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quinta-feira, 18 de março de 2010

Wash this blood clean from my hands

Wash this blood clean from my hands
Fred Vargas (Penguin USA, 2007)

A francesa Fred Vargas inaugurou a série de romances policiais vivida pelo detetive Jean-Baptiste Adamsberg com O homem dos círculos azuis. Depois, vieram O homem do avesso, a graphic novel Les quatre fleuves, Fuja logo e demore para voltar, a coleção de três novelas Coule la Seine, Sous les vents de Neptune (este Wash this blood clean from my hands, em inglês), Relíquias sagradas e Un lieu incertain. Não sei o que levou a Companhia das Letras a lançar os quatro títulos, em português, fora da ordem cronológica. Mas deve ter sido um motivo e tanto, porque poucas coisas são tão importantes a ponto de estragar a surpresa de uma história de detetives - é o que acontece com quem lê Relíquias... antes de Wash this blood..., como eu.

Ok: mesmo fazendo várias referências ao livro anterior, Relíquias... não entrega totalmente o jogo. Mas acaba com duas dúvidas fundamentais que surgem durante a narrativa de Wash this blood..., principalmente no final, porque a gente já sabe quem é mocinho e quem é bandido, quem é pai de quem, quem salva quem e onde (embora o salvamento seja espetacular).

Acontece que Jean-Baptiste Adamsberg tem um passado tumultuado. Foi envolvido num crime acontecido há mais de trinta anos e nunca se livrou da obsessão de pegar o assassino, o Netuno (ou Tridente) do título francês. E, mesmo sabendo que o sujeito morreu há mais de uma década, meu detetive preferido põe em dúvida a própria sanidade mental quando crimes semelhantes aos que o bandido praticava começam a aparecer aqui e ali - até mesmo no Canadá, onde seu time de detetives passa por um treinamento de quinze dias. Não estraga dizer que Camille está em Montreal. Que Adamsberg continua quase um porco chauvinista (mas um adorável porco chauvinista). Que uma das melhores personagens do livro é também uma das mais improváveis. E que, como em todo romance de Fred Vargas que eu li até hoje, é preciso suprimir um pouco do amor pela credibilidade para sair do livro feliz.

domingo, 14 de março de 2010

O último caso da colecionadora de livros

O último caso da colecionadora de livros
John Dunning (Companhia das Letras, 2009)

"Só o Kindle salva", pensei, ao saber que teria de ficar uma semana sem carregar peso, digitar e fazer movimentos bruscos com o braço direito, por causa de uma cirurgia. Foi tudo bem - e o Kindle realmente salvou, tão fácil que é de ler só apertando os botõezinhos com a mão esquerda. Mas eu imaginava que, com sete dias inteirinhos sem poder fazer absolutamente nada, a não ser ler e ver TV, eu devoraria três, quatro títulos em uma tacada, e acabei empacando neste aqui.

Foi meu terceiro romance com Cliff Janeway desde que descobri o detetive em A promessa do livreiro - nas férias, havia lido também Assinaturas e assassinatos (outra vez no Kindle, outra vez em inglês: The sign of the book). E foi o que menos gostei. Começa bem, termina relativamente bem, mas a maior parte da trama é muito cansativa: uma repetição sem fim de situações, algumas até inverossímeis, no chato ambiente das corridas de cavalos.

Janeway é chamado por um sujeito antipático e misterioso para avaliar a coleção de livros de um velhote que acabou de morrer. Não aceita. Mas acaba envolvido na história ao ver antigas fotografias e conhecer a filha do falecido.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sala dos homicídios

Sala dos homicídios
P.D. James (Companhia das Letras, 2004)

O nome em português não ajuda muito - "Murder Room", o título original, não só é mais sonoro como direciona toda a trama para um lugar crucial, a sala dedicada a vários crimes famosos do período entre-guerras, instalada num museu próximo a Londres. Bem, o Museu Dupayne não existe de verdade, como explica P.D. James no prefácio. Mas todos os assassinatos explorados no "murder room" aconteceram realmente e estão registrados na Scotland Yard. É para lá, desta vez, que se dirige a investigação de Adam Dalgliesh, o detetive-poeta que, como eu já disse, só não roubou meu coração porque já sou apaixonada por Jean-Baptiste Adamsberg.

Gostei bem mais deste livro do que de Paciente particular, o mais recente título de P.D. James e minha estreia na obra da escritora. Primeiro porque Dalgliesh parece mais humano e simpático. Depois, a trama de mistério me agradou mais: começa com um incêndio criminoso, segue com uma série de interrogatórios que coloca todos os suspeitos sob a luz negativa da antipatia, não dá uma palhinha de quem pode ter cometido os assassinatos (ou melhor, até dá; mas esse é o tipo de leitura rápida em que a gente não presta muita atenção quando lê, mesmo) e traz aquele tipo de suspense que me faz prender a respiração e pensar coisas como "não, P.D. James, você não seria capaz de matar meu personagem favorito, seria?" - e como você sabe que sim, ela seria, fica na maior torcida pra alguma coisa acontecer na última hora e salvar seu personagem favorito de um triste fim.

Mas realmente não é uma boa ideia começar a ler as aventuras de Adam Dalgliesh de trás para frente. Paciente particular, o mais recente, é o 14º da série; Sala dos homicídios é o 12º. Só que agora resolvi ler policiais no Kindle, porque fica muito mais barato e não ocupa espaço aqui em casa, e nem tudo está disponível para o formato. Bem, A certain justice, o 10º, está. Vai ver é assim que eu preciso ler P.D. James, de dois em dois livros, do fim para o começo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

The lost symbol

The lost symbol
Dan Brown (Doubleday, 2009)

A meu favor, conta o fato de eu nunca ter me considerado "intelectual" - porque dá uma certa vergonha gastar meu tempo lendo uma bobagem de Dan Brown quando eu poderia tirar o atraso de tanto livro bom que comprei e acabou guardado na estante sem sequer ter sido aberto. Bem, não sou perfeita. E sei que a) qualquer Dan Brown, por mais que tenha 500 páginas, pode ser lido em um fim de semana; b) não é preciso prestar atenção nas qualidades literárias do autor, já que elas não existem; c) por mais inverossímeis que sejam, suas tramas rocambolescas conseguem me deixar extremamente curiosa pra saber como é que tudo será resolvido no final.

(Meu único comentário sobre a escrita de Dan Brown - como disse, não existem qualidades literárias, e ninguém precisa ser crítico pra ver isso - diz respeito à maneira irritante como ele usa frases em itálico sem a menor coerência e muito menos parcimônia, como bem notou o blog de livros do Guardian. "The Cube. Katherine Solomon's lab." Que raios é isso? O pensamento do sujeito ou apenas uma forma de enfatizar o lugar aonde ele chegou? É irritante. E acontece o tempo inteiro.)

A essa altura - o livro será lançado no Brasil ainda este mês -, muita gente já deve saber do que trata a nova empreitada do professor Robert Langdon, de Anjos e demônios e O código Da Vinci: a busca frenética por um de seus grandes amigos, sequestrado por um maluco em Washington, e a tentativa de solucionar um antigo mistério ligado à Maçonaria. Como nas aventuras anteriores de Langdon, tudo acontece muito, muito rápido (dessa vez, em apenas uma noite). Como nas aventuras anteriores, não dá pra saber em quem confiar (seria a diretora da CIA mocinha ou bandida? E o administrador do Congresso? E o padre cego? E o próprio amigo sequestrado?). E, como nas aventuras anteriores, não faltam perigos e reviravoltas (mas quem, em sã consciência, pode acreditar que Dan Brown mataria seu principal e mais lucrativo personagem?).

Sei lá se é porque já estou familiarizada com a fórmula do escritor, ou porque conheço os principais monumentos de Washington D.C., ou porque é tudo mesmo muito óbvio - neste livro, consegui "descobrir" os dois principais mistérios da história bem antes da metade. Vantagem? Nenhuma. Apenas a constatação de que, por pior escrito que seja, O código Da Vinci ainda é mais divertido.

domingo, 18 de outubro de 2009

Paciente particular

Paciente particular
P.D. James (Companhia das Letras, 2009)

Eu nunca havia lido P.D. James até ganhar este livro de presente - e, ainda no início, cheguei à conclusão de que não posso me considerar uma legítima fã de policiais sem conhecer tanta coisa bacana. Só neste ano, fui apresentada a três autores, digamos, já bem rodados nas histórias de detetives: Fred Vargas, Henning Mankell e a agora querida P.D. James. E faltam tantos... Patricia Highsmith, por exemplo, de quem só li O amigo americano, e há tanto tempo que não me lembro de quase nada.

Paciente particular ganhou minha simpatia logo de cara porque o clima, o ambiente, os personagens fizeram com que eu reconhecesse, ali, um toque de Agatha Christe, de quem podem falar mal à vontade que eu vou continuar adorando anyway. Talvez tenha sido o cenário - uma mansão no interior da Inglaterra transformada em hospital particular -, ou a personalidade quase hermética das principais figuras envolvidas na história, ou o hábito tão britânico e agathachrístico do chá da tarde, ou a hierarquia um tanto ritualística seguida pelos moradores da clínica. Sei que, de repente, eu estava esperando que aparecesse ali, em Cheverell Manor, não o investigador Adam Dalgliesh (por quem só não me apaixonei porque meu coração já pertence a Jean-Baptiste Adamsberg), mas Hercule Poirot ou Miss Marple.

Rhoda Gradwin é uma jornalista especializada em descobrir o podre de pessoas poderosas. Dona de uma cicatriz que corta seu rosto, ela resolve internar-se na clínica do famoso cirurgião plástico George Chandler-Powell. A operação é um sucesso - mas Rhoda nunca chega a ver seu rosto reconstruído, já que morre assassinada logo depois da intervenção. Todo mundo é suspeito: o médico, o médico-assistente e sua irmã acadêmica, a enfermeira-chefe, a governanta da clínica, a empregada maluquete, o casal de cozinheiros, a contadora. Por causa de uma frase do final do livro que eu li sem querer e, ironia, interpretei errado, descobri o assassino bem antes de Dalgliesh. Mas nem isso tirou a graça da trama e o envolvimento que eu senti com tudo aquilo. Atrás de mais P.D. James, pois.

domingo, 20 de setembro de 2009

A morte tem sete herdeiros

A morte tem sete herdeiros
Stella Carr e Ganymédes José (Moderna, 2003)

Minha edição deste livro há muito perdeu a capa (que nem era igual a essa, aliás), mas conserva o autógrafo de Stella Carr na primeira página. Eu devia ter uns 12 anos, talvez? E me lembro de ter ficado felicíssima ao saber que dois dos meus autores favoritos iam se juntar pra escrever um livro: o Ganymédes José da série Inspetora e tantos outros, a Stella Carr da série Irmãos Encrenca. Melhor ainda, uma história de mistério que, no volume que eu tenho, ganhou o subtítulo de "A noite em que Agatha Christie visitou Jacuruçunga" - e eu já era fã da velhinha inglesa desde aquela época.

Os sete sobrinhos e alguns agregados de Rogério Matta Leitão (todos os nomes do livro são ótimos) encontram-se em sua casa, depois da morte do velho, para descobrir quem herdará a fortuna do falecido. Durante a noite, coisas estranhas começam a acontecer: a chegada de visitantes inesperados, um assassinato aqui, outro ali, gente que desaparece... Mesmo depois de tantos anos, eu ainda adoro o livro. E fico imaginando como deve ter sido delicioso o processo de escrita a quatro mãos entre Stella e Ganymédes, como os dois devem ter dado risada e se divertido. Só isso já vale a leitura.

domingo, 30 de agosto de 2009

Assassinos sem rosto

Assassinos sem rosto
Henning Mankell (Companhia das Letras, 2001)

Fazia tempo que não acontecia de eu pegar um livro e ler tudo em dois dias, como foi com Assassinos sem rosto. Mas confesso que houve um motivo para isso: comprei o livro para dar de presente e resolvi, primeiro, conferir a história - meu presenteado, afinal, é fã de romances policiais, e, como eu nunca tinha lido Mankell antes, fui ver se a história era bacana. Gostei. Não tanto quanto de Fred Vargas, que eu diria ser um Mankell aprimorado, mas gostei.

Este é o romance que apresenta o inspetor Kurt Wallander, o Jean-Baptiste Adamsberg de Henning Mankell. Assim como o colega fictício francês, o sueco Wallander vive sozinho, tem problemas com as mulheres e lidera uma equipe formada por tipos bem diferentes de policiais. Mas Adamsberg é um personagem muito mais carismático e bem-construído: a gente torce por ele. Talvez lendo outros livros de Wallander eu passe a torcer por ele também, mas nessa sua estreia só o que eu conseguia pensar era em, por exemplo, "por que ele não foi conversar com as filhas do casal assassinado?" Ou na superficialidade com que aparecem figuras que deveriam ter alguma importância na vida do detetive - a filha de Wallander, Linda, é um ser meio evanescente, assim como a Camille de Adamsberg, mas muito menos interessante; e não dá pra ter qualquer simpatia por seu velho pai, cada vez mais senil, ou pelo melhor amigo que ficou no passado.

E aí tem uma outra coisa que me incomoda muito em alguns policiais, até mesmo em Fred Vargas: a solução fácil. Podem falar o que quiser de Agatha Christie, subliteratura e sei lá o quê, mas pelo menos seus finais eram quase sempre surpreendentes. Pelo menos neste livro, Henning Mankell ficou devendo um desfecho mais emocionante.

domingo, 5 de julho de 2009

Fuja logo e demore para voltar

Fuja logo e demore para voltar
Fred Vargas (Companhia das Letras, 2004)

Não, Jean-Baptiste, não faça isso. Que coisa feia. Só dá pra perdoar - ou melhor, não dá pra perdoar, mas dá pra entender - porque sua cabeça estava longe, envolvida com o semeador. E não um semeador qualquer, um que sai por aí plantando hortas, pomares, jardins. Um semeador da peste. Doença, mesmo. A única diferença é que essa mata por estrangulamento, e não através de pulgas infectadas. Deixa os corpos pretejados por carvão de macieira. E não parece escolher suas vítimas ao acaso.

Dos quatro livros de Fred Vargas que li, esse foi o que mais gostei - embora a melhor explicação para a relação de Jean-Baptiste Adamsberg e Camille Forestier esteja em O homem do avesso; a metáfora do rio é realmente bacana. Mas Camille e Adamsberg são só um pano de fundo para as histórias de crimes que o delegado resolve depois de muito ouvir, intuir e caminhar. Mesmo assim, também como em Relíquias macabras, é preciso abstrair um pouco a crença na hora em que os crimes são explicados. Tudo bem, é ficção, e pelo menos dessa vez a autora usou de um jeito menos óbvio a fórmula que criou para esconder a identidade do assassino.

Eu me viciei em Adamsberg. Acho que o jeito é procurar pelos dois livros que faltam, em inglês, numa Amazon qualquer.

domingo, 21 de junho de 2009

O homem dos círculos azuis e O homem do avesso

O homem dos círculos azuis e O homem do avesso
Fred Vargas (Companhia das Letras, 2006 e 2004)

Voltei de Paris apaixonada por Jean-Baptiste Adamsberg, delegado do V arrondissement, nascido na região dos Pireneus, baixote, feioso, intuitivo, devagar. E muito esperto, como mostra O homem dos círculos azuis, o primeiro de uma série de livros policiais a ter Adamsberg como protagonista. Durante a viagem, deu tempo de ler esse e O homem do avesso, título que vem na sequência - e que, não entendi muito bem o motivo, a Companhia das Letras publicou fora da ordem de lançamento original.

Mas se Adamsberg continua apaixonante de um livro para outro, tanto pela maneira como resolve seus casos como pela relação vaivém, apaixonada e impossível, com Camille Forestier, Fred Vargas carece de um pouco mais de originalidade. Quem lê O homem dos círculos azuis e O homem do avesso na sequência vê que a autora usou a mesmíssima fórmula para criar seus assassinos. Não é difícil, portanto, descobrir a identidade do criminoso de O homem do avesso.

Pensando bem, o mesmo recurso - mais não digo para não estragar o prazer da leitura inédita - foi usado também em Relíquias sagradas, o penúltimo livro da série até agora. O diacho é essa publicação não-sequencial, que deixa evidentes os vácuos na história de Adamsberg e Camille; ainda assim, o relacionamento dos dois é pano de fundo mais que suficiente para manter o interesse entre uma trama e outra. Até onde eu sei, Fuja logo e demore para voltar, o único outro livro do delegado publicado no Brasil, e que eu ainda não li, é o quarto título a tê-lo como protagonista. Há um quinto, seguido de Relíquias sagradas, e um sexto livro editado apenas em francês.

sábado, 9 de maio de 2009

Relíquias sagradas

Relíquias sagradas
Fred Vargas (Companhia das Letras, 2009)

Nem quando estou com excesso de trabalho consigo deixar os livros de lado - mas, no ritmo em que as coisas andam, só dá pra me dedicar a uma certa leitura fast food, que distraia e não me obrigue a pensar muito, como esse novo romance policial da francesa Fred Vargas. E foi graças ao excesso de trabalho que consegui terminá-lo, essa semana, durante os vôos de ida e volta a Belo Horizonte para uma reunião na bela Praça da Liberdade.

Precisei de pelo menos 100 páginas para me envolver direito com a história. Talvez isso não acontecesse se eu já tivesse lido os outros livros de Vargas que têm como principal personagem o delegado Adamsberg, da Brigada Criminal de Paris, e sua equipe de tenentes, brigadeiros e comandantes tão diversa quanto divertida. Em Relíquias sagradas, a autora mistura o "fantasma" de uma freira, uma enfermeira assassina, dois grandalhões mortos, o coração de um cervo, um tira novato de cabelo mechado, uma briga ocorrida há mais de 30 anos, violações de túmulos e uma antiga fórmula medieval - se é que eu não me esqueci de alguma coisa. E dá um jeito de juntar tudo, no final. Se ficou um senão, foi a história do gato. Mas meu irmão me garante que os animais são capazes de coisas aparentemente impossíveis...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A cada um o seu

A cada um o seu
Leonardo Sciascia (Alfaguara, 2007)

Por causa do trabalho, não tenho me dedicado como eu gostaria à leitura - e tudo indica que não vou me dedicar tão cedo, o que promete um grande hiato no blog. (Pelo menos, na última semana, chegou meu At large and at small, da Anne Fadiman, e eu espero, com sorte e algum grau menor de dispersão, poder ler os ensaios aos pouquinhos.) Então, nos últimos dias, aproveitei para reler esse A cada um o seu, que havia lido no lançamento e que, como quase sempre, havia sumido da minha memória.

Nesse caso isso é mais espantoso porque trata-se de um enredo com ameaça de morte, assassinato, suspeitas. Um professor que decide investigar o caso. E a solução - sem que eu me lembrasse de nada até quase os últimos capítulos. É um bom livro, agradável e engenhoso. Mas deixa a gente com uma sensação estranha no final.

domingo, 22 de março de 2009

O assassinato de Roger Ackroyd

O assassinato de Roger Ackroyd
Agatha Christie (Globo, 1997)

Até onde eu me lembro, foi esse meu primeiro Agatha Christie - numa edição pequenininha, do falecido Círculo do Livro, que rodava perdida lá em casa. Eu não devia ter mais do que 12 anos; sei disso porque ainda tenho, caindo aos pedaços, alguns volumes de uma coleção da Nova Fronteira com data de 1983, comprados durante as férias de verão numa livraria do Guarujá.

Acho que eu não podia ter começado Agatha Christie por livro melhor. O assassinato de Roger Ackroyd tem um final surpreendente, comparável apenas a Cai o pano, O caso dos dez negrinhos e poucos outros. E não surpreende só pela identidade do assassino, mas pelo jeito como o crime foi pensado. A memória tem dessas coisas engraçadas: de ... Roger Ackroyd ficaram também a lembrança da primeira imagem de Hercule Poirot (que, por muito tempo, foi pra mim o "Pôirô") e a descoberta da palavra "ditafone" - uma que, certamente, nunca mais ouvi em minha vida.

domingo, 8 de março de 2009

A promessa do livreiro

A promessa do livreiro
John Dunning (Companhia das Letras, 2005)

Tinha um tronco de árvore no meio do caminho, meu pensamento vagava alegremente, não prestei atenção na calçada, tropecei e caí. E então descobri que nada como um tombo que avaria seu joelho e te obriga a passar o dia na cama, com a perna estendida, pra terminar rápido de ler um livro que caminhava a uma média de três páginas por dia - não por desinteresse, mas por falta de tempo e excesso de sono.

Foi a Cláudia, no comentário sobre a biografia de Richard Burton, quem me falou desse livro, o terceiro de uma série protagonizada por Cliff Janeway, um ex-detetive transformado em livreiro. A certa altura de 1987, parece que tudo acontece ao mesmo tempo na vida de Janeway: ele ganha uma bolada em dinheiro, reencontra um escritor pedante e um juiz boa praça, fica interessado em uma jovem advogada, compra uma edição rara de Burton, recebe a visita de uma velha senhora e conhece um casal pobre e simpático. Daí pra frente, alguém morre de morte morrida, outro alguém morre de morte matada, Janeway viaja a Baltimore, bate de frente com uma turma de bandidos valentões, segue para Charleston e por fim descobre uma parte desconhecida da vida de Burton.

Não falta ação. Não faltam personagens interessantes. O trecho em que John Dunning recria uma parte da viagem de Richard Burton pelo sul dos Estados Unidos é bacana. Mas faltou amarrar tudo de um jeito mais convincente, resolver os conflitos de uma maneira mais plausível. Tudo bem, é ficção. Mas Dunning vai muito bem até certo trecho e, então, derrapa. Mesmo assim - e isso não é pouca coisa -, fiquei com vontade de ler os outros Cliff Janeway. Quem sabe algum deles me deixe mais satisfeita.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Uma pequena morte em Lisboa

Uma pequena morte em Lisboa
Robert Wilson (Record, 2002)

Li assim que saiu - meu exemplar tem a data de 6/9/02 -, influenciada por algum comentário positivo no jornal. Adorei. Recomendei, dei de presente. Sempre que passava por ele na estante, pensava "um dia preciso reler", e vinha uma nostalgia do litoral de Portugal, que eu não conheço, e a lembrança de uma trama que, para explicar a "pequena morte em Lisboa", voltava no tempo até as conspirações nazistas e a ditadura de Salazar.

Mas ao pensar em escrever sobre o livro no blog, vi que me lembrava muito pouco de tudo. Voltei a ele, então, para uma leitura "na diagonal", expressa, lendo um trecho aqui e outro ali, pulando parágrafos e páginas inteiras, até que a história policial começasse a voltar à minha cabeça. E o que percebi dessa releitura me deixou um pouco triste. A trama é boa, sim. Envolvente, até o fim não dá pra entender o que os nazistas têm a ver com a morte de Catarina Oliveira. E a explicação convence, não faz uso de coincidências milagrosas como Os homens que não amavam as mulheres (ontem li uma resenha sobre o livro na Folha Online que parecia piada: ou o sujeito que a escreveu não leu o livro ou até hoje só leu péssimos romances policiais). O problema - e foi isso que me deixou triste - foi eu não lembrar de como o livro é pobrezinho em termos literários. Está cheio de clichês, de frases mal pensadas, de descrições horrendas e, vá lá, uma ou outra situação descabida. E aí eu volto à pergunta sem resposta: o sujeito é bom porque escreve bem ou porque conta uma boa história?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Os homens que não amavam as mulheres

Os homens que não amavam as mulheres
Stieg Larsson (Companhia das Letras, 2008)

Adoro histórias de mistério. Adoro Agatha Christie. Adoro Harry Potter. E quando esse livro ganhou matérias nos jornais com gente dizendo que era uma ótima novidade entre as histórias de mistério, "tão fácil quanto Agatha Christie", "um fenômeno como Harry Potter", e quando eu vi que a última capa trazia elogios do Garcia-Roza e do Calligaris, não resisti. Mas devia ter desconfiado: o filme do primeiro volume já foi finalizado e estréia ano que vem na Suécia. Além disso, a Companhia das Letras providenciou uma vistosa cinta dizendo que o livro vendeu não sei quantos milhões de exemplares na Suécia e sei lá mais onde; até aí, o Paulo Coelho e o Sidney Sheldon também vendem.

Talvez o livro fosse melhor se a) o falecido autor tivesse jogado fora umas 200 das 500 páginas que escreveu; b) se dedicasse apenas ao mistério em si, e não ao sub-enredo que fica pairando por ali e que se resolve no final de uma maneira incompreensível e inútil; c) o desfecho do mistério provocasse um mínimo de surpresa e "oh!" na gente. Li em alguma resenha que os personagens são bem construídos. Não concordo. Sobre as conquistas amorosas do mocinho, Mikael Blomkvist, não dá pra entender se têm importância ou não. A mocinha, Lisbeth Salander, é o clichê supremo do desajustado, cheia de tatuagens e piercings, roupa preta, casaco de couro e comportamento anti-social. Numa cena sem qualquer importância para a trama, ela é estuprada de maneira violenta. Lá pra frente, fica ridiculamente inverossímil quando se descobre apaixonada. Mas o pior de tudo são as grandes descobertas e deduções de Blomkvist e Salander, concebidas de um jeito tão forçado, mas tão forçado, que chegam a ofender qualquer leitor de Agatha Christie. E de Harry Potter.

sábado, 11 de outubro de 2008

Um caso para Miss Maple

Um caso para Miss Maple
Leonie Swann (Rocco, 2008)

Miss Marple, a velhinha detetive de Agatha Christie, serviu de inspiração - ao menos no nome - para uma outra investigadora perspicaz e inteligente nesse livro de estréia da alemã Swann. A fundamental diferença: Miss Maple não é uma simpática senhorinha às voltas com os habitantes de seu vilarejo, no interior da Inglaterra. É uma ovelha. Que, ao lado das colegas de rebanho, resolve investigar a morte de George, o pastor, encontrado no pasto com uma pá enfiada no corpo.

A Miss Maple juntam-se carneiros e ovelhas impagáveis, como Mopple the Whale, detentor de uma memória especial, o impertinente carneiro de inverno, a filosófica Zora e Otelo, o carneiro negro, quem mais entende de humanos por ali. Entende em termos: na verdade, eles não têm a menor idéia de como acontece a vida das pessoas, e suas deduções a partir do comportamento humano são responsáveis pelos momentos mais divertidos do livro. Um caso para Miss Maple não é exatamente um romance policial. Muito menos um livro engraçadíssimo. Mas está cheio daquele tipo de ironia inteligente que, no final, é o que faz a leitura valer a pena.

sábado, 4 de outubro de 2008

O caso dos dez negrinhos

O caso dos dez negrinhos
Agatha Christie (Globo, 2000)

O primeiro livro que eu li de Agatha Christie foi o surpreendente O assassinato de Roger Ackroyd. Mas o que mais medo me causou foi esse, O caso dos dez negrinhos, que li em uma edição do finado Círculo do Livro, uma capa dura cor-de-rosa forte, num formato menor do que o normal. Lembro dos arrepios que eu sentia à medida em que todos os convidados da ilha iam morrendo, até não restar mais ninguém e a gente saber que aquela última personagem não era culpada pelas outras mortes. Quem, então?

É por causa desse sentimento de angústia constante que, ao contrário de vários outros Agatha Christie, não releio esse livro com freqüência. Talvez, até, eu o tenha lido apenas uma ou duas vezes. Mesmo sabendo quem é o assassino, fala mais forte a sensação de solidão, frio e desconfiança naquela mansão ilhada. Brrrrrr.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O mistério dos sete relógios

O mistério dos sete relógios
Agatha Christie (Nova Fronteira, 2002)

Ontem eu percebi que tenho três relógios parados em casa (todos em torno das 11 horas. Bizarro). E aí me lembrei desse livro, um dos que mais gosto de Agatha Christie, e que começa não com três, mas com sete relógios enfileirados na cena de um crime - havia ainda um oitavo, que foi jogado com força para fora da janela. Por quê?

Engraçado, em nenhum dos meus Agatha Christie preferidos o mistério é solucionado por Hercule Poirot ou Miss Marple. São sempre detetives, digamos, improvisados. Está certo que, nesse caso, o trio formado por Bundle, Bill e Jimmy ganha uma mãozinha do "impassível" superintendente Battle, da Scotland Yard, um personagem bacana que aparece em poucas histórias de Christie. Junto, o trio vai passar um fim de semana numa mansão aristocrática, invade um lugar suspeito num bairro londrino mais suspeito ainda e se vê envolvido não só em assassinatos, mas no roubo de importantes documentos. E ainda tem uma pitada de romance pra incrementar a história.

domingo, 6 de julho de 2008

Seis problemas para dom Isidro Parodi / Duas fantasias memoráveis

Seis problemas para dom Isidro Parodi / Duas fantasias memoráveis
H. Bustos Domecq (Globo, 2008)

A capa do livro revela seus verdadeiros autores: Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, que nos anos 40 escreveram, a quatro mãos, algumas histórias assinadas com o pseudônimo de H. Bustos Domecq. E já que Domecq resultou em algo muito diferente das escritas de Borges e de Bioy Casares, nada mais justo que conceder ao livro sua real autoria - claro que, por razões mercadológicas, não é Domecq que aparece na capa...

Preciso admitir que não li as Duas fantasias memoráveis. Os Seis problemas... já haviam me cansado muito. Borges e Bioy - ou melhor, H.B.D. - não economizaram na verborragia de seus personagens, em discursos capazes de entediar até dom Isidro Parodi, feito presidiário por engano e alçado ao posto de detetive; que dirá o leitor. O melhor do livro, portanto, não está nele, e sim na idéia dele. Na possibilidade de dois amigos escreverem juntos da maneira que melhor lhes aprouvesse, sem qualquer compromisso estilístico, com a crítica, com ninguém. Eu quase consigo imaginar os dois sentados à mesa da fazenda de Bioy, rindo às gargalhadas com as private jokes que inseriram nas histórias. E quase consegui fazer isso uma vez, porque escrever em dupla algo um tanto nonsense e cheio de referências pessoais é um dos grandes sonhos que ainda mantenho. Encontrei meu Borges - porque eu sou muito mais Bioy -, mas assim como seu herói argentino, ele ficou cego antes do tempo.

domingo, 23 de dezembro de 2007

O buraco da agulha

O buraco da agulha
Ken Follett (Best Seller, 2007)
A pior coisa que pode acontecer a quem começa a ler um thriller é ficar sabendo sem querer como a história se resolve. E no caso de O buraco da agulha, um suspense editado na louvável coleção BestBolso (livros com preços bem mais baixos, lançada pela Best Seller), o vilão é... a própria editora: a quarta capa do livro entrega não só um importante relacionamento que surge no decorrer da trama como a fundamental perspicácia de um certo personagem. Basta ler pra adivinhar o final.

Não leia, pois, a quarta capa, se quiser acompanhar esse suspense bacaninha. Com falhas na trama e algumas situações muito inverossímeis, O buraco da agulha perde feio dos clássicos do gênero - até para Agatha Christie -, mas consegue prender a atenção do leitor ao contar a história de um espião alemão infiltrado na Inglaterra durante a Segunda Guerra. Para revelar um enorme segredo que os Aliados escondem de seu país, ele não hesita em matar, roubar e mentir.