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sábado, 5 de junho de 2010

Lit Wit

Lit Wit
Richard Lederer

Isto não é um livro, mas fala deles e de escritores, então merece estar aqui - até porque, adorei. Trata-se de um jogo, uma trivia literária, com 100 fichas divididas em quatro temas: textos, autores, títulos e gêneros. Em cada uma, perguntas variadas em diversos graus de dificuldade. Fã de jogos intelectuais que sou, me diverti pra caramba tentando adivinhar, ou me lembrar, das respostas. Mas memória não é, definitivamente, o meu forte...

Eis uma pequena amostra do que pode ser encontrado no joguinho, que traz as fichas organizadas numa simpática caixinha (comprei na Books & Books, que, além de livros, tem boas surpresas, como esta):

* Use the following anedocte to identify the author: "As a young cadet, this American writer was expelled from West Point for reporting to a march wearing nothing but white gloves."

* Why did George Orwell choose Nineteen Eighty-Four as the title and year of his novel?

* Identify the titles and name the author of the literary work, quoted below, that end well: "That might be the subject of a new story - but our present story is ended."

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

At large and at small

At large and at small
Anne Fadiman (Allen Lane, 2007)

Foi, acho, em 2002, que um amigo me disse: "Você vai adorar Ex-Libris." Não adorei: amei. É esse o livro que eu dou de presente para algumas pessoas especiais que, como eu, também adoram não apenas os livros, mas as palavras, a escrita. E há muito tempo eu andava de olho em blogs, na Amazon, nos lançamentos do mercado americano, para ver se encontrava algum outro título assinado por Anne Fadiman, de quem me tornei fã. Até que encontrei. Foi uma longa (ou, pelo menos, assim pareceu) espera até a Cultura entregar minha encomenda e outros demorados meses até que eu finalmente me dedicasse à obra - que li num minuto, voltando várias vezes aos ensaios que mais gostei.

Trata-se, como diz o subtítulo, de Confessions of a literary hedonist - e não tem como eu não invejar, em Anne Fadiman, sua escrita elegante, seu conhecimento literário, sua vida passada entre os livros, a forma singular como ela transforma até assuntos distantes de mim (o amor pelo Ártico, a canoagem, a devoção por Charles Lamb, de quem eu nunca tinha nem ouvido falar) em temas de interesse imediato. Se o Gênio da Lâmpada aparecesse em minha frente, agora, para me conceder três desejos, um deles certamente seria "quero escrever como e sobre o que Anne Fadiman escreve".

Em At large and at small, o ensaio de que mais gostei parte de um personagem - Procrustes, em inglês, que eu não conhecia, mesmo adorando mitologia grega - e relaciona sua prática cruel de tortura e assassinato ao que Anne Fadiman chama de "guerras culturais", a aparente necessidade das pessoas em politizar a arte. "Coffee" é um texto ótimo não apenas sobre o hábito de beber café (que eu retomei recentemente, graças à Nespresso), mas sobre as obras produzidas sob o efeito da cafeína. Em "Night owl", Anne Fadiman fala de si e de vários outros escritores que produzem melhor à noite. E tem ensaio sobre sorvete, sobre Samuel Taylor Coleridge, correspondência, mudanças de casa, a bandeira americana... Assuntos tão diferentes, abordagens idem, que só conseguem se transformar num livro tão bacana por causa da competência da autora.

domingo, 22 de março de 2009

Rotten reviews and rejections

Rotten reviews and rejections
Bill Henderson e André Bernard (Pushcart Press, 1998)

Tenho ouvido falar muito em A arte de recusar um original, lançado recentemente pela Rocco. Ainda não tive tempo nem de dar uma folheada na livraria, mas sei que o autor, Camilien Roy, criou 99 cartas fictícias de rejeição a um original - parece que tem até uma página toda em branco, já que não seria necessário dizer nada a respeito do texto descartado.

É uma boa ideia. Mas divertido, mesmo, é esse Rotten reviews and rejections, uma compilação de críticas e cartas de rejeição verdadeiras recebidas por livros e/ou autores hoje famosíssimos. Melhor: algumas vezes, quem detona também é conhecido - Emile Zola, sobre As flores do mal, de Baudelaire, escreveu que "daqui a cem anos, a história da literatura francesa só vai falar desse livro como uma curiosidade" (as traduções, pobrinhas, são minhas mesmo).

Outros exemplos:
"É impossível vender histórias sobre animais nos Estados Unidos" (A revolução dos bichos, George Orwell);
"Parece que a garota não tem nenhuma percepção ou sentimento especial que poderiam elevar o livro além do nível de 'curiosidade'" (O diário de Anne Frank, Anne Frank);
"Sobre esse livro, dá pra dizer - com confiança suficiente - que não é escrita. É pesquisa" (A sangue frio, Truman Capote, crítica no The New Republic).

domingo, 25 de janeiro de 2009

Diálogos - Borges Sabato

Diálogos - Borges Sabato
Organizado por Orlando Barone (Globo, 2005)

Nunca escondi que, dos quatro ou cinco escritores argentinos que conheço, Borges é o que menos faz meu gênero - Cortázar e Bioy Casares me emocionam muito mais. Mesmo assim, seria idiotice não reconhecer sua importância para a literatura, e não só a de seu país. Comprei esse livro logo depois de descobrir Ernesto Sabato, de quem havia lido O túnel e O escritor e seus fantasmas. Gostei muito; trata-se de uma série de conversas entre os dois, realizadas no verão de 1974-75, com Borges aos 75 anos e Sabato aos 63. Falam de escrita, suas obras, a obra dos outros, amigos em comum, as artes em geral. Nesse contexto, beleza: leio Borges com prazer.

"É que eu acredito na teologia como literatura fantástica. É a perfeição do gênero." (Borges)

"Mas por que toda realidade tem que ser coerente?" (Sabato)

"Há outra idéia, que eu li, de que se criasse uma linguagem sem nenhuma correspondência com nenhum real. Isso significa buscar uma palavra que correspondesse ao fato de ter sede quando tivesse passado das seis da tarde, por exemplo. E isso seria uma só palavra." (Borges) [Ele não conhecia The meaning of tingo.]

"O natural é o acostumado. (...) O que estou dizendo: bastariam pequeníssimas diferenças para produzir pavor." (Sabato)

"O que nós sabemos sobre a loucura? Quem sabe se o que nós fizemos até agora é, simplesmente, supervalorizar a sensatez que, com frequencia, é simples mediocridade?" (Sabato)

Borges: - Como, o senhor tem medo da morte?
Sabato: - A palavra exata seria tristeza. Morrer me parece muito triste.
Borges: - Eu penso que assim como a gente não pode se entristecer por não ter visto a Guerra de Tróia, não ver mais este mundo tampouco pode entristecer, não é mesmo? Na Inglaterra, há uma superstição popular que diz que nós não saberemos que morremos até que comprovemos que o espelho não nos reflete. Eu não vejo o espelho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Como falar dos livros que não lemos?

Como falar dos livros que não lemos?
Pierre Bayard (Objetiva, 2008)

Confesso: não li a maioria dos clássicos. Não li os russos, não li Dom Quixote nem Moby Dick. Proust, Balzac, não li Ulisses nem A divina comédia, Guimarães Rosa eu não entendo, Hemingway acho um chato e Shakespeare não me atrai porque não gosto de ler teatro. E só pretendo encarar esses e vários outros autores e obras consagradas se surgir uma vontade incontrolável, eu é que não quero ler por obrigação (nem pro vestibular fiz isso), só porque pega bem, porque é falha de currículo - ou caráter.

Mesmo assim, como mostra Pierre Bayard - que eu só li por cima, na diagonal -, é muito fácil falar de todos eles, Balzac, Hemingway, A divina comédia. Tenho, eu e todo mundo que se interessa de verdade por literatura, as informações básicas sobre todas essas obras. Já descobri como morre Anna Karenina, conheço a primeira frase de Moby Dick, sei em que dia e em que mês se dá a ação de Ulisses e posso falar longamente sobre o significado das madeleines na obra de Proust. Não que haja alguma vantagem nisso; chegar às linhas quase finais do Tolstói pra ver como ele mata sua heroína deve ser certamente mais prazeroso do que saber do suicídio da moça num ensaio sobre a obra.

Quanto aos clássicos, portanto, "enganar" (se é que é essa a palavra) não tem segredo algum. Muito mais divertido é enganar alguém que te empresta um livro que você não pediu e não está a fim de ler, e que toda hora pergunta o que você está achando da história. Por sorte, minha conhecida falta de memória ajuda. Mas a técnica é muito mais refinada do que a simples amnésia. Numa das poucas vezes em que eu tive testemunha do ato de mentir-pra-não-ficar-chato, um querido editor que trabalha comigo ficou boquiaberto com a cara-de-pau - e com a técnica - que usei pra falar de um livro que nosso chefe me emprestou. Só não vou contá-la aqui pra não correr o risco de alguém patentear em meu lugar. :-)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

The Nero Wolfe cookbook

The Nero Wolfe cookbook
Rex Stout and the editors of Viking Press (Cumberland House Publishing, 1996)

Nero Wolfe, o gordo, preguiçoso e metódico detetive criado por Rex Stout, não abre mão de dois grandes prazeres: cultivar orquídeas e discutir o cardápio do dia com Fritz Brenner, seu cozinheiro suíço. Não há história em que ele apareça sem a descrição de pelo menos uma receita ou refeição. Wolfe só aparece na cozinha para discutir com Fritz o preparo de um ou outro prato. Mas, às vezes, em mais de 30 romances e 40 contos, também foi obrigado a cozinhar. E a comer fora, de preferência no restaurante de seu amigo Marko Vukcic. Ou, horror dos horrores, a deixar que algum desconhecido cozinhasse para ele.

Todos os pratos citados nas histórias de Nero Wolfe foram compilados nesse belo volume, que tem fotos de Nova York entre os anos 30 e 50 e trechos dos livros em que cada receita aparece. Os capítulos estão divididos por temas comuns às histórias de Rex Stout: café da manhã, almoço e jantar, comida para os dias frios, comida para os dias quentes... E mais receitas de Fritz Brenner, refeições preparadas por terceiros, criações do restaurante Rusterman's e o grande jantar servido no encontro do Les Quinze Maîtres, descrito em Cozinheiros demais. Mesmo quem nunca leu Wolfe acaba curtindo o livro, se gosta de cozinhar; e quem não cozinha acaba gostando também, se for fã de Stout e do gordo detetive.

domingo, 26 de outubro de 2008

O livro no Brasil

O livro no Brasil
Laurence Hallewell (Edusp, 2005)

Primeiro eu procurei esse livro por sebos de todo o canto. Depois soube que havia sido relançado, numa edição ampliada - mas quase caí pra trás quando vi o preço. Um dia, na Cultura, ele quase me convenceu a comprá-lo, da mesma forma que eu também tentaria convencê-lo. Fiz bem em esperar. Alguns meses depois, ele herdou a biblioteca da avó. E entre as dezenas de volumes que saíram das caixas empoeiradas estava lá a primeira edição de O livro no Brasil, lançado em 1985. E que acabou em minhas mãos.

Não é tão bonita ou portentosa quanto o volume da Edusp, mas o que importa está lá: informações sobre o mercado editorial no Brasil desde que surgiu até meados dos anos 80. O livro não trata, portanto, do significativo surgimento da Companhia das Letras, em 1988, mas isso é o de menos. O que não falta, no volume de 1985, é material para pesquisa. E trabalho.

Atualização (13/11/08) - Demorou, mas aconteceu. Escrevi dois posts sobre o mesmo livro - e com apenas três meses de diferença entre um e outro. Pelo menos não fui incoerente: minha opinião sobre a obra e a historinha de como eu cheguei até ele estão contadas da mesma maneira nos dois textos...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A vida secreta dos grandes autores

A vida secreta dos grandes autores
Robert Schnakenberg (Ediouro, 2008)

A idéia é muito boa - contar podres e curiosidades de escritores famosos em forma de almanaque, e com o traço divertido de Alan Sieber. Teria dado um bom livro, não fossem três problemas que, de tão básicos, dão vontade da gente escrever para a editora e pedir o dinheiro de volta, como fazemos quando a geladeira vem quebrada ou o microondas não funciona: tradução, edição e revisão. Eu trabalho com livros e revistas. Sei que é difícil, quase impossível, publicar alguma coisa sem que passe ao menos um errinho. Mas errar ao mesmo tempo em três coisas tão primárias é abusar da boa-vontade do leitor. Apenas um exemplo de cada:

Tradução - Quem tem transtorno obsessivo-compulsivo sofre de DOC? Para o tradutor, é dessa doença que padece Dickens. E não de TOC, como estamos acostumados a ler nas notícias sobre o Roberto Carlos.
Edição - Se a obra de Tolkien é tratada no livro como O senhor dos anéis, em claro e bom português, por que dizer que as principais obras do sujeito foram The fellowship of the ring, The two towers e The return of the king?
Revisão - "Em termos de volume, as contribuições de Salinger aos cânones literários foram magros." Concordância, alguém? As contribuições foram magros?

Shakespeare morava em Stratford-upon-Avon ou em Stratsford-upon-Avon? O nome do poeta era Percy Bysshe Sheley ou Percy Bysshe Shelley? E por que, em nome de todos os deuses dos sinais gráficos, colocar aspas em palavras e expressões como carona, bombas (fracassos) e neurose generalizada? O livro poderia ser bom, sim. Eu não sabia que Virginia Woolf escrevia em pé nem que Charles Dickens proibiu, em testamento, que se erguessem quaisquer estátuas em sua homenagem. Mas, sinceramente, gostaria de receber meu dinheiro de volta.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O livro no Brasil

O livro no Brasil
Lawrence Hallewell (Edusp, 2005)

Estávamos na Livraria Cultura quando eu vi essa nova edição - belíssima, caríssima e atualizadíssima - de um livro que eu procurava há tempos e que serviu de bibliografia para várias obras da história literária do país. Ele me incentivou a comprar, mas mesmo com o preço então um pouco menos extorsivo, resolvi deixar para outra hora. Meses depois, ele herdou a biblioteca da avó. E um dos livros que vieram foi esse, ainda na primeira edição, bem mais simplezinha, e que ele me deu de presente junto com mais dois ou três títulos.

Meu interesse pela história do livro no Brasil é focado principalmente nas obras que fizeram sucesso em determinadas épocas e depois caíram no esquecimento - seja porque não eram mesmo tão boas, seja porque o gosto do público mudou. Li, talvez no Brito Broca, que A esfinge, de Afrânio Peixoto, foi um dos grandes sucessos literários das primeiras décadas do século 20. E quem hoje sabe quem foi Afrânio Peixoto, quem já leu A esfinge? Gosto de saber quais foram esses modismos. E de saber quem começou a aventura literária no país - um deles, estrangeiro, foi o tataravô do homem que me deu de presente O livro no Brasil.

Atualização (13/11/08) - Demorou, mas aconteceu. Escrevi dois posts sobre o mesmo livro - e com apenas três meses de diferença entre um e outro. Pelo menos não fui incoerente: minha opinião sobre a obra e a historinha de como eu cheguei até ele estão contadas da mesma maneira nos dois textos...

terça-feira, 22 de julho de 2008

Os livros e os dias

Os livros e os dias
Alberto Manguel (Companhia das Letras, 2005)

Entre junho de 2002 e maio de 2003, Alberto Manguel resolveu reler um livro marcante por mês e comentá-los entre os acontecimentos de sua vida numa espécie de diário literário, mais ou menos como a idéia inicial desse blog. Começa com A invenção de Morel, passa por Dom Quixote e Sherlock Holmes, termina com Memórias Póstumas de Brás Cubas. Quando eu li Os livros e os dias, no segundo semestre de 2005, já conhecia os diários e o dicionário inacabado de Lutécio Jordão - sem dúvida é por isso que meu volume está cheio de anotações nos trechos em que Manguel fala da origem de algumas palavras.

Mas mais do que referência recorrente, O livro e os dias é, a exemplo de Auto-engano e outros livros de Eduardo Giannetti, uma pequena mina de epígrafes - de Manguel e de outros. Como essa, que ele cita do Kim, de Rudyard Kipling: "Desencadeaste um Feito sobre o mundo e, como uma pedra atirada numa poça, as conseqüências assim espalhadas não és capaz de medir." Ou essa, na voz de Sherlock Holmes: "Quando você elimina o impossível, aquilo que sobra, mesmo que improvável, deve ser a verdade." Meu volume está todo anotado, com marcações de "epígrafe", "idéia", "por quê?" e outros comentários. É assim que um livro deve ser.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

501 must-read books

501 must-read books
(Bounty Books, 2006)

Eu evidentemente não tenho a conta de quantos livros já li - bem mais que 501, eu suponho. E mesmo com pilhas e pilhas de livros não lidos se acumulando ao lado da cama, numa cadeira da sala, em prateleiras do armário, não consigo resistir a esse tipo de obra que traz os imperdíveis, os você-tem-que-ler, os meus-títulos-preferidos, seja lá de quem for.

Essa obra coletiva lançada por uma editora britânica está dividida em oito capítulos: literatura infantil, ficção clássica, história, memórias, ficção moderna, ficção científica, thrillers e viagens. E o mais divertido é contar quantos eu já li. Sempre dá vontade de roubar um pouquinho - ter visto Alice no país das maravilhas, o desenho de Disney, equivale a ter lido a obra de Lewis Carroll? E as histórias que a gente começa e larga pela metade? Ou as que a gente leu e não lembra? Ok, eis a minha conta, sem contar as versões pro cinema e incluindo as esquecidas: 16 infantis, 8 clássicos, 1 (!!!) de história, 1 (!!!) de memórias, 14 de ficção moderna, 1 de ficção científica (A invenção de Morel, que eu classificaria de outra forma), 4 thrillers e nenhum (!!!) de viagens. Bom, mas só há dois brasileiros na lista: Dona Flor..., de Jorge Amado, e Memórias Póstumas..., de Machado de Assis.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Pós-escrito a O nome da rosa

Pós-escrito a O nome da rosa
Umberto Eco (Nova Fronteira, 1993)

Quando eu li esse Pós-escrito... pela primeira vez, pensei em Monteiro Lobato no capítulo em que Umberto Eco escreve sobre os mundos imaginários - na verdade sobre qualquer mundo ficcional, ainda que ele tenha existido mesmo, como a Itália medieval em que ambienta seu O nome da rosa. Não tenho dúvida de que Eco resume, ali, a regra mais básica de qualquer romance bem-sucedido: entender o universo do qual se fala, ainda que boa parte desse conhecimento nem chegue perto das páginas finais. (J.K. Rowling mostrou-se uma aluna nota 10 em sua saga de Harry Potter.)

Portanto, muito mais do que servir como um complemento ao thriller medieval, o Pós-escrito... é o making-of de O nome da rosa. Nele Umberto Eco explica, por exemplo, por que as 100 páginas iniciais do livro são tão chatas. E, com sua narrativa envolvente, ele nos deixa com vontade de voltar ao thriller mais uma vez.

domingo, 29 de junho de 2008

O Sabadoyle

O Sabadoyle
Homero Senna (Casa da Palavra, 2000)

De vez em quando alguém aparece com a pergunta: "se você pudesse ter escolhido outro lugar e outra época para viver, qual seria?" Eu já respondi que seria o Rio dos anos 50, na transição para a bossa-nova. Ou a São Paulo do modernismo de 1922. A Paris de Picasso, de Hemingway e Fitzgerald. Na verdade, acho que nada seria melhor do que o aqui e o agora - só de contar com a internet e com um sistema de troca de mensagens que, durante a maior parte de minha vida, não passava de um imenso delírio futurista, já me dou por satisfeita com os anos 2000.

Mas dois momentos da nossa história literária me fazem ter vontade de, senão ter vivido a época, pelo menos poder voltar um pouquinho no tempo. Um é o Rio de Janeiro no final do século 19, como Brito Broca descreve muito bem em seu Vida Literária no Brasil - 1900. Outro é o mesmo Rio, só que o dos anos 60 e 70, quando o advogado e bibliófilo Plínio Doyle começou a receber amigos no sábado à tarde em torno de sua biblioteca. Sábado + Doyle = Sabadoyle. Uma confraria literária, nas palavras do autor Homero Senna, por onde passaram nomes como Carlos Drummond de Andrade (um dos fundadores do grupo), Pedro Nava, Raul Bopp, Afonso Arinos e Alphonsus de Guimaraens Filho, e que contou com visitantes ilustres como Di Cavalcanti e Lygia Fagundes Telles. As atas de cada encontro - porque até isso o clubinho tinha - chegaram a ser reunidas em dois livros: uma edição das atas-poema, feita pelos próprios confrades, e uma reunião das atas de Natal, lançadas pela Massao Ohno nos anos 90. Será que ninguém se interessa em editar tudo de novo?

A biblioteca mágica de Bibbi Boken

A biblioteca mágica de Bibbi Boken
Jostein Gaarder e Klaus Hagerup (Cia. das Letras, 2003)

Eu não resisto a um livro sobre livros - nem quando é escrito por Jostein Gaarder, que aqui repete a fórmula epistolar de sua única outra obra que li: o best-seller O mundo de Sofia. Ao contrário dos bons livros sobre livros, porém, esse é, na verdade, um romance para adolescentes que se propõe a introduzir seu público no maravilhoso mundo literário. Eu, se tivesse que escrever algo sobre livros para jovens, gostaria de fazer algo melhor, menos chato e muito menos assustador (porque, convenhamos, fazer um personagem procurar no dicionário o que quer dizer "incunábulo" mais afasta do que aproxima qualquer criatura do tema).

Eu não me lembrava que ... Bibbi Boken era tão chato até tirá-lo da estante pra escrever este post. Mas em meio a tanta bobeira, ele se prestou para uma coisa: me ensinar o que é a classificação decimal de Dewey, usada para indexar os volumes de uma biblioteca segundo uma vasta tabela de temas. É claro que nunca decorei e nem pretendo decorar a classificação de Dewey, mas só de conhecer a lógica por trás daqueles numerozinhos etiquetados na lombada dos livros já fiquei mais feliz. Mesmo através do Jostein Gaarder.

domingo, 8 de junho de 2008

Dicionário de lugares imaginários

Dicionário de lugares imaginários
Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (Companhia das Letras, 2003)

Agrada saber que tenho essa obra na estante; quando passo os olhos por todos os volumes enfileirados na minha prateleira de "livros sobre livros", esse é um dos que mais causa prazer. Talvez pela excelente idéia desenvolvida pelos autores, a de compilar em verbetes as cidades, planetas, mundos, ruas, edifícios e outros lugares que, mesmo sem existir de verdade, são tão importantes para algumas obras literárias que, às vezes, merecem até mapas detalhados de sua geografia.

Mas quando tiro o livro da estante para ler, ao acaso, algum dos verbetes, vem uma inevitável frustração. Não só pelo fato da maioria dos lugares imaginários pertencer a obras desconhecidas, sem tradução para o português - mas principalmente porque os textos foram escritos de uma maneira enciclopédica demais, sem charme, de um jeito que às vezes causa mais desconfiança do que curiosidade pelo lugar retratado. A edição brasileira incluiu alguns locais famosos de nossa literatura, como o Sítio do Picapau Amarelo, Antares e o ateneu de Raul Pompéia. Só não entendo o critério de seleção, que privilegiou, por exemplo, a Ilha do Pavão, citada em um dos romances menores de João Ubaldo Ribeiro, e deixou de fora Santa Fé, cidade que é quase protagonista de O tempo e o vento, ao lado da família Terra Cambará.

sábado, 27 de outubro de 2007

On writing

On writing
Stephen King (Pocket Books, 2000)

Eu nunca tinha lido uma linha escrita por Stephen King - no máximo, visto alguns filmes baseados em suas obras, como os ótimos Conta comigo e Louca obsessão. Até que uma amiga indicou esse On writing, misto de memórias e lição de escrita (não posso questionar a qualidade literária de King, já que não li sua ficção, mas é preciso concordar que de alguma coisa ele entende, ou não criaria livros que vendem feito pão quentinho).

A parte autobiográfica do livro é bem legal: eu não tinha idéia de que Stephen King resolveu virar escritor tão cedo, que ele é casado há séculos com a mesma mulher, nem da gravidade do acidente que ele sofreu em 1999. Mas o que me interessava mesmo eram os "segredos" do escritor, convenientemente reunidos num capítulo chamado "Toolbox". Como Stephen King desde o começo alerta que qualquer livro que se pretenda ensinar a escrever é bullshit, eu estava curiosa pra saber do que ele iria tratar. E ele trata do básico, do mais simples de tudo: aprenda gramática, conheça as regras para poder subvertê-las, não existe nada parecido com uma "musa", o melhor caminho é o mais simples, leia muito e escreva muito, corte palavras inúteis. Óbvio, pelo menos para quem escreve como jornalista. Difícil, para a maioria das pessoas que quer escrever ficção. Duas "regras" de King nunca me abandonaram: trate os advérbios como seres de outro planeta (a comparação é minha) e kill your darlings (fui até procurar a frase original: "kill your darlings, kill your darlings, even when it breaks your egocentric little scribbler's heart, kill your darlings". Quem disse que escrever é cortar estava certíssimo.

sábado, 13 de outubro de 2007

Uma vida

Uma vida
Plínio Doyle (Casa da Palavra, 1999)

Assim como Ex-Libris, tema do primeiro post do blog, este é o tipo do livro que a gente termina de ler e fica com gosto de quero mais - muito mais. Plínio Doyle, o "José Mindlin carioca", escreve sem nenhuma pretensão para falar de sua vida em meio aos livros: o começo na advocacia, a formação de sua biblioteca (hoje pertencente à Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio), as reuniões de sábado à tarde em sua casa, inauguradas por Carlos Drummond de Andrade em 1964 e mais tarde batizadas de Sabadoyle. É impossível ler o livro sem ficar com vontade de ter participado de pelo menos uma delas, só pra ouvir a conversa de gente como Drummond, Pedro Nava, Paulo Rónai, Antônio Houaiss, Raul Bopp, Afonso Arinos e tantos outros.

Mas não é a vida de Plínio Doyle (1906-2000) a melhor parte do livro. É a maneira apaixonada e, várias vezes, muito divertida, como ele conta histórias a respeito de sua biblioteca. Uma delas: na edição das Poesias Completas de Machado de Assis pela H. Garnier, em 1901, o escritor adverte que suprimira da obra um prefácio anterior. "Não deixo esse prefácio, porque a afeição do meu defunto amigo a tal extremo lhe cegara o juízo que não viria a ponto reproduzir aqui aquela saudação inicial." Pobre Machado; como conta Doyle, "aquele cegara ali em cima teve uma letra trocada pelo tipógrafo: o e por um a". A biblioteca da Casa de Rui Barbosa tem 3 exemplares do livro: um com o erro original, um outro corrigido à mão e uma edição correta.

Doyle transcreve, ainda, dedicatórias e trechos das atas das reuniões semanais em sua casa - o que nos leva a um outro livro, igualmente delicioso, que pode ser lido em complemento a esse: O Sabadoyle, de Homero Senna (Casa da Palavra, 2000). Pena que Plínio Doyle não tenha escrito mais. E pena que o volume O natal no Sabadoyle, editado em 1994 pela Massao Ohno, não esteja mais em catálogo. Bem poderia alguém se animar a reeditá-lo, e a editar também uma coleção de todas as atas do Sabadoyle.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Ex-libris

Ex-libris
Anne Fadiman (Jorge Zahar, 2002)

Tem gente que não entende meu gosto por releituras. Acham que, porque leram uma vez, já conhecem "o fim da história" e por isso não faz sentido reler literatura. Não dá pra discutir - eu também não entendo por que tem gente que revê 1000 vezes o filme Duro de Matar.

Tem gente que não admite uma sujeirinha em seus livros. Que só falta pegá-los com luvas cirúrgicas, não usa a orelha, cobre com papel-manteiga pra evitar da capa amarelar. Eu USO meus livros. Grifo. Escrevo nas margens. Derramo lágrimas sobre a tinta, dobro a lombada pra ficar mais confortável de ler na cama, às vezes marco a página com a lapiseira que usei pra fazer anotações.

Por essas e outras (eu também adoro ganhar livros de presente! eu também adoro escrever e receber dedicatórias! eu também "reviso" cardápios e tudo quanto é texto que cai nas minhas mãos!), desde a primeira página eu me senti a alma gêmea de Anne Fadiman, editora e escritora americana que juntou suas "confissões de uma leitora comum" no pequeno e delicioso Ex-Libris. O primeiro texto trata do casamento de duas bibliotecas: a dela e a do marido. Outro fala de plágios (e de como a mãe dela, correspondente de guerra, foi plagiada por um escritor que virou best seller). Outro, de sebos (e dos 8,5 quilos de livros usados que ela ganhou certa vez do marido, como presente de aniversário). Mas Anne Fadiman não trata apenas de histórias familiares. Seus textos sobre livros e o prazer de ler acabam sendo uma fonte de referências para quem, como eu, esconde uma obsessão (uma estante excêntrica, diria ela): o amor por livros sobre livros. O único defeito de Ex-libris é o tamanho: 162 páginas que a gente lê de uma tacada. Ando pensando em começar uma campanha para fazer Anne Fadiman escrever mais.