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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sobrescritos

Sobrescritos
Sérgio Rodrigues (Arquipélago, 2010)

Eu já conhecia a maioria dos Sobrescritos de Sérgio Rodrigues porque sou leitora fanática de seu blog sobre literatura, o Todoprosa, e foi lá que ele começou a publicar essas histórias curtas que falam de "escritores, excretores e outros insensatos", como diz o subtítulo do livro. E gostei ainda mais de ler os textos no papel.

Começa com meu preferido, "A blogueira e o estruturalista", emenda com outro que adoro, "Uma ilha, um livro", e segue até chegar a personagens como os escritores Jerominho, Lúcio Nareba (um blogueiro imbecil, protagonista de dois contos), João Pontes (fascinado por uma mulher gorda), Demóstenes Bastião (escritor em preto-e-branco, que depois aparece em uma carta ao bisneto) - muitos deles representantes dessa nossa época literária em que escrever bem nem sempre é o mais importante. Poderia ser triste. Mas, nas palavras de Sérgio Rodrigues, fica tudo muito divertido.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Dentro da noite

Dentro da noite
João do Rio (Antiqua, 2002)

Ainda não encontrei o João do Rio aqui em casa, então resolvi escrever a partir apenas de minhas lembranças. Ia começar dizendo que os dois melhores contos desse livro - acho que os dois melhores do autor - não servem para estômagos fracos. Mas que se danem os estômagos fracos: a morbidez é fundamental em Dentro da Noite e O bebê de tarlatana rosa. E quem torcer o nariz para comportamentos igualmente tortos vai perder literatura de primeira.

Na verdade, nem acho tão mórbido assim. O comportamento de Rodolfo em Dentro da noite pode não ser comum, mas está longe de ser inverossímil: pequenas crueldades podem tomar proporções impensáveis e causar um prazer que tanto o Marquês de Sade quanto o Nelson Rodrigues já exploraram muito melhor do que eu. Também há um certo sadismo - ou não vem dele o orgulho de Heitor ao contar a história? - em O bebê de tarlatana rosa, que no mínimo serve pra fazer a gente aprender uma palavra nova; tarlatana é o tipo de tecido usado na fantasia da moça que o narrador conhece num carnaval. E que, para horror e espanto dos que ouvem o relato, tem um traço bem mais marcante que sua roupinha cor-de-rosa. Rodolfo e Heitor chegam a ser cruéis. E igualmente maravilhosos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O fantasma de Canterville

O fantasma de Canterville
Oscar Wilde (L&PM, 2006)

Primeira surpresa: ao procurar por esse livro no site da Livraria Cultura para colocar um link no post, só encontrei essa edição dirigida, ou pelo menos assim acredito, ao público adulto. O restante é infanto-juvenil. Será que os textos são adaptados? Será que pré-adolescentes conseguem aproveitar a ironia de Wilde? Segunda surpresa: pelo jeito, a L&PM também foi a única editora a incluir mais contos no livro, como "O príncipe feliz", "O pescador e sua alma". E os outros? Onde ler, hoje, "O gigante egoísta", "O rouxinol e a rosa", "O aniversário da infanta"?

Na antiga edição que eu tinha, todos estavam reunidos sob o título O fantasma de Canterville e outras histórias, se bem me lembro. E então dava pra rir (com o próprio ...fantasma..., uma assombração que acaba assombrada pela família americana que vai morar na casa em que ele vive) e chorar (com o tristíssimo sacrifício inútil de "O rouxinol e a rosa") à vontade. Oscar Wilde é sempre uma inspiração.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Feliz ano novo

Feliz ano novo
Rubem Fonseca (Companhia das Letras, 1989)

De maneira geral, não me interesso muito por contos - mas abro uma exceção sempre que se trata de Rubem Fonseca, que considero muito melhor contista do que romancista (exceções: adoro Vastas emoções e pensamentos imperfeitos - só o nome já é lindo - e gosto muito de Bufo & Spallanzani). Feliz ano novo, lançado em 1975, é talvez seu maior clássico. Nele surgiram contos como o que dá título ao livro, um banho de crueza e violência ("brutalista", na definição de Alfredo Bosi para a obra de Fonseca), e o perturbador Passeio Noturno, mostra do que a neurose urbana pode fazer com qualquer cidadão.

Meus preferidos, entretanto, são outros dois: Corações solitários (tema para um outro post) e o genial Nau Catrineta, que vem como quem não quer nada e vai enredando o leitor numa trama macabra digna de Allan Poe. O conto começa num amanhecer, no dia em que José completa 21 anos. E desde o princípio é sombrio, enevoado, talvez pela descrição da mansão em que o garoto mora com as tias, talvez pelo medo de Ermê, a convidada do jantar de aniversário, e que teria na data participação maior do que podia imaginar. É conto pra reler sempre, prestando atenção nos detalhes: o frasco de cristal negro, os versos de Almeida Garret, a definição dos primogênitos da família, feita por tia Helena. Macabro, sim, talvez assustador - mérito de Rubem Fonseca, que em poucas páginas consegue deixar seu leitor incomodado e nada indiferente ao que acabou de ler.