domingo, 11 de janeiro de 2009

O primo Basílio

O primo Basílio
Eça de Queirós (Ateliê Editorial, 1998)

Conhecer de antemão o desfecho da história faz diminuir o prazer da leitura? Tenho dúvidas. Por mais que eu saiba quem é o culpado, releio com gosto até romances policias - meus Agatha Christie preferidos, por exemplo. Mas ontem eu me lembrei que não terminei Anna Karenina porque me contaram o triste fim da moça antes do tempo. Ok, talvez fosse obrigação minha saber; é um clássico, afinal. Ou talvez eu não estivesse mesmo gostando da história.

Também não conhecia o final de O primo Basílio e passei o tempo todo torcendo por Luísa. Creio que vai ser sempre assim, ainda que agora eu já saiba o que acontece com os personagens - só pela conversa final, pra mim Basílio sempre estará entre os homens mais desprezíveis da literatura. Esse fenômeno é engraçado. Toda vez que releio Os Maias, por mais que eu conheça a história de trás pra frente, torço por uma revelação que, afinal, permita a Carlos e Maria Eduarda ficarem juntos. Li a Ilíada já sabendo que Aquiles morre e Tróia perde a guerra, e mesmo assim sofri pra caramba com a morte do herói e passei o tempo todo em cima do mundo, ora querendo a vitória dos gregos, ora dos troianos. Tem gente que não entende as releituras; já ouvi diversas vezes coisas do tipo "mas eu já li, que perda de tempo ler de novo". Imagino o que esse povo diria ao saber que não só eu releio como ainda torço e sofro tudo outra vez.

4 comentários:

Rogério/Ruy disse...

Quantos posts, que bom! Gostei desse ato falho, "em cima do mundo". (= Acho que conhecer o desfecho não diminui o prazer da leitura, exceto nos casos em que o "whodunit" é o grande atrativo. E eu é que não entendo essa gente que não entende as releituras. O Nelson Rodrigues (sempre este homem fatal) dizia: "A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia" (e exemplificava afirmando que só tinha lido Dostoiévski, o que aliás não era verdade (=).

Beijo!

Isabel Pinheiro disse...

Vou manter esse ato falho - imagina o privilégio de ver a Guerra de Tróia lá do Olimpo. Não é pra qualquer um, não. :-) Bjs

Arnaldo disse...

Sou pouco dado a releituras, mas há dois livros que já reli mais de uma vez. Cem anos de Solidão e Dom Casmurro. Li os dois, pela primeira vez, quando tinha 20 anos e depois, quando fiz 30, os reli. Achei de relê-los aos 40 só pra manter a tradição. Agora, prestes a completar 50 anos anseio pelo momento de relê-los, novamente.

É impressionante como a releitura nos proporciona novas esperiências, novas impressões. o problema é que tem tanta coisa que ainda quero ler e aquela convição tão forte que não conseguirei ler tudo, que acabo ficando até angustiado com isso.

Isabel Pinheiro disse...

Arnaldo, que bela experiência! "Cem anos de solidão" eu vivo ensaiando reler, até comprei uma edição mais nova. São belos livros, os dois.
E pra acabar com essa angústia do tempo, eu resolvi não pensar mais nela. Paciência! :-)

Um abraço, Isabel