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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Hotel stories

Hotel stories
Francisca Matteoli (Assouline, 2002)

A editora americana Assouline é quase uma prima da alemã Taschen: ambas publicam volumes artísticos, feitos do melhor papel disponível, com uma seleção de temas e um cuidado gráfico pouco vistos por aí. São livros geralmente caros - embora de vez em quando eu consiga encontrar algumas pechinchas, como essa, e já tenha ganhado de presente outras obras da Taschen- e há muitos exemplares feitos para colecionadores, com preços que passam fácil dos US$ 300 e chegam a mais de US$ 1000.

Por motivos profissionais - e um preço bem mais razoável -, comprei em Miami este Hotel stories, certa de que estava adquirindo um livro bonito para me distrair com as situações vividas por uma série de celebridades em hotéis famosos ao redor do mundo. Bem, o livro é bonito. E as histórias de gente como Truman Capote (e suas festas no Plaza de Nova York), Dorothy Parker (e a Round Table no Algonquin), Agatha Christie (e um mistério envolvendo o hotel Pera Palace, em Istambul), Marilyn Monroe e Yves Montand (e o caso que tiveram no Beverly Hills Hotel, em Los Angeles, durante as filmagens de Adorável pecadora) são mesmo deliciosas. Mas, desta vez, a tentativa artística da Assouline não deu muito certo - não, pelo menos, para mim. Talvez na intenção de deixar as páginas com cara de antigas, já que muitas têm fotos de época, a fonte tipográfica usada no livro tem umas falhas, propositais, que tornam a leitura cansativa. Também senti falta de legendas nas imagens, pra saber quem eram os retratados, que partes do hotel eram aquelas ou quando as fotos foram feitas. Vai pra conta da minha chatice.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Novel destinations

Novel destinations
Shannon McKenna Schmidt e Joni Rendon (National Geographic, 2009)

No dia em que eu tiver dinheiro suficiente e uma companhia que curta esse tipo de coisa, quero viajar pelos Estados Unidos só para ver as casas projetadas por Frank Lloyd Wright. Acho bacana inventar viagens temáticas. Se tiverem um pé na literatura, tanto melhor. É o que faz esse Novel destinations, um guia turístico que indica a casa e os museus dedicados a alguns autores (Shakespeare, Agatha Christie, Margareth Mitchell), relaciona os cemitérios onde vários estão enterrados (Père-Lachaise, Westminster Abbey, Panthéon), fala de walking tours (a Londres de Oscar Wilde, a Paris de Hemingway, a São Petesburgo de Dostoievski) e sugere roteiros para acompanhar os passos de tantos outros (Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Edith Wharton).

Cheguei à conclusão de que o que eu mais conheço são bares e restaurantes onde alguns escritores deixaram sua marca. Estive no El Floridita e na Bodeguita del Medio, em Havana (ambos ligados a Hemingway), almocei no La Coupole e no Café de Flore, em Paris (frequentados por gente como Sartre e Camus), e acho que comi a pior lasanha da minha vida no Museum Tavern, em Londres (onde esteve Sir Arthur Conan Doyle). Depois de ler Novel destinations, fiquei com vontade de seguir os passos de Kafka em Praga. Os de Louisa May Alcott em Concord, Massachussetts. Conhecer o castelo do Drácula, na Romênia, ver a casa da mulher que inspirou a Dulcineia do Dom Quixote, visitar o Château de Monte Cristo, na França...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Paris out of hand

Paris out of hand
Karen Elizabeth Gordon (Chronicle Books, 1996)

Comprei este livro numa loja americana que eu adoro, a Anthropologie, e que prima pelo bom gosto das coisas que vende: roupas, acessórios, objetos de decoração, utilidades domésticas e títulos belos e/ou divertidos que dificilmente teriam tanta visibilidade em livrarias comuns. Comprei porque adorei o projeto gráfico e as ilustrações - logo na página 3 há um ex-libris que mostra uma cabeça e, no lugar do cérebro, o mapa dos arrondissements de Paris.

De guia, mesmo, o livro não tem nada. Ou melhor: tem a forma, com divisão de capítulos em Hotéis, Vida Noturna, Restaurantes e Cafés, Atrações, Compras etc. O problema - ou melhor, a grande diversão - é que tudo é inventado. Nenhum hotel, bar, loja ou cinema descritos no guia existe de verdade. Como o Patte a la main, um restaurante para cachorros, e o Parc Chauve-Souris, um parque que só abre à noite e abriga principalmente morcegos. Eu adoraria ver a Eglise des marionettes, onde as marionetes vão para rezar, ou comprar algo na Folio a deux, que só vende coisas em dupla: duas cópias de um livro, obras bilíngues. Imagino que bonitinho: (...) Folio a deux does specialize in books that take on new meanings when read together, one of the endangered if not lost arts of love.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Guia gastronômico de Paris

Guia gastronômico de Paris
Patricia Wells (Ediouro, 1997)

Paris, outra vez, porque eu não vejo a hora de entrar naquele avião e passar uma semana comendo e bebendo sem culpa: pain au chocolat, baguete com camembert, cozinha de bistrô, vinho tinto, vinho tinto, vinho tinto. Não sei até que ponto as indicações deste guia de Patricia Wells (nem só da Provence vive minha autora culinária preferida) continuam válidas, porque o livro já tem mais de dez anos. De qualquer maneira, servem como uma excelente introdução ao tema "comida em Paris" - assim como Elisa Donel, Patricia fala dos queijos, pães, docinhos e restaurantes da cidade com muito conhecimento de causa.

Dureza é não saber onde guardar tanta informação, porque a memória é que não aguenta. Muito menos a mala e a bolsa que eu vou ter que carregar durante a viagem. Hoje um amigo meu aconselhou: "leve talheres para os piqueniques nos parques. E compre copos lá pra tomar vinho de um jeito decente no hotel." Não é má ideia. Isso eu consigo me lembrar. E como escolher entre tantas lojas de queijos, charcuterie, patisseries, boulangeries, onde comprar os ingredientes para o piquenique? Acho que vou ter de dar um jeito de contrabandear a Patricia na mala.

domingo, 10 de maio de 2009

Viajando pela Europa e pelo mundo

Viajando pela Europa e pelo mundo
José Cretella Jr. (Círculo do Livro, 1988)

Em setembro de 1988, quando comprei este livro (não achei a capa original para colocar aqui), eu nunca tinha nem andado de avião. Acho que só tinha saído do estado de São Paulo uma vez, para ir a Curitiba (as viagens que fiz pequenininha, com meus pais, não contam; eu era um bebê). E nunca, nunca poderia sonhar que um dia iria eu mesma escrever sobre turismo. Mas, de algum modo, "a mosca azul da viagem", como diz o professor José Cretella Jr. no começo de seu livro, já havia me picado. Eu guardava matérias sobre cidades interessantes, colecionava folhetos, lia o que pudesse sobre o assunto.

E, por isso, até hoje tenho um carinho enorme por esse livro, que me fez sonhar e me ajudou a planejar minha primeira viagem à Europa, em 1991. Ele só não foi comigo na mala porque eu já carregava um Frommer's gigantesco e perfeito pro espírito mochileiro: Europa a US$ 50 por dia. E também porque não é exatamente um guia, mas um apanhado de informações sobre lugares turísticos vistos pela perspectiva do autor. Hoje, percebo com facilidade alguns defeitos: a tradução de nomes próprios, diretrizes um pouco confusas, a narrativa um tanto empolada.

Mesmo assim, ainda sigo algumas dicas de José Cretella Jr. A de não aceitar encomendas em viagens, por exemplo. A de me informar ao máximo sobre o lugar que vou visitar (ele conta a história impagável de um turista que esperou Florença pela excursão inteira sem se ligar que, em italiano, o nome da cidade é Firenze). A de não visitar, em um dia, mais de um museu ou igreja. E a de fazer, de cada viagem, a minha viagem. Termino com a frase com que ele inicia o primeiro capítulo do livro: "Se me fosse possível desenhar um ex-libris, para pregá-lo nos livros da minha biblioteca, imaginaria um brejeiro diabinho, com o tridente, no qual estariam inscritas as palavras: amar, ler e viajar." Eu também.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

100 New Yorkers

100 New Yorkers
Julia Holmes (The Little Bookroom, 2004)

John Lennon. Georgia O'Keeffe. Frank Sinatra. Mark Twain. Cornelius Vanderbilt. Malcom X. Tito Puente. Diana Vreeland. Dorothy Parker. Elizabeth Bishop. Eles e outras noventa figuras ligadas às artes, à política, às finanças e aos esportes, novaiorquinos de nascimento ou por adoção, aparecem em minibiografias nesse livro que faz o favor de relacionar os endereços onde eles moraram, atuaram e, de alguma maneira, contribuíram para enriquecer o espírito de Nova York. Leitura obrigatória para quem ama a cidade, como eu - melhor ainda se houver uma viagem a caminho.

No breve período em que também eu fui uma novaiorquina, morei no apartamento térreo do 18 W 87th street - a dois ou três prédios de onde vivia Billie Holiday, segundo o Guia New York da Katia Zero. Era um orgulho engraçado, caminhar pelas mesmas calçadas onde a diva pisou. Tivesse eu o 100 New Yorkers naquela época, poderia ter seguido seus passos também no Lenox Lounge ou na esquina do West Village onde ficava o Café Society, lugar em que Billie cantou Strange fruit pela primeira vez. Eu gosto desse tipo de turismo diferente. E quando estiver novamente na cidade vou conhecer o Duke Ellington Memorial, que nem sabia existir na E 110th street, esquina com 5th Avenue.

domingo, 5 de abril de 2009

Viagem à província de São Paulo

Viagem à província de São Paulo
Auguste de Saint-Hilaire (Editora Itatiaia, 1976)

Se necessário, é perfeitamente possível, para mim, trabalhar em casa, já que uso um banco de dados com acesso pela internet. Isso é bacana nos dias em que estou escrevendo algum projeto ou texto mais longo, ou quando preciso de muita concentração. E não é bacana quando, por causa de prazos apertados, tenho que passar o sábado ou o domingo na frente do computador, editando texto atrás do texto, sem nem ver o tempo passar.

Foi o que aconteceu hoje. E, ao ler sobre algumas cidades do Vale do Paraíba durante o trabalho, acabei me lembrando desse livro de Saint-Hilaire, naturalista francês que esteve no Brasil no começo do século 19 e que, num feito espantoso para a época, viajou por Minas, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, foi à nascente do Rio São Francisco e percorreu o interior de São Paulo, tudo em cima de um lombo de burro - nem hoje, com avião, eu conheço tudo isso.

Uma das minhas estantes excêntricas diz respeito à história de São Paulo. O relato de Saint-Hilaire, a bem da verdade, é chatinho. Mas vale pelos detalhes que ele conta sobre o modo de vida na época - as relações familiares, os hábitos caseiros, o contato com estrangeiros, a dificuldade das viagens. Quando estive em Diamantina, comprei também o Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. Foi ótimo ler o que escreveu Saint-Hilaire sobre a cidade enquanto eu ainda estava lá.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

London Pocket Companion

London Pocket Companion
Jo Swinnerton (Pavilion, 2008)

Sugestões de hotéis, endereços de restaurantes, horários de museus e outras atrações da capital britânica - bem, esse guia não tem nada disso. Nem mesmo fala onde mora a rainha, ou como fazer para ver a troca da guarda. Mas junta um monte de informações, a maioria irrelevante e divertida, para os viajantes que prestam atenção em detalhes da cidade, e não apenas em seus principais pontos turísticos.

Um exemplo: o guia lista pubs peculiares - o The Mayflower, na Rotherhithe Street, é o único pub, na Inglaterra, que pode vender selos britânicos e americanos; o The Old Red Lion, em Holborn, já abrigou o corpo decapitado de Oliver Cromwell. Fala também de lugares "mal-assombrados", dos animais mais estranhos do zoológico, da origem do termo "cockney" e traz outras informações inúteis para o turista comum, mas valiosas para quem conhece ou quer conhecer melhor a trajetória da cidade, seus habitantes históricos e pontos famosos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Comer, rezar, amar

Comer, rezar, amar
Elizabeth Gilbert (Objetiva, 2008)

Ganhei esse livro de uma amiga que não poderia ser mais especial - porque gostamos uma da outra desde que começamos a trabalhar juntas, em 1995, porque depois ela se casou com meu irmão, porque ela é mãe da minha sobrinha e porque, no começo do ano passado, ela terminou correndo de ler esse livro no carro, a caminho do aeroporto, só pra poder me dar de presente. E, mesmo apressada, escreveu uma dedicatória linda.

Tentei começar a ler ainda no avião, antes que os tarja-preta me derrubassem; não deu tempo. Tentei ler assim que cheguei em casa; não rolou. Acho que o momento era errado. Eu estava triste e sem rumo demais pra encontrar conforto na história de uma mulher que, também triste e sem rumo demais, arrumou as malas e tirou um ano sabático pra viajar pelo mundo - eu não podia fazer aquilo e, de todo modo, duvido que tivesse adiantado; tudo o que eu queria era voltar pra casa, me encolher debaixo das cobertas e ficar quietinha no meu canto. Pouco depois o livro foi traduzido e lançado em português, e virou um desses fenômenos com jeito respeitável mas que, dá pra sacar, as pessoas leem como auto-ajuda. Ou melhor: como história edificante e inspiradora. Peguei birra. Uma pena, porque minha amiga não faz o gênero auto-ajuda e eu gostaria, sim, de ler a experiência de alguém nos lugares por onde Elizabeth Gilbert passou. Quem sabe um outro dia.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O mundo de Viagem e Turismo

O mundo de Viagem e Turismo
(Editora Abril, 2008)

Meu amigo diz que não viaja porque tem preguiça. Dá preguiça, mesmo. Fazer mala, enfrentar o aeroporto, a fila do check-in ou da PF, chegar cansado, descarregar tudo... Mas nem eu, que pago pra ficar encostada, deixo de viajar por causa disso - e volto sempre estourada de tanto andar pra cima e pra baixo, percorrer museus e lojinhas, mais magra de tanto caminhar. Pra quem precisa de inspiração, esse livro é um achado: traz uma bela foto e um texto superbásico sobre cada um dos 192 países membros da Onu.

2008 foi um ano de recolhimento - com exceção das duas primeiras semanas de janeiro, acho que não saí de São Paulo nenhuma vez. Gostaria que fosse diferente daqui em diante. Muitas viagens me esperam, por mais que, por enquanto, eu me arrisque apenas nas também importantes viagens verticais. Quero convencer alguém a partir comigo para um lugar bem bizarro, como a Capadócia ou a Islândia. A Ilha da Madeira. Zanzibar. Talvez ir a Belém para comer o tacacá da dona Maria. Desafiar os mosquitos e me hospedar num hotel de selva na Amazônia. Até que enfim conhecer Porto Alegre, de preferência durante a Feira do Livro. Aproveitar. E gastar minhas milhas para ir à Ilha de Páscoa (eu até já sei o que significa tingo), o lugar mais isolado do planeta. Como não querer conhecer o lugar mais isolado do planeta? Eu vou.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Inside Cuba

Inside Cuba
Julio César Pérez Hernández e Gianni Basso (Taschen, 2006)

Ele parafraseou Hemingway e Bogart ao mesmo tempo na dedicatória que escreveu pra mim: "Nuestros daiquiris en la Floridita, nuestros mojitos en la Bodeguita... We will always have Habana." Bem, we won't have Havana anymore, mas eu espero ter sempre esse livro por perto para, ao lado das minhas fotos, me lembrar de tudo o que vi de bacana (e nem tanto) em Cuba. Ou ver o país de outros ângulos, já que não sou boa fotógrafa e que em muitos lugares onde estive era proibido fotografar.

Mas está lá o Palácio Brunet, em Trinidad, onde funciona o Museo Romántico - um dos poucos museus em que pagamos para poder tirar fotos; a bateria da minha máquina acabou depois do segundo clique e a dele simplesmente pifou. E o Hotel Nacional, em Havana, onde tomamos o primeiro de uma série quase vergonhosa de mojitos em Cuba. A sorveteria Coppelia, parecida com um disco voador, onde só conseguimos tomar um helado de morango quando entendemos que havia uma fila para turistas e outra para cubanos. O lugar mais quente do mundo: a Real Fábrica de Tabacos Partagás. Os dois melhores jantares da viagem: no Paladar La Guarida, num cortiço de Centro Habana. Sinto por não aparecer no livro o Edifício Bacardi, tão belo e inacessível.

Uma curiosidade: essa minha edição é trilíngüe, em espanhol, italiano e português. Mas o olho que segue o nome de cada lugar retratado aparece... em inglês. Hotel Habana Riviera - The empire of the Mafia in Cuba. Weird.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Fazendo as malas

Fazendo as malas
Danuza Leão (Companhia das Letras, 2008)

É pra ler de uma tacada, de preferência no intervalo entre dois livros mais densos; nada como crônicas leves, divertidas e alto-astral para zerar o cérebro. Melhor ainda, como é o caso, quando o prazer da leitura dá vontade de fazer uma loucura, empacotar tudo e embarcar no primeiro avião - sorte de quem pode sair por aí como Danuza, com liberdade, independência e conhecimento sobre os lugares que vai visitar.

O ideal seria mesmo ter dinheiro suficiente e passar no crivo de Danuza para poder viajar com ela a seus lugares preferidos. Curtir a Feria de Sevilha, hospedar-se na rua de Lisboa onde, segundo Eça, ficava O Ramalhete, de Os Maias, conhecer o hotelzinho onde ela se hospeda há vinte anos em Paris (e bater perna para conhecer seus estilistas japoneses preferidos), pegar carona no carrinho de Luciano para jantar com eles e ver Roma à noite. Ok, Danuza parece inacessível. Mas com grana no bolso e uma companhia que pareça tão divertida quanto ela, Sevilha, Lisboa, Paris e Roma, aqui vou eu.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Assombrações do Recife Velho

Assombrações do Recife Velho
Gilberto Freyre (Topbooks, 2001)

O motorista de táxi, em Recife, queria me cobrar 100 reais só pra me levar à oficina de Francisco Brennand - dali seria outro táxi até a Fundação Gilberto Freye e mais sei lá quanto para voltar a Boa Viagem. Não fui. Sim, bate um certo arrependimento, mas 100 reais numa só corrida de táxi, em 2002, doía ainda mais do que hoje, e eu não tinha ninguém com quem dividir a viagem. Paciência.

Mas eu não me conformava em sair do Recife sem trazer alguma coisa de Gilberto Freyre, mesmo que não fossem as fotos que eu pretendia tirar em sua antiga residência de Apipucos. Por isso fiquei feliz da vida quando encontrei, na Casa da Cultura, uma livraria bagunçada que vendia edições da Fundação e outros títulos de Freyre, como esse então novinho relançamento. Que vontade de poder encontrar, no Recife de hoje, as ruas, casas, fantasmas e aparições que o velhinho reuniu nesse livro: o sobrado da Estrela, a casa da esquina do Beco do Marisco, o sobrado das três mortes, a casa da Imbiribeira... Outro dia eu li um guia de Londres que sugere uma série de roteiros, digamos, macabros na cidade. Será que ninguém se anima a fazer o mesmo com as assombrações de Gilberto Freyre?

sábado, 19 de julho de 2008

Fifty great escapes

Fifty great escapes
Jonathan Lee (Prestel, 2006)

Todo mundo tem o sonho secreto de um dia largar tudo, ir pra algum lugar mágico e lá, somente lá, dedicar-se à verdadeira vocação de sua vida: pintar, cozinhar, apenas ler, meditar, abrir um antiquário, qualquer coisa. Eu adoraria me retirar pra escrever, em Ilhabela, em Diamantina, numa casa em meio a um bosque perto de Maldonado, no Uruguai. Jonathan Lee reuniu 50 histórias parecidas com esse desejo de cada um. A diferença é que nem sempre ele mostra o lugar para onde um artista - pintor, escultor, fotógrafo, escritor, músico - fugiu. Mostra também os lugares onde eles se inspiraram.

Estão lá a Inglaterra de sir Arthur Conan Doyle, a África de Joseph Conrad, a Itália de Da Vinci, a França de Robert Capa, os Estados Unidos de Pollock, o Nepal de Aleister Crowley, um picareta ligado ao ocultismo e muito admirado por Paulo Coelho. A mim, o que encanta são os lugares de epifania, o ambiente que despertou neste ou naquele artista a habilidade de criar. Mas sem talento, ainda que para a picaretagem, nem uma casinha no meio do bosque de Maldonado pode ajudar.

Viagem gastronômica através do Brasil

Viagem gastronômica através do Brasil
Caloca Fernandes (Senac São Paulo, 2005)

Eu já devo ter escrito aqui em algum lugar que leio receitas culinárias como se fossem literatura. Gosto do muito do estilo e da história de alguns autores - Patricia Wells em primeiro lugar, Paula Wolfert, Jamie Oliver, Nigella Lawson, Marcella Hazan (engraçado, a única brasileira que me veio à mente foi Heloisa Bacellar, do ótimo Cozinhando para amigos, que fica para uma outra ocasião). Portanto, não tenho como não gostar de um livro que combina tradições locais do Brasil, receitas, personagens e belas fotos.

Caloca Fernandes saiu pelo país procurando pratos típicos, gente que ajuda a manter tradições locais, ingredientes às vezes desconhecidos nas grandes cidades. É bacana abrir o livro e encontrar lá o Faustino, do Cantinho do Faustino, em Fortaleza (um dos melhores lugares em que já comi; jantar e almoço inesquecíveis com dois amigos, em 2002), e Beto Pimentel, do Paraíso Tropical, em Salvador (ele é bem chato, do tipo que senta pra conversar com os clientes e não levanta nunca mais, mas seu dandá de camarão impõe respeito). E tem receita de efó, que eu adoro, mas que não consigo fazer porque não sei onde encontrar taioba, e do super-engordativo bolo Souza Leão, e de queijo minas, feijoada, pastel de feira. Antes de tudo, a história com H maiúsculo da cozinha no Brasil, mas essa também rende outro post, e mais específico.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Viaje na viagem

Viaje na viagem
Ricardo Freire (Mandarim, 2000)

Se alguém me pergunta que livro eu gostaria de ter escrito, eu respondo logo dois: Histórias de cronópios e de famas ou Reinações de Narizinho. Mentira. Eu queria mesmo era ter escrito Viaje na viagem, o sensacional e infelizmente esgotado primeiro livro de Ricardo Freire. Ex-publicitário ("não é assim uma Brastemp" te diz alguma coisa?), viajante profissional e atual blogueiro, Riq escreveu o guia de todos os guias sem dar nenhuma informação básica pro turista - onde ficar, onde comer, o que ver, etc.

Como indica o bem humorado subtítulo, trata-se, sim, de um livro de auto-ajuda para turistas. Com a experiência de quem já rodou o mundo e esteve até na Cochinchina, Freire orienta os leitores sobre que tipo de viagem combina mais com cada perfil, dá sugestões de itinerários malucos e/ou de sonho, publica um glossário de destinos e ensina como pesquisar tudo pela internet - com a ressalva de que, como o livro é de 1998, as dicas estão quase dez anos atrasadas; mesmo assim, são um excelente ponto de partida. Para acompanhar os posts do blogueiro, acesse viajeaqui.com.br.

domingo, 25 de novembro de 2007

Guia New York

Guia New York
Katia Zero (Makron, 1997)

O tempo é o maior inimigo de um guia turístico - mas esse, mesmo com dez anos de vida, continua a ser um excelente companheiro para quem vai a Nova York. É porque o melhor do guia não está em seus endereços - para tê-los atualizados, você pode comprar qualquer Lonely Planet ou consultar o Cityguide online -, mas nas deliciosas histórias que Katia Zero conta a respeito dos principais pontos turísticos e outros nem tanto da cidade. Só quem, como a autora, mora há décadas em NY, e sente por ela uma curiosidade infinita, consegue escrever com tanto charme e bom humor.

A graça começa, literalmente, no começo: uma seção que diz que "o melhor de Nova York é grátis ou custa menos de US$ 10" abre o livro. E segue pela descrição muito bem sacada de bairros, casas, museus, lojas, hotéis e restaurantes, tudo entremeado de comentários a respeito de quem fez o quê, quem viveu onde, que milionário construiu qual mansão, qual é o creme para o corpo que as estrelas de cinema usam - e onde comprá-lo. Não é só um guia prático; é um guia cultural, de estilo e de comportamento. Com o dólar cada vez mais acessível, está na hora de alguma editora reeditá-lo.

domingo, 18 de novembro de 2007

De moto pela América do Sul

De moto pela América do Sul
Ernesto Che Guevara (Sá Editora, 2001)

Antes de se tornar o revolucionário aliado de Fidel Castro, em Cuba, o médico argentino Ernesto "Che" Guevara percorreu a América Latina, de moto, com seu amigo Alberto Granado - e a aventura dos dois está relatada neste livro, em forma de diário. Em 2004, a obra serviu como base para Walter Salles filmar Diários de motocicleta, com Gael Garcia Bernal no papel de Che. Apesar de ser um bom filme, porém, o livro é infinitamente mais divertido e esclarecedor, como quase sempre acontece com obras literárias que acabam ganhando versões para as telas.

Não fossem ambos figuras conhecidas, de existência comprovada, daria pra pensar que alguém inventou várias das histórias, de tão emocionantes e engraçadas são algumas situações. Mas há comprovação, também, de que eles realmente partiram no lombo de uma moto - e que a certa altura ela quebrou no meio do caminho, obrigando a dupla a pegar carona, viajar de barco e dormir em lugares improváveis até chegar a uma colônia de leprosos, no Peru, onde ambos passaram um bom tempo exercendo a medicina. Che Guevara é a epítome da figura polêmica: de guerrilheiro subversivo, virou ícone da contracultura; de repressor, virou símbolo da luta pela liberdade. Não dá pra ficar indiferente a ele. E por isso mesmo é muito bacana ler sobre uma época de sua vida anterior a tudo o que ele veio a representar depois.