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domingo, 11 de julho de 2010

Elza, a garota

Elza, a garota
Sérgio Rodrigues (Nova Fronteira, 2009)

Narrar de forma interessante uma história quase desconhecida e tão mal-contada pelas fontes oficiais não é tarefa fácil. Pra começar, quase não há assunto: Elvira Cupello Calônio, a Elza do título, teve uma vida curta e desprovida de grandes emoções, a não ser pelo fim violento. Foi do interior de São Paulo para o Rio de Janeiro, apaixonou-se, levou uma vidinha comum e passou uns dias na prisão por causa de seu namorado, capturado pela polícia de Getúlio Vargas depois da Intentona Comunista de 1935. Solta pelas autoridades, buscou abrigo na casa de amigos. E morreu assassinada, aos 21 anos - ou seriam 16? -, tida como traidora da causa revolucionária.

Se a trama parece familiar, é porque guarda algumas semelhanças com a de outra figura histórica, essa tratada em best-seller, e fruto da mesma época: Olga Benário. Olga, mulher de Luiz Carlos Prestes, atuava no Partido Comunista soviético e, depois de presa, foi mandada para a morte, na Alemanha nazista, pelo governo brasileiro. Elza era amante de Miranda, secretário-geral do PC no Brasil, e uma série de suposições feitas por membros do partido no Rio de Janeiro - Prestes inclusive - levou a seu assassinato, cometido pelas mesmas pessoas em quem confiou quando saiu da prisão, no começo de 1936.

Sérgio Rodrigues usou de um expediente engenhoso para contar a vida de Elza: dividiu a trama em duas narrativas, uma real e outra fictícia. Na real, que aparece no começo de cada capítulo, conta de sua pesquisa em busca de informações sobre Elza, transcreve trechos do processo que condenou os assassinos, reproduz partes da correspondência de figuras-chave para o caso, como o próprio Luiz Carlos Prestes. A fictícia também trata da História, agora em maiúsculas, ao colocar em cena um velho doente que recorre a um jornalista para escrever suas memórias. Testemunha da revolução frustrada de 1935, Xerxes conta a Molina como conheceu Elza, fala de sua participação numa passeata contra os integralistas e vai alinhavando os acontecimentos da época numa fala quase sempre nítida em detalhes. Assim como Molina, eu também me encantei pelo assunto. E, com este livro, aprendi mais sobre o passado revolucionário do país do que me deixam lembrar as aulas de História.

domingo, 17 de maio de 2009

Bíblia

Bíblia Sagrada
(Editora Vida, 2003)

Eu adoro as listas Top 10 do site do Guardian. Agora à noite, sem sono, resolvi xeretar no acervo de quase 300 listas sobre literatura já feitas pelo jornal. E uma delas - Top 10 books in which things end badly - feita pelo escritor Richard Gwyn, começa pela Bíblia, um livro que sempre rondou nossa vida (ou pelo menos a de quem, como eu, cresceu como católico) como exemplo edificante, moralista, os bons vão para o céu e os maus vão para o inferno, faça o bem e receberás o paraíso.

Gwyn fala especificamente do Novo Testamento - como é que pode terminar bem uma história em que o filho acaba sendo crucificado pela vontade do próprio pai? -, mas quando eu vi a lista me vieram primeiro à cabeça algumas histórias do Velho Testamento. Abraão, por exemplo, que é obrigado por seu deus a sacrificar o próprio filho (tá, ele não sacrifica, mas só porque um anjo o redime na última hora). Jó, que sofre um infortúnio atrás do outro. E Moisés, pra mim a pior delas, porque mostra a crueldade com que pode ser recompensada a fé. O cidadão é separado da família ainda bebê, rompe com a família de criação para libertar os escravos judeus do Egito, lidera o povo pelo deserto durante sei lá quantas décadas e quando, finalmente, consegue ver a terra prometida do alto de um morro, seu deus o avisa de que ele vai morrer antes de colocar os pés lá. É o supra-sumo da sacanagem. Concordo com a lista do Guardian: nada pode terminar pior.

domingo, 8 de março de 2009

A promessa do livreiro

A promessa do livreiro
John Dunning (Companhia das Letras, 2005)

Tinha um tronco de árvore no meio do caminho, meu pensamento vagava alegremente, não prestei atenção na calçada, tropecei e caí. E então descobri que nada como um tombo que avaria seu joelho e te obriga a passar o dia na cama, com a perna estendida, pra terminar rápido de ler um livro que caminhava a uma média de três páginas por dia - não por desinteresse, mas por falta de tempo e excesso de sono.

Foi a Cláudia, no comentário sobre a biografia de Richard Burton, quem me falou desse livro, o terceiro de uma série protagonizada por Cliff Janeway, um ex-detetive transformado em livreiro. A certa altura de 1987, parece que tudo acontece ao mesmo tempo na vida de Janeway: ele ganha uma bolada em dinheiro, reencontra um escritor pedante e um juiz boa praça, fica interessado em uma jovem advogada, compra uma edição rara de Burton, recebe a visita de uma velha senhora e conhece um casal pobre e simpático. Daí pra frente, alguém morre de morte morrida, outro alguém morre de morte matada, Janeway viaja a Baltimore, bate de frente com uma turma de bandidos valentões, segue para Charleston e por fim descobre uma parte desconhecida da vida de Burton.

Não falta ação. Não faltam personagens interessantes. O trecho em que John Dunning recria uma parte da viagem de Richard Burton pelo sul dos Estados Unidos é bacana. Mas faltou amarrar tudo de um jeito mais convincente, resolver os conflitos de uma maneira mais plausível. Tudo bem, é ficção. Mas Dunning vai muito bem até certo trecho e, então, derrapa. Mesmo assim - e isso não é pouca coisa -, fiquei com vontade de ler os outros Cliff Janeway. Quem sabe algum deles me deixe mais satisfeita.

domingo, 3 de agosto de 2008

84, Charing Cross Road

84, Charing Cross Road
Helene Hanff (Penguin, 1990)

Esse livro está meio escondido, num cantinho da minha estante. Eu não o li, e acho que nunca vou ler. Dentro dele há uma carta que eu li apenas uma vez, e que não pretendo ler de novo. Não sei bem por que manter esses vestígios do passado, esses registros de tortura. Talvez porque façam parte da minha história, e isso baste.

Quando estive em Londres, muitos anos antes de ganhar esse livro e receber essa carta, eu já conhecia a história real da amizade epistolar entre uma escritora americana e um livreiro inglês que nunca se conheceram pessoalmente. Subi e desci a Charing Cross várias vezes, sonhando inconsciente com um encontro literário arrebatador. Quando ele veio, durou pouco. E acabou de vez com a vontade que eu tinha de ler esse livro.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Feliz ano velho

Feliz ano velho
Marcelo Rubens Paiva (Objetiva, 2006)

Assim como quase todo adolescente na década de 80, li Feliz ano velho ali pelos 15, 16 anos. Bacana. Revoltado. Marcelo Rubens Paiva conta sua história de um jeito quase brutal - o garoto classe média que viu o pai sumir durante a ditadura para nunca mais aparecer, aproveitou sexo e drogas à vontade durante os anos de estudante na Unicamp e acabou tetraplégico depois de um acidente imbecil, ao mergulhar de cabeça num lago raso.

Não sei como o classificam críticos e teóricos da literatura, mas pra mim Feliz ano velho passa longe do chamado romance (autobiográfico) de formação, como o O encontro marcado de Fernando Sabino. E, assim como O encontro marcado, ficou datado demais. Apesar de não folhear o livro faz um bom tempo, não acredito que hoje suas descrições de sexo e do consumo de drogas, do hospital e dos tratamentos, causassem o mesmo impacto que causaram nos obscuros anos 80. Ainda assim, foi a melhor coisa que Marcelo Rubens Paiva escreveu até hoje - o livro seguinte, Blecaute, fez com que eu desistisse de toda a obra de ficção do autor.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

O chalaça

O chalaça
José Roberto Torero (Objetiva, 1999)

De um tempo pra cá isso tornou-se comum - Jô Soares deitou e rolou e até Ruy Castro embarcou no gênero -, mas O chalaça foi meio que pioneiro (saiu em 1994) entre os romances que misturam fatos e personagens reais a situações imaginárias. Neste caso, Dom Pedro I, a Marquesa de Santos e gente como Francisco Gomes da Silva, o chalaça do título, uma figura que existiu de verdade como conselheiro do Império e serviu como espécie de faz-tudo de Dom Pedro. Diz-se que cabia a ele, por exemplo, intermediar os encontros amorosos do imperador com a mulherada.

José Roberto Torero acertou a mão ao escrever um livro narrado em primeira pessoa pelo próprio chalaça, que numa espécie de diário conta histórias dos bastidores do poder, fala da vida amorosa do imperador e ainda encontra tempo para hilariantes tiradas filosóficas - como a teoria de que o fluxo do sangue durante o sexo influencia o comportamento masculino. Divertidíssimo. E, sabe-se lá se por alguma qualidade também histórica, entrou até para a lista de leituras obrigatórias de alguns vestibulares.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Meia-noite no jardim do bem e do mal

Meia-noite no jardim do bem e do mal
John Berendt (Objetiva, 1995)

Leia o livro, veja o filme, ouça o disco - eu fiz tudo isso com Meia-noite no jardim do bem e do mal, uma história muito menos assustadora do que o nome sugere, e por causa dela ainda morro de vontade de conhecer Savannah, nos Estados Unidos, cenário e parte importante da trama. O livro de John Berendt fala de um crime real com personagens reais: o assassinato do jovem Danny Hansford pelo milionário Jim Williams. Ao acompanhar o julgamento de Williams, Berendt vai descobrindo não só uma cidade peculiar, mas seus igualmente peculiares personagens. Um deles é um músico doidão. Outro, sua namorada cantora. E o melhor deles: Lady Chablis, um travesti que parece saber tudo sobre o que teria levado o ricaço a cometer o crime.

Tá certo que o blog é sobre leituras, mas não dá pra deixar de comentar o CD da trilha sonora, com músicas de Johnny Mercer - um compositor nascido e enterrado em Savannah. A versão do ator Kevin Spacey para That Old Black Magic é das melhores que já ouvi. E há pelo menos um excelente motivo para quem leu o livro querer também ver o filme dirigido por Clint Eastwood: o papel de Lady Chablis foi reservado para a própria, que manda muito bem no personagem que criou.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O professor e o demente

O professor e o demente
Simon Winchester (Record, 1999)

Ninguém nunca pára pra pensar no trabalhão que dá escrever um dicionário - que dirá o Oxford English Dictionary, a maior referência do idioma inglês no mundo, inicialmente publicado em 10 volumes depois de 70 anos de trabalho rigoroso. É basicamente essa história que Winchester conta em O professor e o demente - de onde surgiu a idéia para a primeira grande compilação de termos da língua inglesa, quem foram os homens que levaram o projeto à frente, em que obras se basearam, quais foram seus "antepassados". Parece chato e árduo; não é. Quem gosta de palavras vai adorar conhecer o método adotado pelo OED para começar a existir e seu criativo sistema de colaboradores voluntários. Acima de tudo, vai se surpreender com as duas figuras principais do livro, o professor (James Murray, o editor mais importante do OED) e o demente (William Chester Minor, médico do Exército americano, assassino confesso e interno de um sanatório judicial, um dos mais valiosos colaboradores do OED durante vinte anos).

Em memória a James Murray e William Minor, porém, a edição brasileira do livro poderia ter sido mais cuidadosa. Há inúmeros casos de parênteses e travessões deslocados, citações que começam e não terminam com aspas, erros crassos de pontuação. O projeto gráfico também não é dos melhores, mas isso acaba sendo o menor dos defeitos diante de tanto descaso com a preparação do texto. Pena. Obras sobre o Oxford English Dictionary merecem consideração e respeito minimamente compatíveis com sua importância para as letras em todo o mundo.