de cada viagem, a minha viagem. Termino com a frase com que ele inicia o primeiro capítulo do livro: "Se me fosse possível desenhar um ex-libris, para pregá-lo nos livros da minha biblioteca, imaginaria um brejeiro diabinho, com o tridente, no qual estariam inscritas as palavras: amar, ler e viajar." Eu também.

domingo, 26 de abril de 2009

Gomorra

Gomorra
Roberto Saviano (Bertrand Brasil, 2008)

Leio na Folha que Gomorra vendeu mais de 2 milhões de exemplares na Itália - 37 mil no Brasil - e que foi traduzido para mais de 30 idiomas. Exemplar. Pena que o livro seja ruim. Eu mal podia esperar a edição em português (não leio em italiano há décadas) porque estava muito curiosa pela história, pra saber como o autor, um jornalista, conseguiu infiltrar-se no crime organizado de Nápoles para depois relatar os descalabros da Camorra. Foi jurado de morte e creio que ainda se encontra sob proteção policial.

Ok, aqui é preciso fazer uma confissão: eu não li o livro inteiro. Não consegui. Os dois primeiros capítulos são tão ruins que no terceiro eu resolvi abandonar a leitura. O capítulo inicial, então, é uma tortura: "o porto de Nápoles é movimentadíssimo, mas paradoxalmente silencioso. O porto de Nápoles recebe sei lá quantos mil contêineres por dia e xis por cento de toda a muamba produzida na China. Quando cheguei ao porto de Nápoles, fiquei impressionado com a quantidade de contêineres e com o silêncio e a discrição que ali imperam. Tanto por cento da muamba que vem da China passa por ali." E assim mais outra, e outra, e outra vez. "Ok, já entendi", dá vontade de gritar pro Saviano - que, a propósito, manda umas boas 40 páginas sem contar como e por que foi parar ali, ou com que facilidade alugou um apartamento em Nápoles e logo depois já estava dirigindo carros para pegar roupa falsificada . Sei não. Eu desconfio que ele está com a cabeça a prêmio principalmente por ser mau escritor.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Chocolate & zucchini

Chocolate & zucchini
Clotilde Dusoulier (Broadway Books, 2007)

Cheguei ao Chocolate & Zucchini pulando de blog em blog e gostei muito do que li. Clotilde Dusoulier é uma jovem parisiense que trata a cozinha - e a comida - como parte prazerosa de seu dia. Comecei a ler o blog e a sonhar em um dia também ter uma vida que me permita ir à feira com frequência pra comprar o que está fresquinho, sair do trabalho a tempo de preparar um jantar bacana, receber os amigos com mil-e-um petisquinhos e drinques, depois servir um bolo gostoso junto com o café.

Fiquei contente quando saiu esse seu primeiro livro, cheio de fotos bonitas, dicas e textos sobre as receitas apresentadas - uma delas é o bolo de chocolate e abobrinha que deu nome ao blog. Já marquei mais de dez páginas com receitas que quero experimentar. Musse de atum e maçã verde, madeleines com roquefort, pera e nozes, massa com cacau e abobrinha. Hmmm, deu fome.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Charlô em Paris

Charlô em Paris
Nina Horta (DBA, 1999)

Minha vida é feita de tomar decisões - e isso me dá uma angústia tremenda. Acontece também quando termino um livro (O tigre branco) e preciso escolher o que ler em seguida. Tenho tantos, mas tantos volumes na fila, espalhados pela casa, na cadeira da sala, ao lado da cama, e geralmente fico perdida entre uma leitura e outra. Hoje, pra piorar, comprei o Modernismo do Peter Gay e o novo Chico Buarque. Piorou mais ainda quando cheguei em casa e encontrei a Vanity Fair do mês. O que ler primeiro? Como escolher?

Nessas horas de muita angústia literária eu geralmente fujo: acabo relendo uma Agatha Christie inofensiva ou mergulho num livro de receitas - que, como já disse, leio com o maior prazer, como se fosse literatura. E, mexendo na estante, encontrei esse simpático Charlô em Paris, que vai ser meu companheiro pelas próximas noites, até que a ansiedade assente e eu possa escolher o próximo livro, vá lá, "sério". Charlô é Charlô Whately, banqueteiro e dono de restaurante. Nina Horta tem um texto primoroso. E Anita Ljung, a ilustradora, caprichou no trabalho: é tudo colorido, vibrante, alto-astral. Assim como as receitas e a história do moço que foi morar em Paris e acabou como cozinheiro de Madame Radô.

Ah, sim: trata-se de um livro infantil. Ou melhor, de um luxo infantil, já que, com um time desses, qualquer obra, para crianças ou adultos, vira um programão.

domingo, 12 de abril de 2009

O melhor do Comidinhas

O melhor do Comidinhas
Alessandra Blanco (Panda Books, 2009)

Comidinhas é o blog mantido por Alessandra Blanco no iG. Mas o nome engana: não se trata, apenas, de comida "inha", e sim de textos sobre restaurantes, experiências gastronômicas aqui e em outros países, vídeos, receitas. Um montão de assuntos escritos de um jeito que faz a gente ter vontade de largar tudo e ir pra cozinha - ou pegar o carro pra comer aquela coxinha, um panetone especial, pra jantar num restaurante que acabou de ser inaugurado no litoral norte de São Paulo.

O melhor do comidinhas poderia ser isso, uma reunião dos textos mais interessantes do blog. Mas não é. Trata-se de um caderninho de anotações com, como diz o subtítulo, "lugares (quase) secretos, dicas gastronômicas e algumas receitas". Pra mim - e olha que, por força da profissão, eu sou obrigada a saber de muita coisa escondida em São Paulo -, a maioria dos endereços continua desconhecida, e louca pra ser descoberta. É o caso de um restaurante na Bela Vista. Dos zeppole de São José, no Ipiranga. Dos falafel, em Santana. Sem contar as dicas no Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, em Nova York, Paris, Punta del Este. Taí: esse é um livro que não vai ter lugar na minha estante. O lugar dele é no carro.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Conforte-me com maçãs

Conforte-me com maçãs
Ruth Reichl (Objetiva, 2003)

Eu detestei esse primeiro livro autobiográfico de Ruth Reichl, a ex-todo-poderosa crítica de gastronomia do The New York Times e atual todo-poderosa editora da revista Gourmet. De alguém que se tornou famosa e respeitada por suas avaliações e comentários sobre comida, eu esperava uma obra mais eletrizante, com bastidores do trabalho e mais voltada ao assunto que transformou sua carreira. Não: em lugar de jantares maravilhosos e gafes culinárias, Ruth Reichl passa quase que o tempo todo falando do casamento dela com um marido problemático, o tempo em que viveram numa comunidade meio riponga, o caso dela com um colega de trabalho e a descoberta de um novo amor.

Mas aí veio o Demian e disse que eu li tudo errado, que esse livro é ruim mesmo, e bom é o Alho e Safiras - que ele levou hoje, emprestado para mim. É nesse segundo volume de suas memórias que Ruth escreve sobre a época em que foi crítica do NYT e frenquentava restaurantes à paisana para depois confrontar a mesma refeição servida quando estava disfarçada. Sim, disfarçada. A mulher mudava figurino, usava perucas, fazia outra voz, tudo para não ser reconhecida no restaurante. Deve ser, mesmo, mais interessante que Conforte-me com maçãs (que título, hein?) - mas que, pelo menos, traz uma ótima receita de massa com limão, à moda de Danny Kaye.

domingo, 5 de abril de 2009

Viagem à província de São Paulo

Viagem à província de São Paulo
Auguste de Saint-Hilaire (Editora Itatiaia, 1976)

Se necessário, é perfeitamente possível, para mim, trabalhar em casa, já que uso um banco de dados com acesso pela internet. Isso é bacana nos dias em que estou escrevendo algum projeto ou texto mais longo, ou quando preciso de muita concentração. E não é bacana quando, por causa de prazos apertados, tenho que passar o sábado ou o domingo na frente do computador, editando texto atrás do texto, sem nem ver o tempo passar.

Foi o que aconteceu hoje. E, ao ler sobre algumas cidades do Vale do Paraíba durante o trabalho, acabei me lembrando desse livro de Saint-Hilaire, naturalista francês que esteve no Brasil no começo do século 19 e que, num feito espantoso para a época, viajou por Minas, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, foi à nascente do Rio São Francisco e percorreu o interior de São Paulo, tudo em cima de um lombo de burro - nem hoje, com avião, eu conheço tudo isso.

Uma das minhas estantes excêntricas diz respeito à história de São Paulo. O relato de Saint-Hilaire, a bem da verdade, é chatinho. Mas vale pelos detalhes que ele conta sobre o modo de vida na época - as relações familiares, os hábitos caseiros, o contato com estrangeiros, a dificuldade das viagens. Quando estive em Diamantina, comprei também o Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. Foi ótimo ler o que escreveu Saint-Hilaire sobre a cidade enquanto eu ainda estava lá.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Anarquistas, graças a Deus

Anarquistas, graças a Deus
Zélia Gattai (Companhia das Letras, 2009)

E aqui cabe a confissão: eu nunca gostei de Jorge Amado. Meu avô adorava, tinha uma boa coleção do baiano na estante. Li uns e outros, e até hoje não consegui me desfazer da ideia de que JA escreveu apenas dois livros: a linha Capitães da Areia/Mar Morto e a linha Gabriela/Dona Flor/Tieta. É claro que isso pode ser uma grande bobagem, mas foi o que senti. (Talvez eu ainda possa ler Tenda dos Milagres pra ver se mudo de opinião.)

Por isso, tive a maior surpresa ao ler Anarquistas, graças a Deus - e só li por insistência das minhas tias, acho que numas férias no Guarujá, diante da garantia delas de que o texto de Zélia Gattai não tinha nada a ver com o do marido. É verdade. Anarquistas... é o primeiro de uma série de livros com as memórias de Zélia. Mais centrado em seus pais, Ernesto e Angelina, conta a história de uma família de italianos que veio para o Brasil e viveu intensamente na São Paulo das primeiras décadas do século 20. Depois virou minissérie da Globo, mas essa eu não assisti.

domingo, 1 de março de 2009

A cozinheira e o guloso

A cozinheira e o guloso
Mazzô França Pinto e Thomaz Souto Corrêa (Bei, 2008)

De vez em quando, menos do que eu gostaria, preciso ler alguns livros por motivos profissionais. Este foi um deles - mas eu o teria lido com prazer de qualquer forma. Já conhecia o "texto gastronômico" de Thomaz Souto Corrêa por uma participação dele no Histórias e receitas do José Hugo Celidônio, outro que merece um post aqui no blog. Thomaz não escreve receitas comme il faut; apenas vai contando como misturou isso e aquilo, e aquele outro ingrediente que estava à mão, para fazer um arroz de porco, uma salada de feijão.

Mas não é dele a incumbência de passar ingredientes e modo de preparo neste livro, que tem o apropriado subtítulo de "Conversas de comer e receitas de fazer". As receitas, a cargo de Mazzô França Pinto, podem mesmo ser feitas - não têm pulos do gato nem escondem etapas do preparo, como em tantos outros livros que já vi por aí. Thomaz apresenta cada capítulo com recordações de aventuras gastronômicas em Roma, numa fazenda do interior paulista, na casa de amigos. E conta como surgiu a impagável confraria Porco e Vírgula, onde é conhecido como Porco-Mor.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Vintage Sacks

Vintage Sacks
Oliver Sacks (Vintage Books, 2004)

Um pot-pourri de Oliver Sacks só não é melhor porque me faz pensar no quanto eu ainda quero ler desse homem e aí baixa a depressão de saber que não, eu não vou conseguir ler tudo o que ainda quero ler na vida. Para ficar só nele: Alucinações musicais, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Tio Tungstênio - e talvez A ilha dos daltônicos e Vendo vozes, porque há intrigantes capítulos de ambos nessa pequena coletânea de textos extraída de diversos livros do médico.

Eis aqui o triste relato da doença de Rose R., que "acordou" de uma encefalite letárgica depois de 43 anos (de Tempo de Despertar). A história do dr. Bennett, um cirurgião do Canadá que convive com a Síndrome de Tourette e, mesmo assim, segue operando sem problemas (de Um antropólogo em Marte). A conclusão de que as visões e alucinações de uma freira do século 12 não passavam de sintomas de enxaqueca (de Enxaqueca). E, bem bacanas, as experiências científicas que o pequeno Oliver Sacks fazia em família, e que depois o levaram à neurologia (de Tio Tungstênio).

Do capítulo sobre o dr. Bennett: Any disease introduces a doubleness into life - an "it", with its own needs, demands, limitations.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

The Beatles Anthology

The Beatles Anthology
The Beatles (Chronicle Books, 2000)

Post em homenagem ao meu irmão, que faz aniversário hoje e que me ajudou a gostar ainda mais dos Beatles porque, entre muitas outras coisas, me fez prestar atenção nas diferentes vozes de If I fell, me contou a história de Hey Jude, fez dueto comigo em A day in the life, me ensinou a reconhecer a voz do George em Something e foi comigo ver o Dakota e o Strawberry Fields num fevereiro gelado e cheio de neve.

Na verdade, o Anthology que eu tenho aqui em casa é dele, do meu irmão. Fiquei como depositária do livro quando ele se mudou para os Estados Unidos, mas do jeito que está demorando pra voltar eu acho que já tenho direitos adquiridos sobre a obra. Engraçado é que não li o Anthology - ele é meio como aquele pedaço de chocolate que a gente fica guardando e não quer comer nunca porque então vai acabar. De vez em quando pego da estante e folheio, folheio, folheio, leio alguns trechos, fico vidrada nas fotos e, principalmente, na memorabilia que deram um jeito de encaixar num projeto gráfico muito interessante. Taí: acho que nunca li o Anthology inteiro porque ele impõe reverência. Virou tesouro.