sábado, 5 de agosto de 2017

Marilyn


Na madrugada de 5 de agosto de 1962, o sargento Jack Clemmons chegou ao número 12305 da Fifth Helena Drive, em Los Angeles, para atender a um caso de aparente suicídio. Eunice Murray, a governanta, e Ralph Greenson, o psiquiatra da vítima, haviam arrombado a porta do quarto principal e encontrado a dona da casa sem vida, ao lado de um frasco vazio de calmantes e outros catorze vidros de remédios variados. Cobriram o corpo com um lençol. Marilyn Monroe, estrela de 29 filmes de cinema, 36 anos completados dois meses antes e uma das mulheres mais desejadas do mundo, acabara de morrer.

Não há nada como a morte prematura para transformar alguém em mito. Foi assim com o ator James Dean (24 anos, em 1955), com a Princesa Diana (36, em 1997), com os músicos Jimi Hendrix e Janis Joplin (os dois aos 27, em 1970). Marilyn era linda, rica e, embora se confundisse com a loira apenas burra e sexy que se especializou em retratar na tela, talentosa. É lícito supor que, caso não tivesse ingerido a alta dose de sedativos que levou seu coração a parar, poderia ter feito carreira longa em Hollywood. Teria, hoje, 86 anos – a mesma idade da Rainha Elizabeth II e do cantor Tony Bennett, que não dão mostras de querer se aposentar tão cedo. Talvez chegasse ao status de Elizabeth Taylor (1932-2011), dona de dois Oscars de melhor atriz, que atuou até 2001, aos 69 anos. Ou trabalhasse até os 78, como Jane Russell (1921-2011), sua colega de elenco em Os homens preferem as loiras (1953).

Mas Marilyn morreu antes de ter tempo para se aposentar e, mais importante, antes que os paparazzi pudessem registrá-la velha e doente. Das milhares de imagens feitas a partir de 1946, quando a atriz participou de seu primeiro teste em Hollywood, não há uma só em que pareça desconfortável diante das câmeras – incluindo os nus, como o calendário de 1949, com ela ainda ruiva e de cabelos longos contra um fundo de veludo vermelho, e a sessão para Bert Stein, seis semanas antes da overdose, atrás de tecidos diáfanos que mais revelam do que escondem seu corpo. Ao contrário: ela sabia que mantinha com as lentes uma relação vantajosa. Estabeleceu vínculos fortes com fotógrafos como Eve Arnold, responsável por retratá-la nos bastidores de Os desajustados (1961), entre outras ocasiões, e Milton Greene, seu sócio na Marilyn Monroe Productions.

Consta que mais de 200 fotógrafos estavam presentes quando o diretor Billy Wilder tentou gravar, nas ruas de Nova York, a famosa cena de O pecado mora ao lado (1955) em que a personagem de Marilyn refresca-se do calor com o vento liberado pela tubulação do metrô. Por causa do barulho excessivo da plateia, a equipe teve de refazer tudo em estúdio. E a tomada que acabou entrando no corte final mostra bem menos da saia branca levantada e das pernas da atriz do que foi registrado pelas câmeras em Manhattan, numa imagem que ganhou o mundo como uma das mais emblemáticas da estrela.

Meio ingênua, meio maliciosa e dona de um sex appeal definitivo, a garota de nome desconhecido criada pelos roteiristas Wilder e George Axelrod passa o filme todo provocando pensamentos libidinosos no marido alheio, vivido por Tom Ewell. Da mesma forma que a Lorelei Lee de Os homens preferem as loiras (1953), a Pola Debevoise de Como agarrar um milionário (1953) e a Sugar Cane de Quanto mais quente melhor (1959), a modelo tontinha de O pecado mora ao lado sintetiza o tipo de mulher que a atriz mais interpretou, e que o público sempre teimou em misturar com a ideia que fazia dela na vida real – como se a Marilyn pessoa física fosse somente uma loira burra, ingênua e interesseira, que usava a beleza e o sexo para se dar bem.

Não que a atriz impedisse as pessoas de ter esse tipo de pensamento. Em My story, livro de memórias ditado para o roteirista Ben Hecht em 1954 e lançado apenas vinte anos depois, ela conta que descobriu seu poder de sedução aos 12 anos, quando, a caminho da escola, rasgou por acidente a blusa que usava e pegou emprestado, da irmã adotiva, um suéter menor que seu tamanho. “Eu já sabia há algum tempo que tinha seios bem-formados e não ligava para isso”, diz ela, no livro. “Mas os garotos da classe de matemática ficaram bem mais impressionados.” Ainda que sem intenções sexuais, tirar proveito do corpo foi a maneira que a pequena Marilyn, ainda chamada pelo nome de batismo, Norma Jeane, encontrou para ser aceita nos orfanatos e nas famílias adotivas que frequentou até o primeiro casamento, com Jim Dougherty, em 1942.

A atriz afirma, no livro, que nunca se prostituiu para ganhar dinheiro ou obter vantagens, nem mesmo nos tempos das vacas magérrimas de seu começo em Hollywood, já separada de Dougherty. Admite, no entanto, que aceitava almoços, jantares e alguns presentinhos dados por seus admiradores – da mesma forma que Holly Golightly, a garota de vida duvidosa encenada por Audrey Hepburn em Bonequinha de luxo (1961), papel que o autor da história, Truman Capote, queria porque queria que fosse da loira (acabou vencido pela vontade do estúdio Paramount).

Mas assim como algumas de suas principais personagens, que mostram grande esperteza ao conseguir fisgar um marido rico no fim dos filmes, Marilyn não era burra – ou, pelo menos, dava um duro danado para não ser. Matriculou-se em aulas de arte e literatura na UCLA (University of California at Los Angeles), estudou com Lee Strasberg pelo método de Stanislavski no Actors Studio de Nova York e não perdia a chance de ser fotografada com um livro nas mãos para mostrar o que estava lendo, de Hemingway aos clássicos russos. Mesmo assim, não era poupada em piadas e comentários sobre uma suposta lerdeza de pensamento. No musical para o cinema Pal Joey (1957), estrelado por Frank Sinatra, a personagem Vera Simpson, vivida por Rita Hayworth, altera os versos originais de uma música de Rodgers e Hart para zombar da inteligência da colega: “ela não apenas atua, dizem que também consegue pensar”.

Golpe maior, para Marilyn, foi descobrir o que o dramaturgo Arthur Miller, seu terceiro marido – o segundo casamento, com o jogador de beisebol Joe DiMaggio, acabou pela incapacidade dele em lidar com a fama dela – pensava de seu esforço para aprender. Numa temporada na Inglaterra, durante as filmagens de O príncipe encantado (1957), a atriz leu o diário deixado aberto por Miller e descobriu que ele não só tinha dúvidas a respeito da união como sentia vergonha dela diante dos amigos intelectuais. Durante o período em que ficaram juntos, até o final de 1960, Marilyn teria tentado se matar pelo menos duas vezes.

Cinquenta anos depois de sua morte, porém, e apesar do veredicto taxativo da polícia de Los Angeles, ninguém pode afirmar se ela cometeu mesmo suicídio ou se a overdose de calmantes naquela noite de agosto foi acidental. Não faltam teorias da conspiração para sugerir que ela tenha sido assassinada a mando da Máfia ou do ex-amante e presidente dos Estados Unidos, John Kennedy – para quem, em maio de 1962, num Madison Square Garden lotado, ela havia cantado o Parabéns a você mais famoso da História, usando um vestido que, de tão justo, precisou ser costurado em seu corpo. Viciada em calmantes, dependente de psicanálise e atormentada por uma sensação de desajuste que a perseguia desde a infância, quando foi obrigada a passar períodos em orfanatos e lares adotivos enquanto a mãe cumpria temporadas num sanatório para doentes mentais, a atriz tentava aliviar a tristeza escrevendo desabafos e anotando pensamentos em cadernos e papéis de carta dos hotéis onde se hospedava (a edição fac-similiar de boa parte desse material foi publicada em 2011 pela editora Tordesilhas, no livro Fragmentos). Em 1958, durante o casamento com Miller, começou a achar que estava envelhecendo.

Eu me vejo no espelho agora, sobrancelhas franzidas – se eu me encostar perto verei – o que não quero saber – tensão, tristeza, decepção, meus olhos azuis turvos, bochechas rosadas com capilares que parecem rios nos mapas – cabelo caindo como cobras. A boca me torna a mais triste, ao lado dos olhos mortos. Há uma linha escura entre os lábios no contorno de várias ondas de brisa numa tempestade turbulenta – ela diz não me beije, não me engane sou uma dançarina que não sabe dançar.

A mulher mais desejada do mundo não era feliz.





domingo, 18 de julho de 2010

O mistério do leão rampante

O mistério do leão rampante
Rodrigo Lacerda (Ateliê Editorial, 2005)

Tem uma coisa que me deixa com muita raiva: livro que termina antes de chegar ao final. Esta edição de O mistério do leão rampante tem 160 páginas - mas a história acaba na 107. É que, ao publicar um volume comemorativo pelos dez anos da obra, a editora incluiu nele um texto chamado Confissões de Fabrius Moore, continuação da trama original. Sem nenhum aviso na capa. Tá certo que sou responsável pela frustração de chegar ao fim da história sem chegar ao fim do livro: não vi, na folha de rosto nem no sumário, que o Confissões... também fazia parte da edição. Mas não costumo ler folha de rosto. Nem sumário.

Tinha vontade de ler O mistério... desde seu lançamento, em 1995, mas, por um motivo ou por outro, não li, o tempo passou e nunca mais encontrei a obra nas lojas. Então fiquei feliz em comprar (por menos da metade do preço, na feirinha da FFCLH, ano passado) esta edição elegante, capa dura, com ilustrações de Negreiros. Os livros têm, para mim, enorme apelo táctil e visual - que acaba sendo inócuo se o que vem dentro não for bacana e bem-escrito. Pois gostei, tanto da história cômica e meio nonsense quanto da narrativa irônica, que dá voz a Valfredo Margarelon. Filho adotivo do Conde de Shropshire, ele vem a público, em 1602, para defender sua prima Maria Margarelon da calúnia a ela imposta por "três elementos nocivos à ordem e aos bons costumes do reino inglês" (um deles, um tal de Guilherme Shakespeare). Mas o comportamento da prima, segundo Valfredo, teve razão de ser: sonhos constantes com o tal leão do título, que levaram a moça primeiro a um estado de apatia profunda e, depois, de amalucada obsessão.

domingo, 11 de julho de 2010

Elza, a garota

Elza, a garota
Sérgio Rodrigues (Nova Fronteira, 2009)

Narrar de forma interessante uma história quase desconhecida e tão mal-contada pelas fontes oficiais não é tarefa fácil. Pra começar, quase não há assunto: Elvira Cupello Calônio, a Elza do título, teve uma vida curta e desprovida de grandes emoções, a não ser pelo fim violento. Foi do interior de São Paulo para o Rio de Janeiro, apaixonou-se, levou uma vidinha comum e passou uns dias na prisão por causa de seu namorado, capturado pela polícia de Getúlio Vargas depois da Intentona Comunista de 1935. Solta pelas autoridades, buscou abrigo na casa de amigos. E morreu assassinada, aos 21 anos - ou seriam 16? -, tida como traidora da causa revolucionária.

Se a trama parece familiar, é porque guarda algumas semelhanças com a de outra figura histórica, essa tratada em best-seller, e fruto da mesma época: Olga Benário. Olga, mulher de Luiz Carlos Prestes, atuava no Partido Comunista soviético e, depois de presa, foi mandada para a morte, na Alemanha nazista, pelo governo brasileiro. Elza era amante de Miranda, secretário-geral do PC no Brasil, e uma série de suposições feitas por membros do partido no Rio de Janeiro - Prestes inclusive - levou a seu assassinato, cometido pelas mesmas pessoas em quem confiou quando saiu da prisão, no começo de 1936.

Sérgio Rodrigues usou de um expediente engenhoso para contar a vida de Elza: dividiu a trama em duas narrativas, uma real e outra fictícia. Na real, que aparece no começo de cada capítulo, conta de sua pesquisa em busca de informações sobre Elza, transcreve trechos do processo que condenou os assassinos, reproduz partes da correspondência de figuras-chave para o caso, como o próprio Luiz Carlos Prestes. A fictícia também trata da História, agora em maiúsculas, ao colocar em cena um velho doente que recorre a um jornalista para escrever suas memórias. Testemunha da revolução frustrada de 1935, Xerxes conta a Molina como conheceu Elza, fala de sua participação numa passeata contra os integralistas e vai alinhavando os acontecimentos da época numa fala quase sempre nítida em detalhes. Assim como Molina, eu também me encantei pelo assunto. E, com este livro, aprendi mais sobre o passado revolucionário do país do que me deixam lembrar as aulas de História.

A melhor seleção do mundo

A melhor seleção do mundo
Eugenio Goussinsky e João Carlos Assumpção (Brasiliense, 2010)

A melhor seleção do mundo é a Espanha, como se viu hoje, mas o livro trata mesmo é do time do Brasil. Com ilustrações muito simpáticas de Gustavo Rosa, os autores contam, para crianças, histórias do grupo brasileiro desde que ele surgiu oficialmente, em 1914, quando ganhou de 2 a 0 de um clube chamado Exeter City. Falam da evolução do uniforme canarinho, traçam um panorama da participação do país em Copas do Mundo e, principalmente, falam de jogadores que marcaram época, como Zizinho, Didi, Pelé, Garrincha, Taffarel, Romário e Ronaldo.

Este já é o segundo livro sobre futebol que meu amigo João Carlos Assumpção, o Janca, escreve em parceria com Eugenio Goussinsky. Em 1998, eles lançaram Deuses da Bola, pela editora DBA, também sobre a seleção brasileira. Para minha sorte, tenho os dois livros - e autografados.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Hotel stories

Hotel stories
Francisca Matteoli (Assouline, 2002)

A editora americana Assouline é quase uma prima da alemã Taschen: ambas publicam volumes artísticos, feitos do melhor papel disponível, com uma seleção de temas e um cuidado gráfico pouco vistos por aí. São livros geralmente caros - embora de vez em quando eu consiga encontrar algumas pechinchas, como essa, e já tenha ganhado de presente outras obras da Taschen- e há muitos exemplares feitos para colecionadores, com preços que passam fácil dos US$ 300 e chegam a mais de US$ 1000.

Por motivos profissionais - e um preço bem mais razoável -, comprei em Miami este Hotel stories, certa de que estava adquirindo um livro bonito para me distrair com as situações vividas por uma série de celebridades em hotéis famosos ao redor do mundo. Bem, o livro é bonito. E as histórias de gente como Truman Capote (e suas festas no Plaza de Nova York), Dorothy Parker (e a Round Table no Algonquin), Agatha Christie (e um mistério envolvendo o hotel Pera Palace, em Istambul), Marilyn Monroe e Yves Montand (e o caso que tiveram no Beverly Hills Hotel, em Los Angeles, durante as filmagens de Adorável pecadora) são mesmo deliciosas. Mas, desta vez, a tentativa artística da Assouline não deu muito certo - não, pelo menos, para mim. Talvez na intenção de deixar as páginas com cara de antigas, já que muitas têm fotos de época, a fonte tipográfica usada no livro tem umas falhas, propositais, que tornam a leitura cansativa. Também senti falta de legendas nas imagens, pra saber quem eram os retratados, que partes do hotel eram aquelas ou quando as fotos foram feitas. Vai pra conta da minha chatice.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

I love your style

I love your style
Amanda Brooks (itbooks/HarperCollins, 2009)

Pelo preço dos livros no Brasil, esta edição americana, impressa num papel bacana e cheia de boas fotos, nem está tão cara: R$ 48,58, um equivalente razoável aos US$ 19,99 originais (sem contar os impostos que se pagam por absolutamente qualquer coisa comprada nos Estados Unidos, e que variam de acordo com o estado; são 7% em Miami). Mas vale, mesmo, por ter sido um dos melhores livros sobre estilo que li nos últimos tempos: é, certamente, um título que eu recomendaria a quem está começando a se interessar pelo assunto, ao lado de The little black book of style, The one hundred e Esquadrão da Moda.

Amanda Brooks, a autora, é uma consultora de moda bem-nascida e de extremo bom gosto que não tem pudor em escrever sobre suas preferências, ainda que polêmicas ("Acho ok usar casacos de pele, mas não estou aqui para sugerir que você deva fazê-lo"), nem de incrementar o livro com várias fotos suas, mesmo que em momentos de vergonha fashion - a galeria da página 24 me fez dar boas risadas ao me lembrar de alguns desastres saídos do meu próprio armário no passado. Mas o melhor de tudo é que, como todo bom livro do gênero, ela não dita regras, e sim afirma, o tempo todo, que cada mulher tem um estilo particular e que o importante, mesmo, é descobri-lo para que seja cada vez mais valorizado.

Ainda assim, Amanda Brooks dá umas diretrizes para quem é perdido no assunto ou para quem quer relembrar alguns conceitos. Começa por dividir o livro em capítulos sobre os estilos clássico, bohemian, minimal, high fashion, street e eclético - acho que sou uma mistura do eclético com o clássico, embora aqui e ali use umas flores exageradas na lapela e capriche nos sapatos diferentes; são marcas do meu estilo. No fim, fala sobre diversos jeitos de comprar: roupas básicas, em brechós, em lojas de design e redes de marcas mais populares. Tudo isso ilustrado por centenas de fotos, preto-e-branco e coloridas, em que aparecem, além dela própria, gente como Jacqueline Kennedy, Sofia Coppola, Bianca Jagger, Chloë Sevigny, Catherine Deneuve, Audrey Hepburn, Agyness Deyn, Kate Moss, Angelina Jolie e tantas outras. Não porque elas são lindas ou magérrimas ou ricas, mas porque têm estilo, porque sabem se vestir de acordo com a própria personalidade. Tem mais: ao final de cada capítulo há uma série de indicações inspiradoras de livros e filmes.

Quando comecei a ler o livro e vi a quantidade de fotos da autora, achei que ia encontrar mais um daqueles volumes feitos só para afagar o ego de quem escreve - e, por consequência, achei que ia detestar a leitura. Ao contrário, adorei: é preciso uma autoestima enorme, o que é bem diferente de um ego inflado, para colocar-se no lugar de outras mulheres e admitir que isso pode ficar bem em você, mas não fica em mim. É o que faz Amanda Brooks, para sorte de quem sabe que vestir-se de acordo só faz aumentar o prazer da gente ser a gente mesma.

domingo, 20 de junho de 2010

Solar

Solar
Ian McEwan (Jonathan Cape, 2010)

Tenho muita raiva de mim mesma quando começo a ler qualquer coisa sobre alguma obra que está na minha fila de leituras. Eu já sabia que compraria o novo McEwan, qualquer que fosse o assunto - por que, então, conferir o que foi escrito sobre ele no lançamento britânico, no lançamento americano? Pior: até consegui passar batido sobre as críticas, mas não resisti a uma sinopse. E, por causa dela, coloquei o peso de Solar num acontecimento que até tem importância para a trama, mas que não é, nem de longe (como eu imaginava), o fio condutor da história. Paciência, azar. Quem sabe agora eu aprendo.

Comecei a ler Solar num fim de semana de trabalho em São Roque, continuei em Miami e terminei aqui em São Paulo, em meio a uma agenda de compromissos muito apertada e ao tratamento para uma infecção no dente que me faz sentir muita dor e tomar tanto analgésico que faria inveja ao Doutor House. Escrevo tudo isso pra tentar entender por que eu não me apaixonei pelo livro - desde Reparação, eu meio que me sinto obrigada a me apaixonar por qualquer McEwan -, embora reconheça nele a prosa sensacional do escritor e tenha dado muita risada em alguns momentos de ironia inteligente e intensa.

O livro vale principalmente por Michael Beard, o personagem principal, um sujeito detestável que vive das honras amealhadas por um prêmio Nobel de Física, conquistado algumas décadas atrás. No ano 2000, Beard está às voltas com o fim de seu quinto casamento, um emprego conveniente e inócuo e a ameaça do aquecimento global. Mas falar mais é fazer como a sinopse que eu li, e tirar a graça da história.

Anthropologie

Anthropologie
Washington DC/Miami, Estados Unidos

A Anthropologie está longe de ser uma livraria: é, isso sim, uma deliciosa e feminina loja de roupas bacanas, acessórios mais bacanas ainda, bolsas, sapatos, coisinhas delicadas para a casa, bobeiras interessantes em geral e... livros, numa seleção caprichada difícil de encontrar até em grandes redes americanas. Já faz tempo que, quando vou aos Estados Unidos e sei que há uma Anthropologie por perto, reservo um pouco da minha cota de leitura para as obras que vou encontrar lá.

Quando estive na loja de Miami, em maio, havia uma coleção de clássicos da literatura - Emma, Alice, O morro dos ventos uivantes, A odisseia - lindamente encadernada em tecido. Diversos livros sobre decoração e jardinagem. Uma seção de obras culinárias que só deixei passar por medo da mala ficar muito pesada. Guias da Taschen. O Questionário Proust da Vanity Fair. Títulos infantis "interativos": para colorir, descobrir, pensar. Alguns livros sobre estilo que não resisti em comprar. Isso fora os cadernos, bloquinhos, cartões e papeis de carta, tudo tão convidativo que dá vontade de sair escrevendo à mão ali mesmo...

Beauty in bloom

Beauty in bloom
Natalie Bloom (Allen & Unwin, 2008)

Este livro é como aquelas propagandas de perfume importado exibidas nos canais da TV a cabo: lindas e sem importância nenhuma. Mas tenho um fraco por livros lindos, ainda mais quando tratam de pequenos prazeres, como sapatos, maquiagem, elegância, gente bonita. Pena que a relevância, aqui, seja realmente zero, principalmente pra quem, como eu, está tarimbada na leitura de obras mais consistentes a respeito de estilo.

A autora australiana, eu só soube durante a leitura, é dona de uma marca de cosméticos batizada com seu sobrenome - daí o trocadilho no título. Ou seja: tinha tudo pra dar dicas bacanas de cuidados com a pele, o corpo, já que é disso que se trata. Mas, embora ela não fique o tempo todo fazendo propaganda de sua empresa, o que já é boa coisa, pouco se aproveita de seus textos óbvios e cheios de clichês, na linha "beleza é indefinível, nada que se possa comprar", "viva rodeada de tudo o que você ama" ou "atitude positiva é sua luz interior; deixe que ela brilhe". Acho que só gostei de saber como são feitas flores de origami e de aprender um pouco sobre as diferentes texturas de maquiagem (matte, sheer, shimmer, satin, gloss). Ok, é fútil, mas eu já sabia desde o começo que era uma leitura fútil. E, pelo menos, o livro é bonito.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Jamie's America

Jamie's America
Jamie Oliver (Penguin/Michael Joseph, 2009)

Adoraria ser daquelas pessoas que perdem o apetite diante de qualquer contratempo - briga com o namorado, com o chefe, baixo-astral. Comigo, acontece o contrário: comer é, sim, muito bom, e nessas horas ainda serve como consolo, compensação. Aumento de peso, colesterol mais alto? Nem lembro que isso existe. Claro, depois há um preço a pagar. Mas quando o ânimo desaba e a tristeza se instala, quase nada ajuda tanto quanto uma boa comida de alma.

Às vezes eu nem parto pra cozinha, como seria natural, e me contento lendo livros de receitas. Esse Jamie Oliver, que acabou de sair em português, foi uma de minhas últimas aquisições. Nele, o chef-escritor percorre seis regiões/cidades americanas - Nova York, Louisiana, Arizona, Los Angeles, Georgia e Wildwest - para ver como as pessoas comem e dar suas versões de pratos clássicos, como a salada Waldorf, criada no hotel Waldorf-Astoria, em Nova York (ele usa iogurte em lugar da maionese).

Suas aventuras pela Louisiana incluem até uma receita de torresmo, os pork cracklings, além de jambalaya e gumbo, clássicos da cozinha cajun. No Arizona, o clima tem um pezinho no México, com chillis e sopa de tortilla, e na cozinha dos índios Navajo. Fiquei com vontade de preparar as panquecas de maçã que ele fez para os cowboys com quem viajou pelo Wyoming (um daqueles estados americanos que nunca vêm à cabeça quando a gente tem insônia e tenta se lembrar de cada um dos 50, até o sono chegar) e as costelinhas de porco da Georgia.

Como todo livro de Jamie Oliver, o projeto gráfico é uma atração em si: cheio de colagens, imagens das pessoas locais, um monte de fotos do próprio chef e de cada um dos pratos. Minha preferida? O frango assado, "sentado" sobre uma garrafa de cerveja Budweiser. Divertido - e apetitoso.

Sobrescritos

Sobrescritos
Sérgio Rodrigues (Arquipélago, 2010)

Eu já conhecia a maioria dos Sobrescritos de Sérgio Rodrigues porque sou leitora fanática de seu blog sobre literatura, o Todoprosa, e foi lá que ele começou a publicar essas histórias curtas que falam de "escritores, excretores e outros insensatos", como diz o subtítulo do livro. E gostei ainda mais de ler os textos no papel.

Começa com meu preferido, "A blogueira e o estruturalista", emenda com outro que adoro, "Uma ilha, um livro", e segue até chegar a personagens como os escritores Jerominho, Lúcio Nareba (um blogueiro imbecil, protagonista de dois contos), João Pontes (fascinado por uma mulher gorda), Demóstenes Bastião (escritor em preto-e-branco, que depois aparece em uma carta ao bisneto) - muitos deles representantes dessa nossa época literária em que escrever bem nem sempre é o mais importante. Poderia ser triste. Mas, nas palavras de Sérgio Rodrigues, fica tudo muito divertido.

sábado, 5 de junho de 2010

Lit Wit

Lit Wit
Richard Lederer

Isto não é um livro, mas fala deles e de escritores, então merece estar aqui - até porque, adorei. Trata-se de um jogo, uma trivia literária, com 100 fichas divididas em quatro temas: textos, autores, títulos e gêneros. Em cada uma, perguntas variadas em diversos graus de dificuldade. Fã de jogos intelectuais que sou, me diverti pra caramba tentando adivinhar, ou me lembrar, das respostas. Mas memória não é, definitivamente, o meu forte...

Eis uma pequena amostra do que pode ser encontrado no joguinho, que traz as fichas organizadas numa simpática caixinha (comprei na Books & Books, que, além de livros, tem boas surpresas, como esta):

* Use the following anedocte to identify the author: "As a young cadet, this American writer was expelled from West Point for reporting to a march wearing nothing but white gloves."

* Why did George Orwell choose Nineteen Eighty-Four as the title and year of his novel?

* Identify the titles and name the author of the literary work, quoted below, that end well: "That might be the subject of a new story - but our present story is ended."

The Bookstore in the Grove

The Bookstore in the Grove
Miami, Estados Unidos

Fica pertinho do CocoWalk, um shopping meio sem graça no agradável bairro de Coconut Grove e, pelo menos enquanto eu estive lá, o maior movimento era de pais com crianças pequenas, atraídos pela boa parte infantil da loja. Os vendedores também parecem super solícitos: eu presenciei a paciência de uma delas com um casal que queria encontrar um presente pro sobrinho, na linha Crepúsculo, mas não aceitava nenhuma sugestão da moça. No fim, acabaram levando alguma coisa na linha vampiresca.

O bacana é que, assim como a Books & Books, esta loja também se orgulha de ser independente - ou seja, vende livros de editoras pequenas, muitas delas locais, ao lado de best-sellers. Vale gastar um tempo nas prateleiras de livros de receitas e de arte. Nos fundos, fica o café. E pena que eu já tinha almoçado quando visitei a livraria, porque o cheiro do brownie de chocolate era matador.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Doutor Pasavento

Doutor Pasavento
Enrique Vila-Matas (CosacNaify, 2010)

Só existe um homem no mundo, e ele não faz mais parte da minha vida, capaz de entender a idolatria que mantenho por Enrique Vila-Matas. Era meu duplo. Não sinto exatamente saudade - encontrar o duplo pode trazer muita alegria e muito infortúnio, como disse hoje uma amiga -, mas de vez em quando o vazio se manifesta de maneira mais forte por eu saber que não existe mais ninguém com quem conversar sobre, por exemplo, Doutor Pasavento; não, pelo menos, do jeito como eu conversava com ele.

"Possibilidades" era nossa palavra favorita - assim mesmo, no plural. E, neste livro, Vila-Matas trata de uma possibilidade que me é particularmente sedutora: a de desaparecer. Que não é morrer, mas desaparecer apenas, sumir no mundo, fugir da própria insignificância para saber se alguém dá pela falta da gente. Agatha Christie fez isso, como lembra o Doutor Pasavento no livro. (Sim, deram pela falta dela.)

Como todos os meus Vila-Matas, este também está todo marcado, com períodos inteiros sublinhados a lápis, anotações nas margens - será que, daqui a um tempo, vou me lembrar o que quis dizer com cada comentário? Acredito que sim. Diz a crítica que Vila-Matas é um "escritor de escritores" e, embora eu esteja longe de praticar o ofício, o tema é importantíssimo para mim. Falar da escrita, pensar sobre a escrita, tentar viver a escrita. Desaparecer para escrever e escrever para desaparecer.

Books & Books

Miami, Estados Unidos

Estive recentemente em Miami, por motivos profissionais, e o que eu mais queria era dar de cara com uma Borders ou uma Barnes & Noble. Mas calhou de eu encontrar primeiro, na Lincoln Road, em Miami Beach, uma filial da Books & Books, a rede independente de livrarias da cidade (a matriz fica em Coral Gables, onde acabei indo num outro dia).

Adorei. Logo na entrada da loja da Lincoln Road há um café, que serve um ótimo chá de framboesa gelado (fazia um calor senegalês) e um bom sanduíche de berinjela com queijo de cabra. Alimentado o corpo, alimenta-se, então, o espírito. São várias salas forradas de estantes e divididas em temas que não fogem ao que se encontra nas grandes redes, mas com uma diferença fundamental: além do catálogo das principais editoras americanas, e algumas europeias, a Books & Books vende muitos títulos, digamos, não tão comerciais. Diversas empresas pequenas, que provavalmente não encontrariam espaço nobre em outras livrarias, têm seus volumes bem expostos, o que é ótimo principalmente para quem, como eu, procurava livros de um assunto específico. Encontrei vários, muitos de séries que não conhecia.

Lá dentro, o silêncio é a trilha sonora: quem se senta nos bancos disponíveis em cada sala, para folhear o que for com sossego, exibe um respeito quase que de biblioteca. Uma pergunta aqui, outra ali, logo atendidas pelos funcionários. E a sensação de que livros, assim como santos, também merecem seus templos.

sábado, 17 de abril de 2010

Fico à espera

Fico à espera
Davide Cali e Serge Bloch (CosacNaify, 2007)

Traços delicados e um fio de linha vermelha: basta isso para formar as ilustrações que acompanham as frases muito simples deste livro, reveladoras de desejos prosaicos, mas nem por isso pouco intensos. "Fico à espera... de crescer... de que a chuva pare... do amor... do fim da guerra... de uma carta", dizem algumas páginas.

Creio que, na teoria, este seja um livro infantil - mas daquele tipo que a gente finge comprar pra sobrinha e na verdade compra pra gente, pra abrir de vez em quando e refletir sobre o que desejamos, o que esperamos. Como eu, hoje: à espera de melhorar, de voltar a acreditar nas pessoas, de que o justo prevaleça sobre o injusto (e de que eu entenda o que é justo ou injusto), de que passe a dor nas costas, de um dia com frio e sol, de força de vontade e, principalmente, de não desanimar.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

San Paolo

San Paolo - Desenhos e prosa da cidade
Vincenzo Scarpellini (Publifolha, 2009)

Volto meio embriagada do aniversário de uma amiga. Uma amiga recente, mas que conquistou um lugar grande e especial na minha vida, uma amiga que me faz ter inveja das amigas antigas dela, que aproveitaram sua presença por mais tempo do que eu.

Foi este um dos meus presentes, porque sabia que ela queria o livro há tempos. Trata-se de uma coletânea dos desenhos e textos que Vincenzo Sacarpellini, morto precocemente aos 41 anos, por causa de um câncer, publicou na Folha de S. Paulo, desenhos e textos tão delicados sobre lugares diversos da feia cidade de São Paulo. A Galeria do Rock, a Praça da Sé, o aeroporto de Congonhas - um lugar que, não sei por quê, adoro, ainda hoje, mesmo com o trânsito absurdo para chegar lá e a superlotação de aviões. A feia São Paulo, que no traço e nas palavras de Scarpellini, consegue ficar um pouco mais bonita.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

The devil and Sherlock Holmes

The devil and Sherlock Holmes
David Grann (Doubleday, 2010)

Ao lado da minha cama, no chão, existe uma pasta com diversas matérias publicadas pela Vanity Fair no último ano: como não consigo ler tudo quando a revista chega (e é a única que eu assino), tiro as páginas com os textos que me interessam e guardo tudo para uma sonhada leitura futura. Pois com as matérias deste livro - são doze, nove delas editadas originalmente na The New Yorker - aconteceu o contrário: li tudo de uma vez, sei lá se porque em livro (na verdade, em Kindle) é melhor, sei lá se porque os temas são interessantes, ou se porque David Grann escreve muito bem.

A primeira matéria trata da morte suspeita de um inglês especialista em Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes. Depois vêm textos sobre um oceanógrafo que dedica a vida a encontrar uma lula-gigante, sobre um francês "especialista" em assumir outras identidades, um bombeiro que não se lembra do que aconteceu no 11 de setembro, o julgamento do que foi tida como a mais violenta gangue dentro das prisões americanas e outros, de temas tão variados. Meus preferidos: a história de um escritor que narra, em seu romance de estreia, um crime até então aparentemente insolúvel, acontecido na Polônia (e o caminho que levaram os policiais até ele) e a última reportagem, sobre o haitiano que comandava uma milícia do tipo esquadrão da morte, no Haiti, e ao mesmo tempo tinha ligações com a CIA.

Mais do que excelentes trabalhos de jornalismo investigativo, as histórias reunidas por Grann neste livro são, para mim, pequenas peças literárias. Não se trata do "new journalism" de Truman Capote e John Hersey, ou dos escritos de Joel Silveira, no Brasil. Temas interessantes, trabalho competente e muito bem-escrito; isso basta.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Paris é uma festa

Paris é uma festa
Ernest Hemingway (Bertrand Brasil, 2006)

Ando apaixonada pela Paris do início do século 20 e, se alguém me perguntasse, hoje, onde e em que época hipotética eu gostaria de ter vivido, diria que seria nessa Paris de Picasso e Matisse e Hemingway e Fitzgerald e Gertrude Stein (embora não me falte a certeza de que eu pertenço mesmo ao aqui e ao agora, e que qualquer outra época idealizada - o Rio de Janeiro dos anos 50-60, a Nova York da Round Table, a São Paulo modernista - seria de um sofrimento enorme pra mim). Mas no começo do século 20 Paris era, sim, uma festa, e todo mundo conhecia todo mundo, e se encontrava nos cafés, e o dinheiro era curto mas dava até pra passar férias na Espanha, de vez em quando na Suíça.

É o que conta Ernest Hemingway, que chegou à cidade depois de ter sido motorista de ambulância na Primeira Guerra Mundial e que, em Paris, deu início à carreira de escritor enquanto era correspondente de um jornal canadense. Morava com mulher e filho num apartamentozinho na margem esquerda do Sena e alugava um quarto num hotel, ali perto, para poder trabalhar em paz. Logo que chegou, ficou conhecendo Gertrude Stein, com quem manteve uma relação intensa de amizade até que um fato velado, ou mal-explicado (pelo menos no livro), fez com que se afastassem - acho que teve a ver com a homossexualidade da escritora.

Assim, entre confissões das apostas feitas no jóquei (e que levaram um bom dinheiro para o ralo), o excelente relato de seu método de trabalho e os planos de viagem para Pamplona, Madri e Valência, Hemingway vai falando não só da vida, mas de amigos como Sylvia Beach, dona da livraria Shakespeare and Company, Ford Madox Ford ("I always held my breath when I was near him in a closed room"), Ezra Pound e, principalmente, F. Scott Fitzgerald, com quem Hemingway empreendeu uma viagem das mais bizarras.

Paris é uma festa foi organizado pela última mulher do escritor e publicado em 1964, depois de sua morte - Hemingway se matou com um tiro, em 1961. Ano passado, talvez um pouco antes, um de seus netos relançou o livro, dessa vez com mudanças na ordem dos capítulos e com o acréscimo de informações que, segundo ele, ajudariam a melhorar a imagem de sua avó, a segunda mulher do escritor, que aparece no fim do volume. Eu não vi nada de absurdo na maneira como o autor tratou do fim de seu casamento; achei até elegante. E, de qualquer modo, o livro que Hemingway imaginou me parece bem melhor do que qualquer variação que tenha vindo depois dele.

domingo, 4 de abril de 2010

Padre Cícero

Padre Cícero - Poder, fé e guerra no sertão
Lira Neto (Companhia das Letras, 2009)

Biografia boa é assim: imparcial. Padre Cícero foi santo? Foi enganador? Cabe ao leitor tirar suas conclusões, a partir do relato isento que Lira Neto faz da vida do religioso cearense. Tenho muita curiosidade por tipos que despertam tamanha devoção popular - mas admito que, na maioria das vezes, alimento uma impressão preconceituosa sobre eles: a manipulação fácil da fé alheia, o embuste, o interesse das pessoas que rodeiam o (às vezes, inocente) venerando.

Não acredito em milagres - não, pelo menos, no milagre atribuído ao padre, o de fazer hóstias se transformarem em sangue. Pelo que conta Lira Neto, dá pra ver que a história toda foi muito nebulosa, e muito envolvida na politicagem do Ceará de fins do século 19, praticamente uma terra de ninguém, onde prevalecia o coronelismo e a palavra do bispo tinha poder de lei. Diante desse panorama, é inegável a coragem de Padre Cícero, que peitou a todos em nome não só de sua crença, mas da vontade de ajudar o povo da região. Minha dúvida maior, mesmo depois de ter lido a biografia, é saber até que ponto ele foi manipulador, mesmo que no bom sentido - para conseguir, por exemplo, a criação do município de Juazeiro, ou na hora de aceitar bens e dinheiro que, depois de sua morte, foram doados à Igreja.

Entre as coisas que eu não sabia a respeito de Padre Cícero está o desconhecimento, dele, em relação à sua excomunhão - morreu sem saber que tinha sido banido da Igreja, ainda que, posteriormente, o processo tenha se revertido. Também era inédita, pra mim, a viagem dele à Itália, para pedir, se possível ao próprio Papa, que seu afastamento das funções de sacerdote fosse anulado. De resto, o livro é recheado de boas histórias, como a amizade com dois tipos mais que suspeitos da política local, as armações do clero cearense, o roubo dos paninhos que provariam o milagre das hóstias sangrentas. E Lira Neto ainda trata, num ótimo prefácio, do processo que a Igreja Católica instaurou, recentemente (por intermédio do hoje papa Bento XVI), para reabilitar um sacerdote que, por mais polêmico, pode ser muito útil na tentativa de reverter a cada vez maior perda de fiéis, país afora.