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sábado, 5 de junho de 2010

Lit Wit

Lit Wit
Richard Lederer

Isto não é um livro, mas fala deles e de escritores, então merece estar aqui - até porque, adorei. Trata-se de um jogo, uma trivia literária, com 100 fichas divididas em quatro temas: textos, autores, títulos e gêneros. Em cada uma, perguntas variadas em diversos graus de dificuldade. Fã de jogos intelectuais que sou, me diverti pra caramba tentando adivinhar, ou me lembrar, das respostas. Mas memória não é, definitivamente, o meu forte...

Eis uma pequena amostra do que pode ser encontrado no joguinho, que traz as fichas organizadas numa simpática caixinha (comprei na Books & Books, que, além de livros, tem boas surpresas, como esta):

* Use the following anedocte to identify the author: "As a young cadet, this American writer was expelled from West Point for reporting to a march wearing nothing but white gloves."

* Why did George Orwell choose Nineteen Eighty-Four as the title and year of his novel?

* Identify the titles and name the author of the literary work, quoted below, that end well: "That might be the subject of a new story - but our present story is ended."

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Doutor Pasavento

Doutor Pasavento
Enrique Vila-Matas (CosacNaify, 2010)

Só existe um homem no mundo, e ele não faz mais parte da minha vida, capaz de entender a idolatria que mantenho por Enrique Vila-Matas. Era meu duplo. Não sinto exatamente saudade - encontrar o duplo pode trazer muita alegria e muito infortúnio, como disse hoje uma amiga -, mas de vez em quando o vazio se manifesta de maneira mais forte por eu saber que não existe mais ninguém com quem conversar sobre, por exemplo, Doutor Pasavento; não, pelo menos, do jeito como eu conversava com ele.

"Possibilidades" era nossa palavra favorita - assim mesmo, no plural. E, neste livro, Vila-Matas trata de uma possibilidade que me é particularmente sedutora: a de desaparecer. Que não é morrer, mas desaparecer apenas, sumir no mundo, fugir da própria insignificância para saber se alguém dá pela falta da gente. Agatha Christie fez isso, como lembra o Doutor Pasavento no livro. (Sim, deram pela falta dela.)

Como todos os meus Vila-Matas, este também está todo marcado, com períodos inteiros sublinhados a lápis, anotações nas margens - será que, daqui a um tempo, vou me lembrar o que quis dizer com cada comentário? Acredito que sim. Diz a crítica que Vila-Matas é um "escritor de escritores" e, embora eu esteja longe de praticar o ofício, o tema é importantíssimo para mim. Falar da escrita, pensar sobre a escrita, tentar viver a escrita. Desaparecer para escrever e escrever para desaparecer.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Paris é uma festa

Paris é uma festa
Ernest Hemingway (Bertrand Brasil, 2006)

Ando apaixonada pela Paris do início do século 20 e, se alguém me perguntasse, hoje, onde e em que época hipotética eu gostaria de ter vivido, diria que seria nessa Paris de Picasso e Matisse e Hemingway e Fitzgerald e Gertrude Stein (embora não me falte a certeza de que eu pertenço mesmo ao aqui e ao agora, e que qualquer outra época idealizada - o Rio de Janeiro dos anos 50-60, a Nova York da Round Table, a São Paulo modernista - seria de um sofrimento enorme pra mim). Mas no começo do século 20 Paris era, sim, uma festa, e todo mundo conhecia todo mundo, e se encontrava nos cafés, e o dinheiro era curto mas dava até pra passar férias na Espanha, de vez em quando na Suíça.

É o que conta Ernest Hemingway, que chegou à cidade depois de ter sido motorista de ambulância na Primeira Guerra Mundial e que, em Paris, deu início à carreira de escritor enquanto era correspondente de um jornal canadense. Morava com mulher e filho num apartamentozinho na margem esquerda do Sena e alugava um quarto num hotel, ali perto, para poder trabalhar em paz. Logo que chegou, ficou conhecendo Gertrude Stein, com quem manteve uma relação intensa de amizade até que um fato velado, ou mal-explicado (pelo menos no livro), fez com que se afastassem - acho que teve a ver com a homossexualidade da escritora.

Assim, entre confissões das apostas feitas no jóquei (e que levaram um bom dinheiro para o ralo), o excelente relato de seu método de trabalho e os planos de viagem para Pamplona, Madri e Valência, Hemingway vai falando não só da vida, mas de amigos como Sylvia Beach, dona da livraria Shakespeare and Company, Ford Madox Ford ("I always held my breath when I was near him in a closed room"), Ezra Pound e, principalmente, F. Scott Fitzgerald, com quem Hemingway empreendeu uma viagem das mais bizarras.

Paris é uma festa foi organizado pela última mulher do escritor e publicado em 1964, depois de sua morte - Hemingway se matou com um tiro, em 1961. Ano passado, talvez um pouco antes, um de seus netos relançou o livro, dessa vez com mudanças na ordem dos capítulos e com o acréscimo de informações que, segundo ele, ajudariam a melhorar a imagem de sua avó, a segunda mulher do escritor, que aparece no fim do volume. Eu não vi nada de absurdo na maneira como o autor tratou do fim de seu casamento; achei até elegante. E, de qualquer modo, o livro que Hemingway imaginou me parece bem melhor do que qualquer variação que tenha vindo depois dele.

domingo, 7 de março de 2010

A autobiografia de Alice B. Toklas

A autobiografia de Alice B. Toklas
Gertrude Stein (CosacNaify, 2009)

Aos trancos - não porque não esteja gostando, mas porque o tempo parece ter se esmerado em pregar suas peças em mim -, estou terminando de ler Paris é uma festa, de Hemingway, numa versão em inglês, para o Kindle, anterior àquela que um de seus netos desfigurou para tentar melhorar a imagem da avó. E me diverti muito, logo no início, quando Hemingway fala de sua amizade com Gertrude Stein, bem na época retratada pela escritora nesse A autobiografia de Alice B. Toklas. Sim, trata-se de uma "autobiografia", mas escrita por outra pessoa - afinal, a vida de uma é a vida da outra.

Alice viveu com Gertrude por 38 anos, dividindo os papéis de amante, secretária, governanta e eventual cozinheira. Segundo MFK Fisher, no prefácio de O livro de cozinha de Alice B. Toklas, foi uma mulher baixinha, muito feia, de olhos vivos e gosto por chapéu espetaculares. Era dela a tarefa, como conta Gertrude e corrobora Hemingway (sem, no entanto, citar o nome de Alice), de conversar com as mulheres dos amigos da casa, de passar a limpo e de fazer a revisão dos textos da companheira.

Eu já tinha lido O livro de cozinha..., escrito pela própria Alice depois da morte de Gertrude Stein. É meio sisudo e, às vezes, até baixo-astral, embora traga histórias inspiradoras - muito diferente da bem-humorada autobiografia que, mesmo sem ter saído da pena da biografada, consegue mostrar de um jeito bem mais amigável quem foi, afinal, essa americana que largou tudo em seu país para viver, na França, com a escritora (já, então, um tanto famosa - se não pelos livros, pela fabulosa coleção de amigos: Picasso, Matisse, Apollinaire, Sherwood Anderson, vários outros).

É também através das palavras de Alice que Gertrude Stein fala muito de si mesma, quase sempre sem nenhuma modéstia ("Posso dizer que só três vezes na vida encontrei gênios [...] Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred Whitehead"), das frustrações e expectativas em relação à sua obra e de seu método de trabalho. Picasso, suas mulheres e seus quadros, ocupam boa parte das memórias, assim como a convivência com Matisse, desafeto da cozinheira Hélène: "(...) Monsieur Matisse vai ficar para jantar hoje, ela dizia, nesse caso não vou fazer omelete, mas ovos fritos. Gasta o mesmo número de ovos e a mesma quantidade de manteiga, mas demonstra menos respeito e ele vai entender."

Dá vontade de ler outra vez, assim que eu acabar o Hemingway, e continuar lendo outros escritos sobre essa época em Paris. O livro de Sylvia Beach sobre a Shakespeare and Company. Paris era ontem, de Janet Flanner, a correspondente da revista The New Yorker, na França, quando Gertrude, Alice, Pablo, Ernest e tantos outros viviam lá. É dela, aliás, a frase "qualquer autobiografia de uma será, necessariamente, uma biografia da outra", que usei adaptada ali em cima, e que aparece no ótimo posfácio de Silviano Santiago - ilustrado por uma foto das duas, Gertrude Stein levando um cachorro na coleira e Alice B. Toklas a seu lado, baixinha, muito feia, com um chapéu espetacular.

domingo, 22 de março de 2009

Rotten reviews and rejections

Rotten reviews and rejections
Bill Henderson e André Bernard (Pushcart Press, 1998)

Tenho ouvido falar muito em A arte de recusar um original, lançado recentemente pela Rocco. Ainda não tive tempo nem de dar uma folheada na livraria, mas sei que o autor, Camilien Roy, criou 99 cartas fictícias de rejeição a um original - parece que tem até uma página toda em branco, já que não seria necessário dizer nada a respeito do texto descartado.

É uma boa ideia. Mas divertido, mesmo, é esse Rotten reviews and rejections, uma compilação de críticas e cartas de rejeição verdadeiras recebidas por livros e/ou autores hoje famosíssimos. Melhor: algumas vezes, quem detona também é conhecido - Emile Zola, sobre As flores do mal, de Baudelaire, escreveu que "daqui a cem anos, a história da literatura francesa só vai falar desse livro como uma curiosidade" (as traduções, pobrinhas, são minhas mesmo).

Outros exemplos:
"É impossível vender histórias sobre animais nos Estados Unidos" (A revolução dos bichos, George Orwell);
"Parece que a garota não tem nenhuma percepção ou sentimento especial que poderiam elevar o livro além do nível de 'curiosidade'" (O diário de Anne Frank, Anne Frank);
"Sobre esse livro, dá pra dizer - com confiança suficiente - que não é escrita. É pesquisa" (A sangue frio, Truman Capote, crítica no The New Republic).

domingo, 25 de janeiro de 2009

Diálogos - Borges Sabato

Diálogos - Borges Sabato
Organizado por Orlando Barone (Globo, 2005)

Nunca escondi que, dos quatro ou cinco escritores argentinos que conheço, Borges é o que menos faz meu gênero - Cortázar e Bioy Casares me emocionam muito mais. Mesmo assim, seria idiotice não reconhecer sua importância para a literatura, e não só a de seu país. Comprei esse livro logo depois de descobrir Ernesto Sabato, de quem havia lido O túnel e O escritor e seus fantasmas. Gostei muito; trata-se de uma série de conversas entre os dois, realizadas no verão de 1974-75, com Borges aos 75 anos e Sabato aos 63. Falam de escrita, suas obras, a obra dos outros, amigos em comum, as artes em geral. Nesse contexto, beleza: leio Borges com prazer.

"É que eu acredito na teologia como literatura fantástica. É a perfeição do gênero." (Borges)

"Mas por que toda realidade tem que ser coerente?" (Sabato)

"Há outra idéia, que eu li, de que se criasse uma linguagem sem nenhuma correspondência com nenhum real. Isso significa buscar uma palavra que correspondesse ao fato de ter sede quando tivesse passado das seis da tarde, por exemplo. E isso seria uma só palavra." (Borges) [Ele não conhecia The meaning of tingo.]

"O natural é o acostumado. (...) O que estou dizendo: bastariam pequeníssimas diferenças para produzir pavor." (Sabato)

"O que nós sabemos sobre a loucura? Quem sabe se o que nós fizemos até agora é, simplesmente, supervalorizar a sensatez que, com frequencia, é simples mediocridade?" (Sabato)

Borges: - Como, o senhor tem medo da morte?
Sabato: - A palavra exata seria tristeza. Morrer me parece muito triste.
Borges: - Eu penso que assim como a gente não pode se entristecer por não ter visto a Guerra de Tróia, não ver mais este mundo tampouco pode entristecer, não é mesmo? Na Inglaterra, há uma superstição popular que diz que nós não saberemos que morremos até que comprovemos que o espelho não nos reflete. Eu não vejo o espelho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Erico Verissimo

Erico Verissimo
Instituto Moreira Salles, 2003

Consta que, quando perguntado se podia dar uma declaração sobre Luis Fernando Verissimo para uma reportagem da revista Veja, Fernando Henrique Cardoso teria dito: "Verissimo, pra mim, só o Erico". Eu provavelmente responderia o mesmo. Não tenho nada contra o Luis Fernando, ao contrário. Mesmo com aquele jeito de tartaruguinha tímida, ele é muito simpático e eu gosto de Traçando New York e dos outros livros da série. Mas Erico é diferente. Erico é Literatura com L maiúsculo.

Esse é o 16º volume dos Cadernos de Literatura Brasileira, uma bela iniciativa do Instituto Moreira Salles - que edita, acredito que a cada seis meses, um volume inteiro sobre algum de nossos escritores. Ilustrado com belas fotos preto-e-branco (há um capítulo de Cristiano Mascaro sobre Porto Alegre e outro, de Edu Simões, sobre o interior gaúcho), o livrão traz uma cronologia, trechos de entrevistas concedidas por Verissimo a diversos jornais e revistas, ensaios sobre sua obra. Pra mim, o melhor de tudo é "Manuscritos/inéditos", com partes de um romance que EV deixou inacabado. Estão lá não apenas parágrafos inteiros do texto como reproduções coloridas de algumas páginas dos cadernos que ele usava para fazer anotações. Primeira descoberta: ele escrevia suas ideias tanto em português quanto em inglês. Segunda: ele desenhava seus próprios personagens. Acho um privilégio poder espiar a cabeça do escritor e conhecer seu método de trabalho. É claro que não existe fórmula, o que deixa tudo mais fascinante. Verissimo fazia assim, Cortázar daquele jeito, cada um descobre a melhor maneira de trabalhar e criar.

E para quem chegou até esse post porque digitou "árvore genealógica de O tempo e o vento" no Google, sinto muito. Vai ter que procurar em outro blog, abrir o bolso e comprar esse livro ou, muito melhor, largar a preguiça de lado e partir para a leitura da obra-prima de Verissimo.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

George, being George

George, being George
editado por Nelson W. Aldrich, Jr. (Random House, 2008)

Eu não sabia quase nada sobre o George Plimpton até ler uma matéria escrita pelo Graydon Carter, da Vanity Fair, no New York Times. Falava sobre o lançamento desse livro, contava algumas histórias que entraram para o folclore de Plimpton e me deixou morrendo de curiosidade sobre esse homem que nasceu rico, frequentou as melhores escolas, mudou-se para a Europa no pós-guerra e, quase de farra, juntou-se a outros americanos para, juntos, lançarem um marco da literatura mundial: a revista The Paris Review. (Qualquer um que se interesse a sério por livros e escritores deveria sair correndo em busca da compilação de entrevistas da PR, lançada pela Companhia das Letras.)

Organizado por um ex-editor da revista em Paris (depois a redação se mudou para Nova York), o livro é muitíssimo bem definido pelo subtítulo: George Plimpton's life as told, admired, deplored and envied by 200 friends, relatives, lovers, acquaintances, rivals - and a few unappreciative observers. Não existe um texto corrido, e sim parágrafos com o depoimento desses vários amigos, parentes, amantes, conhecidos, gente que participou da vida de Plimpton em cada uma de suas fases. Dá certo, e a gente percebe isso já no prólogo, uma sensacional coleção de testemunhos sobre a fascinação que ele tinha por fogos de artifício. Eu, que tenho uma birra tremenda por prólogos, adorei.

Eu ia dizer que George Plimpton teve uma vida invejável: foi gregário, festeiro, empreendedor, aventureiro. Virou celebridade, e isso não é coisa das mais fáceis no mundo literário. Mas não posso invejar, porque sou o anti-Plimpton total. E estou muito contente assim. É tão bom saber que os livros - e muitas biografias, como a do Richard Burton - podem preencher esse tantinho de desprendimento que eu não faço questão de aprender a essa altura da vida, porque gosto dela do jeito que é.

domingo, 28 de dezembro de 2008

O Natal no Sabadoyle

O Natal no Sabadoyle
organização de Olímpio José Garcia Matos (Massao Ohno, 1994)

O Natal era bom quando eu era criança e minha avó materna se vestia de Papai Noel, e havia sempre uma discussão familiar sobre o que seria servido na ceia do dia 24, e no almoço do dia 25 estávamos todos lá, de volta à casa da vó, pra curtir os presentes do dia anterior e almoçarmos espremidos em volta da mesa da sala. Depois que minha avó morreu - e isso já faz muito tempo -, descobri que na verdade o Natal é uma festa muito deprimente quando não se têm mais tradições ou uma pessoa que simbolize a união. Foi só de uns tempos pra cá que eu consegui assumir: detesto essas festas de fim de ano que só servem pra gente reforçar o auto-engano. E, recentemente, duas das melhores noites de Natal da minha vida foram passadas dentro de um avião, com destino aos Estados Unidos, nocauteada por alguns comprimidos tarja-preta.

Mas não é por isso que eu sou insensível às coisas belas que o Natal já produziu - boa parte do repertório de Bing Crosby, A felicidade não se compra e esse livro, O Natal no Sabadoyle, uma edição comemorativa das atas de Natal escritas pelos freqüentadores do Sabadoyle. Começou em 1972, com Carlos Drummond de Andrade (eu quase coloquei uma foto do poeta no lugar dessa do Plínio Doyle, mas achei melhor homenagear o dono da casa), e seguiu até pelo menos 1994, quando o livro foi editado, com textos e poemas também de Pedro Nava, Alphonsus de Guimaraens Filho, Homero Homem, Homero Senna. Revendo agora meu volume, encontrado num sebo em condições quase excelentes, percebo que o livro trata mais da amizade, do Sabadolyle e das letras do que da festa em si. Como disse Drummond em seus versos finais de Natal na biblioteca de Plínio Doyle:

"(...) Mas tenho que concluir a versalhada
antes que soe a hora da consoada,
pois é Natal, ou quase, nestas salas
em que os livros, amados, formam alas,
agradecendo, num carinho mudo,
o que por eles faz o Plínio: tudo
que se chame cuidado, zelo, amor
de desvelado colecionador,
e os convivas, em roda, tecem loas,
por todas essas coisas muito boas,
ao amigo leal, firme, sem balda,
junto à doce presença de Esmeralda."

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Bilac vê estrelas

Bilac vê estrelas
Ruy Castro (Companhia das Letras, 2000)

Há alguns anos, eu e um querido amigo começamos a preparar uma edição revisada de O momento literário, um livro do João do Rio publicado talvez em 1908. Na virada do século, João do Rio escolheu trinta e poucos escritores relevantes da época e a todos entrevistou com cinco perguntas, entre elas "quais foram suas influências literárias" e "o que você acha da intersecção entre o jornalismo e a literatura" (ou algo do gênero). Mas o bacana de O momento literário nem são as respostas, algumas chatíssimas, e sim ver que tipo de figura formava o mundo cultural carioca há 100 anos - houve espaço até pra um maluquete que acabou (merecidamente) sumido, um sueco chamado Magnus Söndahl.

Eu e meu amigo investigamos e escrevemos um miniperfil de cada autor entrevistado por João do Rio. E um deles, o padre Severiano de Resende, não é outro senão o modelo usado por Ruy Castro para um dos personagens de Bilac vê estrelas: o padre Maximiliano da Gama. Quem lê esse pequeno romance, parte de uma coleção policial que previa escritores famosos como protagonistas, vai entender por que só ele, entre tantas outras figuras da época, aparece disfarçado com pseudônimo. De resto, estão lá vários medalhões do mundo literário na Belle Époque carioca: Medeiros e Albuquerque, Coelho Neto, Emilio de Menezes, José do Patrocínio, quase todos envolvidos numa trama mirabolante em que Olavo Bilac se vê no papel de detetive. Levinho e inofensivo, e mais divertido para quem conhece ou já ouviu falar desse monte de escritores do passado.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Os escritores

Os escritores - As históricas entrevistas da Paris Review
(Companhia das Letras, 1988)

Estou lendo a "biografia" de George Plimpton, o sujeito que colocou de pé a Paris Review, uma revista literária criada por americanos na década de 50, em Paris. (O motivo das aspas será devidamente explicado no post sobre o livro, assim que eu terminar a leitura.) E então me deu vontade de tirar da estante os dois volumes de Os escritores, lançados em 1988 e 1989 por uma iniciante Companhia das Letras, com a reunião das melhores entrevistas publicadas pela revista ao longo de décadas. (Segundo parêntese: é engraçado ver como eram fraquinhos o projeto gráfico do livro e o texto de orelha no ano em que a editora abriu as portas.)

Logo no primeiro volume encontrei dois post-its e várias frases grifadas. Na entrevista com Dorothy Parker, a respeito de colegas escritoras que, a seu ver, não mereciam muito respeito: "E pensar que havia aquele pobre otário do Flaubert que rolava no chão durante três dias procurando a palavra certa." Em Borges, um post-it laranja e nenhuma anotação (Ruy, eu gosto do Borges quando são livros de entrevistas; tem um dele com o Sábato que é muito bacana.) O segundo volume (é a capa que ilustra o post) tem Nabokov, Garcia Márquez, Isak Dinesen, Auden, Hemingway... Ambos estão esgotados há séculos; consegui os dois volumes graças àquele meu livreiro infalível.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Alfabeto literário

Alfabeto literário
Loredano (Capivara, 2002)

Tem livro de ver que é quase tão excitante quanto livro de ler - principalmente ao tratar da própria literatura, como este. A idéia, simples - escritores relevantes de todas as épocas, brasileiros e estrangeiros, retratados nas caricaturas de Loredano - ganhou uma execução primorosa, na linha dos melhores coffee table books.

O título se justifica pela maneira como é organizado: vai de A (Almeida Prado, Décio) a Z (Zweig, Stefan). Como é de praxe em caricaturas, cada desenho, acompanhado por uma pequena informação biográfica, explora os traços físicos mais marcantes dos retratados. É assim com as olheiras de Paul Auster, o nariz de Dante, a cara de gato de Cortázar. Já tentei brincar de adivinhar quem era quem só de olhar para o desenho. E cheguei à conclusão de que sou muito melhor para guardar nomes do que fisionomias...

domingo, 29 de junho de 2008

O Sabadoyle

O Sabadoyle
Homero Senna (Casa da Palavra, 2000)

De vez em quando alguém aparece com a pergunta: "se você pudesse ter escolhido outro lugar e outra época para viver, qual seria?" Eu já respondi que seria o Rio dos anos 50, na transição para a bossa-nova. Ou a São Paulo do modernismo de 1922. A Paris de Picasso, de Hemingway e Fitzgerald. Na verdade, acho que nada seria melhor do que o aqui e o agora - só de contar com a internet e com um sistema de troca de mensagens que, durante a maior parte de minha vida, não passava de um imenso delírio futurista, já me dou por satisfeita com os anos 2000.

Mas dois momentos da nossa história literária me fazem ter vontade de, senão ter vivido a época, pelo menos poder voltar um pouquinho no tempo. Um é o Rio de Janeiro no final do século 19, como Brito Broca descreve muito bem em seu Vida Literária no Brasil - 1900. Outro é o mesmo Rio, só que o dos anos 60 e 70, quando o advogado e bibliófilo Plínio Doyle começou a receber amigos no sábado à tarde em torno de sua biblioteca. Sábado + Doyle = Sabadoyle. Uma confraria literária, nas palavras do autor Homero Senna, por onde passaram nomes como Carlos Drummond de Andrade (um dos fundadores do grupo), Pedro Nava, Raul Bopp, Afonso Arinos e Alphonsus de Guimaraens Filho, e que contou com visitantes ilustres como Di Cavalcanti e Lygia Fagundes Telles. As atas de cada encontro - porque até isso o clubinho tinha - chegaram a ser reunidas em dois livros: uma edição das atas-poema, feita pelos próprios confrades, e uma reunião das atas de Natal, lançadas pela Massao Ohno nos anos 90. Será que ninguém se interessa em editar tudo de novo?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Maldição e glória

Maldição e glória
Carlos Maranhão (Companhia das Letras, 2004)

Ao lado de Lúcia Machado de Almeida (O caso da borboleta Atíria, Spharion, O escaravelho do diabo) e Maria José Dupré (A ilha perdida, A montanha encantada, O cachorrinho Samba), Marcos Rey está para sempre ligado à coleção Vaga-Lume, que criança nenhuma perdia nos anos 70 e 80. Seu primeiro livro para a série da editora Ática foi O mistério do cinco estrelas, mais tarde seguido por O rapto do garoto de ouro e Um cadáver ouve rádio. Ao contrário da maioria de seus colegas de coleção, que ambientavam suas histórias em fazendas, florestas, cidades do interior e até no espaço, Marcos Rey fez do espaço urbano um coadjuvante para suas histórias. Léo, Gino e Angela, personagens de sua trilogia detetivesca, vivem em São Paulo e é nessa cidade que precisam desvendar um assassinato em O mistério do cinco estrelas.

Ok, mas estou falando de outro livro. Maldição e glória não tem crimes, trio de amigos detetives nem hotéis classudos. Ao contrário: começa às voltas com um garoto portador de hanseníase - a lepra - e, por isso, condenado a viver escondido para não ir parar nos sanatórios onde os doentes eram confinados. Marcos Rey, o garoto doente, evitou falar de sua condição por quase toda a vida. Da mesma maneira, foi só nos anos 80, com quase 60 anos de idade, que admitiu ter sido roteirista de pornochanchadas para a Boca do Lixo paulistana. Essas e outras histórias, como as passagens pelo rádio, TV, cinema, publicidade e teatro, estão reunidas nesta bem escrita biografia, que só não é melhor porque... bem, porque a vida de Marcos Rey não ajuda muito. O melhor, portanto, concentra-se na pior fase da vida do escritor: a luta contra a hanseníase, as internações, as seqüelas da doença - com direito a uma informação eletrizante descoberta por Carlos Maranhão e que diz muito sobre a política de saúde pública no Brasil dos anos 30.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Flores raras e banalíssimas

Flores raras e banalíssimas
Carmen Lucia Oliveira (Rocco, 2004)

Eu sempre fico em dúvida: o lugar mais bonito do Rio de Janeiro é o Aterro do Flamengo ou a Lagoa Rodrigo de Freitas? A pendência para o Aterro ganhou força desde que li esse livro, que o subtítulo indica como sendo "A história de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop" - não sei por que não está escrito "A história de amor de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop", pois é disso que trata. Feia, baixinha, determinada e ultra moderna para sua época, Lota vinha de uma tradicional família do Rio. Vivia em meio a intelectuais e artistas e, nos anos 40, seu sonho era criar uma organização que promovesse a cultura do Brasil. Em 1951, aos 40 anos, a poeta americana Elizabeth Bishop tomou um navio e foi parar no Rio de Janeiro. Bishop conhecia Mary Morse, a companheira de Lota. Mary apresentou Bishop a Lota - e repentinamente saiu de cena, porque a agitadora cultural e a poeta se apaixonaram na mesma hora.

Viviam entre o apartamento do Leme e uma casa de sonho construída em meio à mata de Petrópolis, numa relação de altos e baixos tumultuada pelo alcoolismo da americana e o trabalho da brasileira. E o Aterro do Flamengo? No começo dos anos 60, durante o governo de Carlos Lacerda, Lota foi encarregada de coordenar a criação de um parque no terreno à beira-mar do Flamengo. Moveu mundos, fundos e gente como Roberto Burle Marx e Sérgio Bernardes para, como disse, "transformar aquele terreno cheio de entulho num Central Park". Deu um trabalhão, causou um monte de brigas e certamente contribuiu para atrapalhar o casamento das duas. Mas sempre que saio do Santos Dumont, ao percorrer o Aterro e ver a Marina da Glória e o Pão de Açúcar logo ali em frente, não deixo de agradecer em pensamento à empreitada de dona Lota.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Vida literária no Brasil - 1900

Vida literária no Brasil - 1900
Brito Broca (José Olympio, 2005)

Brito Broca foi um crítico literário que, ao contrário de Silvio Romero e José Verissimo, ainda hoje conhecidos por uns ou outros, caiu quase totalmente no esquecimento. Uma pena, porque deixou trabalhos interessantíssimos, como essa grande crônica da literatura brasileira na virada do século 19 para o 20. Sou capaz de apostar que, não tivesse morrido atropelado, em 1961, aos 58 anos, Broca teria concluído seu projeto com louvor: uma trilogia sobre as letras brasileiras, incluindo um volume sobre o modernismo.

O melhor de Vida literária no Brasil - 1900 (que ganhou essa pífia reedição pela José Olympio, em nada diferente da terceira edição, de 1975) é que Brito Broca não só tira do pedestal nomes consagrados - seu relato da briga entre Silvio Romero e José Veríssimo é impagável - como traz à tona nomes desconhecidos que, embora não tenham a menor importância para a história literária do país, ajudavam a agitar o mundo das letras nos 1900. Mas também estão lá Machado de Assis, Olavo Bilac, Coelho Neto, Luís Edmundo. Quem gosta de ler e de saber sobre escritores fica até com uma certa nostalgia, vontade de bater ponto na livraria Laemmert ou se encontrar na Colombo, como fazia toda essa turma.

sábado, 27 de outubro de 2007

On writing

On writing
Stephen King (Pocket Books, 2000)

Eu nunca tinha lido uma linha escrita por Stephen King - no máximo, visto alguns filmes baseados em suas obras, como os ótimos Conta comigo e Louca obsessão. Até que uma amiga indicou esse On writing, misto de memórias e lição de escrita (não posso questionar a qualidade literária de King, já que não li sua ficção, mas é preciso concordar que de alguma coisa ele entende, ou não criaria livros que vendem feito pão quentinho).

A parte autobiográfica do livro é bem legal: eu não tinha idéia de que Stephen King resolveu virar escritor tão cedo, que ele é casado há séculos com a mesma mulher, nem da gravidade do acidente que ele sofreu em 1999. Mas o que me interessava mesmo eram os "segredos" do escritor, convenientemente reunidos num capítulo chamado "Toolbox". Como Stephen King desde o começo alerta que qualquer livro que se pretenda ensinar a escrever é bullshit, eu estava curiosa pra saber do que ele iria tratar. E ele trata do básico, do mais simples de tudo: aprenda gramática, conheça as regras para poder subvertê-las, não existe nada parecido com uma "musa", o melhor caminho é o mais simples, leia muito e escreva muito, corte palavras inúteis. Óbvio, pelo menos para quem escreve como jornalista. Difícil, para a maioria das pessoas que quer escrever ficção. Duas "regras" de King nunca me abandonaram: trate os advérbios como seres de outro planeta (a comparação é minha) e kill your darlings (fui até procurar a frase original: "kill your darlings, kill your darlings, even when it breaks your egocentric little scribbler's heart, kill your darlings". Quem disse que escrever é cortar estava certíssimo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O clube Dante

O clube Dante
Matthew Pearl (Francis, 2005)

A capa do livro é horrível e a primeira edição está cheia, repleta de erros, tanto de digitação quanto de informações (o nome de uma casa ora aparece de um jeito, ora de outro, e a certa altura do texto uma "palavra" tão sem sentido como skdgjietuhdhgue aparece no meio de uma frase). Mas a história criada pelo iniciante Matthew Pearl é muito bacana. Gira em torno de quatro personagens reais, nos Estados Unidos de 1865: os poetas Henry Wadsworth Longfellow e James Russel Lowell, o médico Oliver Wendell Holmes e o editor J.T. Fields. Juntos, os quatro estão trabalhando na primeira tradução americana de A Divina Comédia, de Dante Alighieri, quando uma série de assassinatos começa a acontecer em Boston e Cambridge, onde fica a universidade Harvard. Surpresa: os crimes são cometidos a partir das punições descritas por Dante em seu Inferno.

Os quatro, então, passam a tentar solucionar os crimes, e a certa altura viram eles próprios os alvos do assassino. Tirando a existência real dos personagens e a tradução que Longfellow efetivamente fez do poema italiano, tudo mais é ficção, e das boas. Meu personagem favorito é o simpático dr. Holmes - foi ele que inspirou Conan Doyle a batizar Sherlock Holmes. Além disso, descobri pelo livro que o médico inventou a palavra anestesia - e eu adoro gente que inventa palavras!