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domingo, 18 de julho de 2010

O mistério do leão rampante

O mistério do leão rampante
Rodrigo Lacerda (Ateliê Editorial, 2005)

Tem uma coisa que me deixa com muita raiva: livro que termina antes de chegar ao final. Esta edição de O mistério do leão rampante tem 160 páginas - mas a história acaba na 107. É que, ao publicar um volume comemorativo pelos dez anos da obra, a editora incluiu nele um texto chamado Confissões de Fabrius Moore, continuação da trama original. Sem nenhum aviso na capa. Tá certo que sou responsável pela frustração de chegar ao fim da história sem chegar ao fim do livro: não vi, na folha de rosto nem no sumário, que o Confissões... também fazia parte da edição. Mas não costumo ler folha de rosto. Nem sumário.

Tinha vontade de ler O mistério... desde seu lançamento, em 1995, mas, por um motivo ou por outro, não li, o tempo passou e nunca mais encontrei a obra nas lojas. Então fiquei feliz em comprar (por menos da metade do preço, na feirinha da FFCLH, ano passado) esta edição elegante, capa dura, com ilustrações de Negreiros. Os livros têm, para mim, enorme apelo táctil e visual - que acaba sendo inócuo se o que vem dentro não for bacana e bem-escrito. Pois gostei, tanto da história cômica e meio nonsense quanto da narrativa irônica, que dá voz a Valfredo Margarelon. Filho adotivo do Conde de Shropshire, ele vem a público, em 1602, para defender sua prima Maria Margarelon da calúnia a ela imposta por "três elementos nocivos à ordem e aos bons costumes do reino inglês" (um deles, um tal de Guilherme Shakespeare). Mas o comportamento da prima, segundo Valfredo, teve razão de ser: sonhos constantes com o tal leão do título, que levaram a moça primeiro a um estado de apatia profunda e, depois, de amalucada obsessão.

domingo, 11 de julho de 2010

Elza, a garota

Elza, a garota
Sérgio Rodrigues (Nova Fronteira, 2009)

Narrar de forma interessante uma história quase desconhecida e tão mal-contada pelas fontes oficiais não é tarefa fácil. Pra começar, quase não há assunto: Elvira Cupello Calônio, a Elza do título, teve uma vida curta e desprovida de grandes emoções, a não ser pelo fim violento. Foi do interior de São Paulo para o Rio de Janeiro, apaixonou-se, levou uma vidinha comum e passou uns dias na prisão por causa de seu namorado, capturado pela polícia de Getúlio Vargas depois da Intentona Comunista de 1935. Solta pelas autoridades, buscou abrigo na casa de amigos. E morreu assassinada, aos 21 anos - ou seriam 16? -, tida como traidora da causa revolucionária.

Se a trama parece familiar, é porque guarda algumas semelhanças com a de outra figura histórica, essa tratada em best-seller, e fruto da mesma época: Olga Benário. Olga, mulher de Luiz Carlos Prestes, atuava no Partido Comunista soviético e, depois de presa, foi mandada para a morte, na Alemanha nazista, pelo governo brasileiro. Elza era amante de Miranda, secretário-geral do PC no Brasil, e uma série de suposições feitas por membros do partido no Rio de Janeiro - Prestes inclusive - levou a seu assassinato, cometido pelas mesmas pessoas em quem confiou quando saiu da prisão, no começo de 1936.

Sérgio Rodrigues usou de um expediente engenhoso para contar a vida de Elza: dividiu a trama em duas narrativas, uma real e outra fictícia. Na real, que aparece no começo de cada capítulo, conta de sua pesquisa em busca de informações sobre Elza, transcreve trechos do processo que condenou os assassinos, reproduz partes da correspondência de figuras-chave para o caso, como o próprio Luiz Carlos Prestes. A fictícia também trata da História, agora em maiúsculas, ao colocar em cena um velho doente que recorre a um jornalista para escrever suas memórias. Testemunha da revolução frustrada de 1935, Xerxes conta a Molina como conheceu Elza, fala de sua participação numa passeata contra os integralistas e vai alinhavando os acontecimentos da época numa fala quase sempre nítida em detalhes. Assim como Molina, eu também me encantei pelo assunto. E, com este livro, aprendi mais sobre o passado revolucionário do país do que me deixam lembrar as aulas de História.

domingo, 20 de junho de 2010

Solar

Solar
Ian McEwan (Jonathan Cape, 2010)

Tenho muita raiva de mim mesma quando começo a ler qualquer coisa sobre alguma obra que está na minha fila de leituras. Eu já sabia que compraria o novo McEwan, qualquer que fosse o assunto - por que, então, conferir o que foi escrito sobre ele no lançamento britânico, no lançamento americano? Pior: até consegui passar batido sobre as críticas, mas não resisti a uma sinopse. E, por causa dela, coloquei o peso de Solar num acontecimento que até tem importância para a trama, mas que não é, nem de longe (como eu imaginava), o fio condutor da história. Paciência, azar. Quem sabe agora eu aprendo.

Comecei a ler Solar num fim de semana de trabalho em São Roque, continuei em Miami e terminei aqui em São Paulo, em meio a uma agenda de compromissos muito apertada e ao tratamento para uma infecção no dente que me faz sentir muita dor e tomar tanto analgésico que faria inveja ao Doutor House. Escrevo tudo isso pra tentar entender por que eu não me apaixonei pelo livro - desde Reparação, eu meio que me sinto obrigada a me apaixonar por qualquer McEwan -, embora reconheça nele a prosa sensacional do escritor e tenha dado muita risada em alguns momentos de ironia inteligente e intensa.

O livro vale principalmente por Michael Beard, o personagem principal, um sujeito detestável que vive das honras amealhadas por um prêmio Nobel de Física, conquistado algumas décadas atrás. No ano 2000, Beard está às voltas com o fim de seu quinto casamento, um emprego conveniente e inócuo e a ameaça do aquecimento global. Mas falar mais é fazer como a sinopse que eu li, e tirar a graça da história.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sobrescritos

Sobrescritos
Sérgio Rodrigues (Arquipélago, 2010)

Eu já conhecia a maioria dos Sobrescritos de Sérgio Rodrigues porque sou leitora fanática de seu blog sobre literatura, o Todoprosa, e foi lá que ele começou a publicar essas histórias curtas que falam de "escritores, excretores e outros insensatos", como diz o subtítulo do livro. E gostei ainda mais de ler os textos no papel.

Começa com meu preferido, "A blogueira e o estruturalista", emenda com outro que adoro, "Uma ilha, um livro", e segue até chegar a personagens como os escritores Jerominho, Lúcio Nareba (um blogueiro imbecil, protagonista de dois contos), João Pontes (fascinado por uma mulher gorda), Demóstenes Bastião (escritor em preto-e-branco, que depois aparece em uma carta ao bisneto) - muitos deles representantes dessa nossa época literária em que escrever bem nem sempre é o mais importante. Poderia ser triste. Mas, nas palavras de Sérgio Rodrigues, fica tudo muito divertido.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Doutor Pasavento

Doutor Pasavento
Enrique Vila-Matas (CosacNaify, 2010)

Só existe um homem no mundo, e ele não faz mais parte da minha vida, capaz de entender a idolatria que mantenho por Enrique Vila-Matas. Era meu duplo. Não sinto exatamente saudade - encontrar o duplo pode trazer muita alegria e muito infortúnio, como disse hoje uma amiga -, mas de vez em quando o vazio se manifesta de maneira mais forte por eu saber que não existe mais ninguém com quem conversar sobre, por exemplo, Doutor Pasavento; não, pelo menos, do jeito como eu conversava com ele.

"Possibilidades" era nossa palavra favorita - assim mesmo, no plural. E, neste livro, Vila-Matas trata de uma possibilidade que me é particularmente sedutora: a de desaparecer. Que não é morrer, mas desaparecer apenas, sumir no mundo, fugir da própria insignificância para saber se alguém dá pela falta da gente. Agatha Christie fez isso, como lembra o Doutor Pasavento no livro. (Sim, deram pela falta dela.)

Como todos os meus Vila-Matas, este também está todo marcado, com períodos inteiros sublinhados a lápis, anotações nas margens - será que, daqui a um tempo, vou me lembrar o que quis dizer com cada comentário? Acredito que sim. Diz a crítica que Vila-Matas é um "escritor de escritores" e, embora eu esteja longe de praticar o ofício, o tema é importantíssimo para mim. Falar da escrita, pensar sobre a escrita, tentar viver a escrita. Desaparecer para escrever e escrever para desaparecer.

domingo, 28 de março de 2010

Uma real leitora

Uma real leitora
Alan Bennett (Record, 2008)

Livrinho divertido e descompromissado, que li em dois dias, nas férias. A história começa quando a rainha da Inglaterra - a própria, Elizabeth II - é atraída para uma biblioteca ambulante por seus cães de caça. Lá, conhece o bibliotecário e um funcionário gay do palácio (que, aliás, não tem a menor necessidade de ser gay; isso não influencia em nada a trama; ou será que minha memória já se deteriorou de vez?). Para não criar constrangimento, resolve levar um livro emprestado. E gosta da experiência da leitura, capaz de distrai-la um pouco dos chatos assuntos de Estado.

Mas seu interesse crescente pelos livros começa a provocar mudanças nem sempre desejáveis - o tal funcionário gay é promovido a uma espécie de assistente, por exemplo, e cria-se uma expectativa geral, no reino, para saber o que Elizabeth anda lendo. Até que o secretário particular da rainha (ou seria o Primeiro Ministro?) se vê obrigado a interferir.

É bacana ver que Alan Bennett não se deixou levar pela fórmula fácil e edificante da redenção. Imaginou uma história improvável e contou-a da melhor maneira - com vários momentos de ironia inteligente, o que já é suficiente pra eu gostar de alguma coisa. Fim de papo.

Alice no país das maravilhas

Alice no país das maravilhas
Lewis Carroll (CosacNaify, 2009)

Muitos anos atrás, tentei ler Alice no país das maravilhas no original, em inglês - era um pocket book que incluia, também, Alice através do espelho. Devo ter deixado o livro de lado depois da terceira página, vítima da mesma incompetência mental que, até hoje, me impede de ler Guimarães Rosa. O inglês de Lewis Carroll é cheio de neologismos e nomes que eu não entendia, e que somem e aparecem e somem e aparecem como os próprios personagens. O melhor que fiz, portanto, foi retomar Alice nesta tradução de Nicolau Sevcenko, lançada ano passado pela CosacNaify numa edição linda, em que as ilustrações de Luiz Zerbini - figuras saídas das cartas do baralho - valem quase tanto quanto o texto.

A história, todo mundo conhece por causa do desenho animado de Walt Disney - que espero rever, em breve, para poder comparar com o livro, pois algumas de minhas lembranças não fazem parte da tradução de Sevcenko. Uma delas é a festa de desaniversário, quando Alice conhece a Lebre e o Chapeleiro; na edição da CosacNaify, os dois estão apenas tomando chá, sem comemorar coisa alguma, mas trata-se de reunião das mais divertidas, que inclui, ainda, uma marmota: cada um mais louco do que o outro, falando coisas que quase nunca fazem sentido (mas que fazem pensar).

Gostaria de rever o filme, também, para saber até que ponto a trama foi infantilizada. Ok, é conhecida a história de que Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Dodgson) escreveu Alice para a filha de um amigo, durante um passeio de barco. Mas, por mais inteligentes que fossem as garotas vitorianas (no posfácio, Sevcenko faz uma boa análise da importância da obra para a época em que foi lançada), tudo é tão pioneiramente surrealista que eu sinceramente não sei até que ponto as crianças conseguem apreender tudo aquilo - mas talvez eu não tenha contato suficiente com elas para saber do que são capazes. Para mim, de qualquer forma, Alice no país das maravilhas será sempre o mais adulto dos livros infantis.

sábado, 20 de março de 2010

La reina Mab

La reina Mab
Ruth Kaufman e Cristian Turdera (Pequeño editor, 2007)

Foi com Monteiro Lobato, só não me lembro em qual livro de sua coleção infantil, que conheci a história da rainha Mab, uma pequena criatura fantástica que aparece no primeiro ato de Romeu e Julieta, de Shakespeare. (Acho que é Mercúcio quem diz a Romeu algo como "ah, vejo que a rainha Mab o visitou em sonhos essa noite.")

Pois alguém teve a brilhante ideia de juntar uma escritora e um ilustrador muito bom para transformar a história da rainha em obra para crianças - e para adultos que, como eu, gostam de livros belos, não importa para quem foram feitos. Não se trata de uma tradução dos versos de Shakespeare, o que é outra boa sacada, e sim de um texto leve que começa contando como foi fabricada a carruagem da rainha (casca de avelã, teias de aranha) e avança até as aventuras noturnas de Mab, capaz de provocar sonhos de amor ao passar pelo cérebro dos enamorados, delírios de luta ao roçar o pescoço de um soldado, beijos amorosos ao galopar pelos lábios das garotas.

Só não entendi - meu conhecimento de Shakespeare está longe de ser significativo - o motivo do livro ter um subtítulo meio sombrio: "El hada de las pesadillas". Sim, lembro de Monteiro Lobato ter contado que Mab às vezes chicoteia sem dó algumas pessoas que visita à noite, mas para mim a pequena rainha está mais para fada dos sonhos do que dos pesadelos.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Wash this blood clean from my hands

Wash this blood clean from my hands
Fred Vargas (Penguin USA, 2007)

A francesa Fred Vargas inaugurou a série de romances policiais vivida pelo detetive Jean-Baptiste Adamsberg com O homem dos círculos azuis. Depois, vieram O homem do avesso, a graphic novel Les quatre fleuves, Fuja logo e demore para voltar, a coleção de três novelas Coule la Seine, Sous les vents de Neptune (este Wash this blood clean from my hands, em inglês), Relíquias sagradas e Un lieu incertain. Não sei o que levou a Companhia das Letras a lançar os quatro títulos, em português, fora da ordem cronológica. Mas deve ter sido um motivo e tanto, porque poucas coisas são tão importantes a ponto de estragar a surpresa de uma história de detetives - é o que acontece com quem lê Relíquias... antes de Wash this blood..., como eu.

Ok: mesmo fazendo várias referências ao livro anterior, Relíquias... não entrega totalmente o jogo. Mas acaba com duas dúvidas fundamentais que surgem durante a narrativa de Wash this blood..., principalmente no final, porque a gente já sabe quem é mocinho e quem é bandido, quem é pai de quem, quem salva quem e onde (embora o salvamento seja espetacular).

Acontece que Jean-Baptiste Adamsberg tem um passado tumultuado. Foi envolvido num crime acontecido há mais de trinta anos e nunca se livrou da obsessão de pegar o assassino, o Netuno (ou Tridente) do título francês. E, mesmo sabendo que o sujeito morreu há mais de uma década, meu detetive preferido põe em dúvida a própria sanidade mental quando crimes semelhantes aos que o bandido praticava começam a aparecer aqui e ali - até mesmo no Canadá, onde seu time de detetives passa por um treinamento de quinze dias. Não estraga dizer que Camille está em Montreal. Que Adamsberg continua quase um porco chauvinista (mas um adorável porco chauvinista). Que uma das melhores personagens do livro é também uma das mais improváveis. E que, como em todo romance de Fred Vargas que eu li até hoje, é preciso suprimir um pouco do amor pela credibilidade para sair do livro feliz.

domingo, 14 de março de 2010

O último caso da colecionadora de livros

O último caso da colecionadora de livros
John Dunning (Companhia das Letras, 2009)

"Só o Kindle salva", pensei, ao saber que teria de ficar uma semana sem carregar peso, digitar e fazer movimentos bruscos com o braço direito, por causa de uma cirurgia. Foi tudo bem - e o Kindle realmente salvou, tão fácil que é de ler só apertando os botõezinhos com a mão esquerda. Mas eu imaginava que, com sete dias inteirinhos sem poder fazer absolutamente nada, a não ser ler e ver TV, eu devoraria três, quatro títulos em uma tacada, e acabei empacando neste aqui.

Foi meu terceiro romance com Cliff Janeway desde que descobri o detetive em A promessa do livreiro - nas férias, havia lido também Assinaturas e assassinatos (outra vez no Kindle, outra vez em inglês: The sign of the book). E foi o que menos gostei. Começa bem, termina relativamente bem, mas a maior parte da trama é muito cansativa: uma repetição sem fim de situações, algumas até inverossímeis, no chato ambiente das corridas de cavalos.

Janeway é chamado por um sujeito antipático e misterioso para avaliar a coleção de livros de um velhote que acabou de morrer. Não aceita. Mas acaba envolvido na história ao ver antigas fotografias e conhecer a filha do falecido.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sala dos homicídios

Sala dos homicídios
P.D. James (Companhia das Letras, 2004)

O nome em português não ajuda muito - "Murder Room", o título original, não só é mais sonoro como direciona toda a trama para um lugar crucial, a sala dedicada a vários crimes famosos do período entre-guerras, instalada num museu próximo a Londres. Bem, o Museu Dupayne não existe de verdade, como explica P.D. James no prefácio. Mas todos os assassinatos explorados no "murder room" aconteceram realmente e estão registrados na Scotland Yard. É para lá, desta vez, que se dirige a investigação de Adam Dalgliesh, o detetive-poeta que, como eu já disse, só não roubou meu coração porque já sou apaixonada por Jean-Baptiste Adamsberg.

Gostei bem mais deste livro do que de Paciente particular, o mais recente título de P.D. James e minha estreia na obra da escritora. Primeiro porque Dalgliesh parece mais humano e simpático. Depois, a trama de mistério me agradou mais: começa com um incêndio criminoso, segue com uma série de interrogatórios que coloca todos os suspeitos sob a luz negativa da antipatia, não dá uma palhinha de quem pode ter cometido os assassinatos (ou melhor, até dá; mas esse é o tipo de leitura rápida em que a gente não presta muita atenção quando lê, mesmo) e traz aquele tipo de suspense que me faz prender a respiração e pensar coisas como "não, P.D. James, você não seria capaz de matar meu personagem favorito, seria?" - e como você sabe que sim, ela seria, fica na maior torcida pra alguma coisa acontecer na última hora e salvar seu personagem favorito de um triste fim.

Mas realmente não é uma boa ideia começar a ler as aventuras de Adam Dalgliesh de trás para frente. Paciente particular, o mais recente, é o 14º da série; Sala dos homicídios é o 12º. Só que agora resolvi ler policiais no Kindle, porque fica muito mais barato e não ocupa espaço aqui em casa, e nem tudo está disponível para o formato. Bem, A certain justice, o 10º, está. Vai ver é assim que eu preciso ler P.D. James, de dois em dois livros, do fim para o começo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Invisible

Invisible
Paul Auster (Henry Holt, 2009)

James Wood, o crítico da revista New Yorker, desceu a lenha não só neste livro, mas em quase toda a obra de Paul Auster, dizendo que ele é um tipo peculiar de escritor pós-moderno. Bem, meu conhecimento literário não deve atingir nem 1% do conhecimento de James Wood - afinal, ele é crítico da New Yorker e eu não sou. Escrevo apenas sobre o que gostei ou não de ler, e quase nunca existe uma teoria, muito menos acadêmica, por trás dos meus gostos. Eu nunca havia pensado em Paul Auster como escritor pós-moderno. Eu nem sei o que é um escritor pós-moderno.

E gostei, muito, de Invisible, recém-lançado nos Estados Unidos. Como quase sempre, em Paul Auster, gostei menos pela história e muito mais pela narrativa, pela maneira como ele escreve - o segundo capítulo do livro de Adam Walker, um dos personagens-narradores, é um exemplo de como tratar um tema dificílimo com rara delicadeza e elegância (até o James Wood admitiu isso: "quite touching"). Mas admito que os leitores habituais de Auster vão reconhecer, em Invisible, diversos artifícios usados em livros anteriores, como o duplo e o livro-dentro-do-livro (dois temas que me atraem demais), e que tantos outros podem ficar irritados com as ambiguidades e incertezas da trama.

Na primavera de 1967, em Nova York, o jovem estudante Adam Walker conhece o professor francês Rudolf Born e sua namorada, Margot, numa festa. Born quer fundar, com Walker, uma revista literária. Margot quer levá-lo para a cama. Aí acontece uma briga. E um crime. E, de repente, a coisa toda muda de figura - porque nem tudo, nos romances de Paul Auster, é o que parece ser.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Coelho corre

Coelho corre
John Updike (Companhia das Letras, 1992)

Foi minha estreia no Kindle - porque eu queria começar Updike pelo primeiro volume da série Coelho, porque a edição em português está esgotada e porque, quando posso, prefiro ler no original, em inglês. Gostei muito, muitíssimo - e, mais de uma semana depois de terminada a leitura, ainda me pego pensando em várias cenas da história, na maneira elegante como John Updike escreveu esse livro, no meu sentimento, às vezes contraditório, em relação aos personagens.

Eu gosto de Harry "Rabbit" Angstrom? Sem dúvida, e, com o tempo, pretendo continuar a seguir suas andanças pelos três outros livros da série. Torci por ele o tempo todo, senti dó de sua ingenuidade alegre e fiquei com muita, muita raiva no momento em que sua infantilidade atingiu um grau que eu não imaginava poder alcançar. Depois de apenas dois daiquiris, Harry foi imaturo, cruel, egoísta. Senti vergonha por ele - e não é disso que são feitos os grandes personagens?

Também gosto muito de Jack Eccles, de suas conversas com Rabbit, sua dedicação ao trabalho na igreja (embora um pouco intrusiva demais para o meu gosto, mas sabe-se lá como eram as coisas em fins dos anos 50 numa cidadezinha dos Estados Unidos; sabe-se lá como são, hoje, em outras cidadezinhas provincianas espalhadas pelo mundo). Foram as mulheres, em Coelho corre, que me deixaram com os dois pés atrás. Não dá pra respeitar Janice, muito menos sua mãe. Mrs. Angstrom tem mais pulso. Ruth talvez seja quem eu entenda melhor, pelo medo de se dedicar a um relacionamento de verdade, pela tentativa de mostrar independência para, no fim das contas, se deixar submeter. E Lucy Eccles, a única mulher da história que eu gostaria, mesmo, de conhecer mais nos três livros restantes sobre Rabbit.

O início da trama, em resumo: Harry Angstrom um dia volta para casa e encontra o cenário desolador de sempre - mulher bêbada vendo TV, o apartamento desarrumado pela bagunça do filho pequeno, o cansaço depois de um dia num trabalho desanimador. Ele sai para buscar o carro, estacionado em frente à casa da sogra. E, num estalo, decide passar a noite dirigindo rumo ao Sul.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

The lost symbol

The lost symbol
Dan Brown (Doubleday, 2009)

A meu favor, conta o fato de eu nunca ter me considerado "intelectual" - porque dá uma certa vergonha gastar meu tempo lendo uma bobagem de Dan Brown quando eu poderia tirar o atraso de tanto livro bom que comprei e acabou guardado na estante sem sequer ter sido aberto. Bem, não sou perfeita. E sei que a) qualquer Dan Brown, por mais que tenha 500 páginas, pode ser lido em um fim de semana; b) não é preciso prestar atenção nas qualidades literárias do autor, já que elas não existem; c) por mais inverossímeis que sejam, suas tramas rocambolescas conseguem me deixar extremamente curiosa pra saber como é que tudo será resolvido no final.

(Meu único comentário sobre a escrita de Dan Brown - como disse, não existem qualidades literárias, e ninguém precisa ser crítico pra ver isso - diz respeito à maneira irritante como ele usa frases em itálico sem a menor coerência e muito menos parcimônia, como bem notou o blog de livros do Guardian. "The Cube. Katherine Solomon's lab." Que raios é isso? O pensamento do sujeito ou apenas uma forma de enfatizar o lugar aonde ele chegou? É irritante. E acontece o tempo inteiro.)

A essa altura - o livro será lançado no Brasil ainda este mês -, muita gente já deve saber do que trata a nova empreitada do professor Robert Langdon, de Anjos e demônios e O código Da Vinci: a busca frenética por um de seus grandes amigos, sequestrado por um maluco em Washington, e a tentativa de solucionar um antigo mistério ligado à Maçonaria. Como nas aventuras anteriores de Langdon, tudo acontece muito, muito rápido (dessa vez, em apenas uma noite). Como nas aventuras anteriores, não dá pra saber em quem confiar (seria a diretora da CIA mocinha ou bandida? E o administrador do Congresso? E o padre cego? E o próprio amigo sequestrado?). E, como nas aventuras anteriores, não faltam perigos e reviravoltas (mas quem, em sã consciência, pode acreditar que Dan Brown mataria seu principal e mais lucrativo personagem?).

Sei lá se é porque já estou familiarizada com a fórmula do escritor, ou porque conheço os principais monumentos de Washington D.C., ou porque é tudo mesmo muito óbvio - neste livro, consegui "descobrir" os dois principais mistérios da história bem antes da metade. Vantagem? Nenhuma. Apenas a constatação de que, por pior escrito que seja, O código Da Vinci ainda é mais divertido.

domingo, 18 de outubro de 2009

Dicionário de mitologia

Dicionário de mitologia
(Best Seller, 2000)

Quando precisei procurar algo a respeito de Procrustes (Procusto, em português) para escrever sobre At large and at small, da Anne Fadiman, tinha certeza de ter, aqui em casa, o Dicionário mítico-etimológico do Junito de Souza Brandão. Que nada. Tenho é essa versão chatinha - embora, acredito, correta - que trata de personagens, lugares, plantas, festas e quetais relacionados à mitologia.

Eu só não entendo por que o principal texto a respeito de, por exemplo, um deus antigo, aparece no verbete de seu nome romano, e não do muito mais conhecido nome grego (bem, eu fui criada na mitologia de Monteiro Lobato, pra quem havia Zeus, Palas-Atena, Hera e Ares, e não Júpiter, Minerva, Juno e Marte) - embora haja remissões de um termo para o outro. De qualquer forma, não é um livro para aprender, com prazer, sobre as lendas da Grécia e de Roma Antigas, já que os verbetes são redigidos de uma maneira direta e didática; melhor usá-lo mesmo para consultas pontuais. O que me leva a tentar procurar, aqui em casa, o primeiro volume do As mais belas histórias da Antiguidade Clássica, do Gustav Schwab (o volume dois é tratado aqui). Esse, sim, fala sobre mitos com o respeito devido à literatura.

Paciente particular

Paciente particular
P.D. James (Companhia das Letras, 2009)

Eu nunca havia lido P.D. James até ganhar este livro de presente - e, ainda no início, cheguei à conclusão de que não posso me considerar uma legítima fã de policiais sem conhecer tanta coisa bacana. Só neste ano, fui apresentada a três autores, digamos, já bem rodados nas histórias de detetives: Fred Vargas, Henning Mankell e a agora querida P.D. James. E faltam tantos... Patricia Highsmith, por exemplo, de quem só li O amigo americano, e há tanto tempo que não me lembro de quase nada.

Paciente particular ganhou minha simpatia logo de cara porque o clima, o ambiente, os personagens fizeram com que eu reconhecesse, ali, um toque de Agatha Christe, de quem podem falar mal à vontade que eu vou continuar adorando anyway. Talvez tenha sido o cenário - uma mansão no interior da Inglaterra transformada em hospital particular -, ou a personalidade quase hermética das principais figuras envolvidas na história, ou o hábito tão britânico e agathachrístico do chá da tarde, ou a hierarquia um tanto ritualística seguida pelos moradores da clínica. Sei que, de repente, eu estava esperando que aparecesse ali, em Cheverell Manor, não o investigador Adam Dalgliesh (por quem só não me apaixonei porque meu coração já pertence a Jean-Baptiste Adamsberg), mas Hercule Poirot ou Miss Marple.

Rhoda Gradwin é uma jornalista especializada em descobrir o podre de pessoas poderosas. Dona de uma cicatriz que corta seu rosto, ela resolve internar-se na clínica do famoso cirurgião plástico George Chandler-Powell. A operação é um sucesso - mas Rhoda nunca chega a ver seu rosto reconstruído, já que morre assassinada logo depois da intervenção. Todo mundo é suspeito: o médico, o médico-assistente e sua irmã acadêmica, a enfermeira-chefe, a governanta da clínica, a empregada maluquete, o casal de cozinheiros, a contadora. Por causa de uma frase do final do livro que eu li sem querer e, ironia, interpretei errado, descobri o assassino bem antes de Dalgliesh. Mas nem isso tirou a graça da trama e o envolvimento que eu senti com tudo aquilo. Atrás de mais P.D. James, pois.

domingo, 20 de setembro de 2009

A morte tem sete herdeiros

A morte tem sete herdeiros
Stella Carr e Ganymédes José (Moderna, 2003)

Minha edição deste livro há muito perdeu a capa (que nem era igual a essa, aliás), mas conserva o autógrafo de Stella Carr na primeira página. Eu devia ter uns 12 anos, talvez? E me lembro de ter ficado felicíssima ao saber que dois dos meus autores favoritos iam se juntar pra escrever um livro: o Ganymédes José da série Inspetora e tantos outros, a Stella Carr da série Irmãos Encrenca. Melhor ainda, uma história de mistério que, no volume que eu tenho, ganhou o subtítulo de "A noite em que Agatha Christie visitou Jacuruçunga" - e eu já era fã da velhinha inglesa desde aquela época.

Os sete sobrinhos e alguns agregados de Rogério Matta Leitão (todos os nomes do livro são ótimos) encontram-se em sua casa, depois da morte do velho, para descobrir quem herdará a fortuna do falecido. Durante a noite, coisas estranhas começam a acontecer: a chegada de visitantes inesperados, um assassinato aqui, outro ali, gente que desaparece... Mesmo depois de tantos anos, eu ainda adoro o livro. E fico imaginando como deve ter sido delicioso o processo de escrita a quatro mãos entre Stella e Ganymédes, como os dois devem ter dado risada e se divertido. Só isso já vale a leitura.

domingo, 13 de setembro de 2009

The corrections

The corrections
Jonathan Franzen (Harper Trade UK, 2007)

Finalmente, depois de um longo hiato provocado pelo excesso de trabalho, terminei de ler The corrections. Gostei. Mas o livro (existe também traduzido para o português) não mexeu comigo tanto quanto eu pensei que pudesse mexer - por estar passando, eu mesma, por uma fase da vida em que algumas correções intensas são necessárias. Vai ver é porque, assim espero, não sou tão disfuncional quanto a família criada por Jonathan Franzen neste livro.

Depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho de engenharia na ferrovia local, Alfred, o pai, está começando a sofrer as consequências do mal de Parkinson. Enid, a mãe, tenta de todo modo manter as aparências do que imagina ser uma família perfeita do meio-oeste americano - mesmo que, para isso, tenha que ignorar a realidade, as necessidades e os sentimentos do marido e dos filhos. Na Filadélfia, o filho mais velho, Gary, trava uma luta de forças com a mulher, Caroline, e teme estar entrando em depressão. Denise, a filha mais nova, é uma chef de cozinha divorciada que sente muito mais afinidade com o pai do que com a mãe. Em Nova York, por fim, o filho do meio, Chip, procura se virar fazendo bicos de revisor e trabalhando no roteiro de um filme. E Enid quer juntar todos, filhos e netos, para um último Natal em St. Jude, a cidade onde nasceu, foi criada e vive até hoje.

A história vai e volta diversas vezes no tempo - o presente é um mês de outubro em que Alfred e Enid embarcam num cruzeiro até o Canadá, Gary briga com a mulher por causa do Natal em St. Jude, Denise está trabalhando num super-restaurante e Chip aceita viajar para a Lituânia -, principalmente para mostrar como cada um existe do jeito que é e que tipo de correções, na vida, eles gostariam de fazer. Mas há várias tramas paralelas e, talvez por minha leitura ter sido interrompida durante várias semanas, achei algumas delas cansativas e desnecessárias. Todo o Corecktall, por exemplo, e a história da amiga que Enid faz no navio. Outras são divertidíssimas (a visita de Enid ao médico de bordo) ou ajudam a explicar a personalidade de Alfred, para mim o grande, e injustiçado, personagem do livro. Uma das passagens finais, o "acerto de contas" entre marido mulher, é belo e muito triste.

Mas se nem a vida é sempre justa, por que a ficção haveria de ser?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Pê de pai

Pê de pai
Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (CosacNaify, 2009)

Meu pai morreu muito cedo, quando eu tinha 4 anos, afogado num acidente estúpido enquanto pescava em Ubatuba. Por isso, não tenho nenhuma referência das funções paternas mostradas de maneira tão simples e tão belas neste livrinho. O pai casaco, que protege os filhos da chuva. O pai trator, que ajuda a atravessar as poças d'água. O pai boia, que dá uma força na piscina ou no mar quando a gente não sabe nadar.

Mas meu irmão é pai recente - minha sobrinha acabou de completar 1 ano - e eu acho lindo ver como ele se transforma, com ela, no pai avião, pai freio de mão, pai guindaste, pai sofá, pai colchão... Então comprei o livrinho para mandar de presente pra eles. Nem história tem: são só desenhos, toscamente divertidos, e a descrição dos diversos tipos de pai, criados por uma dupla portuguesa de autora e ilustrador. Espero que gostem.

domingo, 30 de agosto de 2009

Assassinos sem rosto

Assassinos sem rosto
Henning Mankell (Companhia das Letras, 2001)

Fazia tempo que não acontecia de eu pegar um livro e ler tudo em dois dias, como foi com Assassinos sem rosto. Mas confesso que houve um motivo para isso: comprei o livro para dar de presente e resolvi, primeiro, conferir a história - meu presenteado, afinal, é fã de romances policiais, e, como eu nunca tinha lido Mankell antes, fui ver se a história era bacana. Gostei. Não tanto quanto de Fred Vargas, que eu diria ser um Mankell aprimorado, mas gostei.

Este é o romance que apresenta o inspetor Kurt Wallander, o Jean-Baptiste Adamsberg de Henning Mankell. Assim como o colega fictício francês, o sueco Wallander vive sozinho, tem problemas com as mulheres e lidera uma equipe formada por tipos bem diferentes de policiais. Mas Adamsberg é um personagem muito mais carismático e bem-construído: a gente torce por ele. Talvez lendo outros livros de Wallander eu passe a torcer por ele também, mas nessa sua estreia só o que eu conseguia pensar era em, por exemplo, "por que ele não foi conversar com as filhas do casal assassinado?" Ou na superficialidade com que aparecem figuras que deveriam ter alguma importância na vida do detetive - a filha de Wallander, Linda, é um ser meio evanescente, assim como a Camille de Adamsberg, mas muito menos interessante; e não dá pra ter qualquer simpatia por seu velho pai, cada vez mais senil, ou pelo melhor amigo que ficou no passado.

E aí tem uma outra coisa que me incomoda muito em alguns policiais, até mesmo em Fred Vargas: a solução fácil. Podem falar o que quiser de Agatha Christie, subliteratura e sei lá o quê, mas pelo menos seus finais eram quase sempre surpreendentes. Pelo menos neste livro, Henning Mankell ficou devendo um desfecho mais emocionante.