domingo, 7 de março de 2010

A autobiografia de Alice B. Toklas

A autobiografia de Alice B. Toklas
Gertrude Stein (CosacNaify, 2009)

Aos trancos - não porque não esteja gostando, mas porque o tempo parece ter se esmerado em pregar suas peças em mim -, estou terminando de ler Paris é uma festa, de Hemingway, numa versão em inglês, para o Kindle, anterior àquela que um de seus netos desfigurou para tentar melhorar a imagem da avó. E me diverti muito, logo no início, quando Hemingway fala de sua amizade com Gertrude Stein, bem na época retratada pela escritora nesse A autobiografia de Alice B. Toklas. Sim, trata-se de uma "autobiografia", mas escrita por outra pessoa - afinal, a vida de uma é a vida da outra.

Alice viveu com Gertrude por 38 anos, dividindo os papéis de amante, secretária, governanta e eventual cozinheira. Segundo MFK Fisher, no prefácio de O livro de cozinha de Alice B. Toklas, foi uma mulher baixinha, muito feia, de olhos vivos e gosto por chapéu espetaculares. Era dela a tarefa, como conta Gertrude e corrobora Hemingway (sem, no entanto, citar o nome de Alice), de conversar com as mulheres dos amigos da casa, de passar a limpo e de fazer a revisão dos textos da companheira.

Eu já tinha lido O livro de cozinha..., escrito pela própria Alice depois da morte de Gertrude Stein. É meio sisudo e, às vezes, até baixo-astral, embora traga histórias inspiradoras - muito diferente da bem-humorada autobiografia que, mesmo sem ter saído da pena da biografada, consegue mostrar de um jeito bem mais amigável quem foi, afinal, essa americana que largou tudo em seu país para viver, na França, com a escritora (já, então, um tanto famosa - se não pelos livros, pela fabulosa coleção de amigos: Picasso, Matisse, Apollinaire, Sherwood Anderson, vários outros).

É também através das palavras de Alice que Gertrude Stein fala muito de si mesma, quase sempre sem nenhuma modéstia ("Posso dizer que só três vezes na vida encontrei gênios [...] Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred Whitehead"), das frustrações e expectativas em relação à sua obra e de seu método de trabalho. Picasso, suas mulheres e seus quadros, ocupam boa parte das memórias, assim como a convivência com Matisse, desafeto da cozinheira Hélène: "(...) Monsieur Matisse vai ficar para jantar hoje, ela dizia, nesse caso não vou fazer omelete, mas ovos fritos. Gasta o mesmo número de ovos e a mesma quantidade de manteiga, mas demonstra menos respeito e ele vai entender."

Dá vontade de ler outra vez, assim que eu acabar o Hemingway, e continuar lendo outros escritos sobre essa época em Paris. O livro de Sylvia Beach sobre a Shakespeare and Company. Paris era ontem, de Janet Flanner, a correspondente da revista The New Yorker, na França, quando Gertrude, Alice, Pablo, Ernest e tantos outros viviam lá. É dela, aliás, a frase "qualquer autobiografia de uma será, necessariamente, uma biografia da outra", que usei adaptada ali em cima, e que aparece no ótimo posfácio de Silviano Santiago - ilustrado por uma foto das duas, Gertrude Stein levando um cachorro na coleira e Alice B. Toklas a seu lado, baixinha, muito feia, com um chapéu espetacular.

9 comentários:

K disse...

é bom tê-la de volta!

Anônimo disse...

Oi, que bom que voltou, isabel, estava sentindo sua falta! :)
Também li esse livro, gostei muito, ela realmente eh meio pretensiosa, e dá mesmo vontade de ler mais sobre todos e sobre a época. Li tb Paris, França, e uma biografia muito boa, de uma autora cujo nome esqueci, mas ótima mesmo.
um abraço,
clara lopez

Isabel Pinheiro disse...

Obrigada, meninas! Vamos ver se eu consigo manter um ritmo...

Clara, esse Paris, França, é aquela "biografia" da cidade? Eu vou procurar esse livro da Janet Flanner assim que puder.

Beijos

Anônimo disse...

Sim, mas ela reclamava de "a visão do livro como uma o retrato de uma nação é equivocada e que, na visão dela, Paris França 'vai muito além de um retrato literal de um lugar'" - isso está no prefácio, e, na verdade, quase tudo na vida de Stein é polêmico, né não?
A biografia é da Flanner mesmo, muito boa.
um abraço,
clara

Anônimo disse...

Retificando, isabel: o livro a que me refiro é Duas vidas, Gertrude e Alice, e a autora é a Janet Malcolm. Comento rapidamente no linha de 19/10/2008.
um abraço,
clara lopez

Isabel Pinheiro disse...

Vou ver no linhadepesca e vou procurar o livro, Clara! Beijo

Ana M. M. Pereira disse...

Alice, visitei seu blog após a leitura de um comentário seu no site da Livraria Cultura (livro "Os Livros e os Dias" / Alberto Manguel). Adorei seus escritos e suas leituras. Sou leitora contumaz (e um pouquinho escritora - brinco de escrever). Caso você não tenha lido - "Shakespeare and Company Um Livro por Dia / Minha temporada parisiense na Shakespeare and Company", de Jeremy Mercer / Ed. Casa da Palavra - trata da "continuidade" da livraria de Sylvia Beach (bem mais recente, c/ George Whitman, seu atual dono - uma "lenda viva" na livraria).
Sou apaixonada por todas as leituras dos autores dessa época J. Joyce (Um retrato do artista quado jovem / Alfaguara), Hemingway ("Paris é uma Festa), entre outros.
O livro de Monique Truong, "O Livro do Sal" (José Olympio Editora, 2008) é uma agradável surpresa e leitura imperdível sobre um cozinheiro vietnamita de de Gertrude Stein e Alice Toklas.
PS: pelo meu orkut (Ana Pereira - ana.mmp@terra.com.br) você chega no "esboço" do meu blog... Aceito dicas para melhorá-lo (estou iniciando essa construção).
Ana M M Pereira (Rio de Janeiro, RJ)

Ana M. M. Pereira disse...

Ah, esqueci de dizer que minha próxima leitura (estou relendo Madame Bovary), é TRÊS VIDAS - Gertrude Stein / Cosac Naify (foi o primeiro livro de G.Stein, em 1909 - 3 novelas que contam as histórias de 3 mulheres). Abraços, Ana M M Pereira

Isabel Pinheiro disse...

Oi, Ana, obrigada pela visita. Também estou com o "Três vidas" na fila, e acabei de ler o "Paris é uma festa" (logo mais escrevo sobre ele aqui). Tenho o livro da Sylvia Beach, mas ainda não li. E adorei a dica sobre o livro do cozinheiro vietnamita, já anotei.

Eu não tenho Orkut. Se quiser, por favor, mande o endereço do seu blog!

Abraço