quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Como falar dos livros que não lemos?

Como falar dos livros que não lemos?
Pierre Bayard (Objetiva, 2008)

Confesso: não li a maioria dos clássicos. Não li os russos, não li Dom Quixote nem Moby Dick. Proust, Balzac, não li Ulisses nem A divina comédia, Guimarães Rosa eu não entendo, Hemingway acho um chato e Shakespeare não me atrai porque não gosto de ler teatro. E só pretendo encarar esses e vários outros autores e obras consagradas se surgir uma vontade incontrolável, eu é que não quero ler por obrigação (nem pro vestibular fiz isso), só porque pega bem, porque é falha de currículo - ou caráter.

Mesmo assim, como mostra Pierre Bayard - que eu só li por cima, na diagonal -, é muito fácil falar de todos eles, Balzac, Hemingway, A divina comédia. Tenho, eu e todo mundo que se interessa de verdade por literatura, as informações básicas sobre todas essas obras. Já descobri como morre Anna Karenina, conheço a primeira frase de Moby Dick, sei em que dia e em que mês se dá a ação de Ulisses e posso falar longamente sobre o significado das madeleines na obra de Proust. Não que haja alguma vantagem nisso; chegar às linhas quase finais do Tolstói pra ver como ele mata sua heroína deve ser certamente mais prazeroso do que saber do suicídio da moça num ensaio sobre a obra.

Quanto aos clássicos, portanto, "enganar" (se é que é essa a palavra) não tem segredo algum. Muito mais divertido é enganar alguém que te empresta um livro que você não pediu e não está a fim de ler, e que toda hora pergunta o que você está achando da história. Por sorte, minha conhecida falta de memória ajuda. Mas a técnica é muito mais refinada do que a simples amnésia. Numa das poucas vezes em que eu tive testemunha do ato de mentir-pra-não-ficar-chato, um querido editor que trabalha comigo ficou boquiaberto com a cara-de-pau - e com a técnica - que usei pra falar de um livro que nosso chefe me emprestou. Só não vou contá-la aqui pra não correr o risco de alguém patentear em meu lugar. :-)

13 comentários:

Aguinaldo disse...

Se eu fosse você eu leria o Proust. O pior que pode acontecer é você gostar.

Isabel Pinheiro disse...

Um dia eu leio, Aguinaldo... Já me concedi um prazo até os 50 anos para ler os russos. E ainda falta um tempinho até lá! :-) Abraço

Rogério/Ruy disse...

Concordo com o Aguinaldo e vou além: acho que você está perdendo coisas bacanas nesses "clássicos intocados", não só no Proust. O que, claro, não tem nada a ver com "fazer um bom currículo" -deixemos isso aos enganadores.

Quanto à pessoa que empresta o livro que você não pediu e não está a fim de ler -puxa vida, custa tanto assim simplesmente dizer "não"? (= Beijo!

Isabel Pinheiro disse...

Uau, você não morre tão cedo: falei de você hoje no almoço com um amigo que também trabalhou nessa fábrica de doidos aí... :-)

Claro que estou perdendo coisas bacanas. É como eu escrevi: deve ser muito melhor descobrir no Tolstói o que acontece com a pobre AK. Só quero respeitar o meu tempo de ler tudo o que outros consideram "obrigação". Besos

Arnaldo disse...

Acho que não se deve ler os clássicos por obrigação, mas também não se deve evitar de lê-los por birra.

Eu, de vez em quando me aventuro num deles e quase sempre extraio muito prazer. Nem sempre.

Tenho um problema com Crime e Castigo, por exemplo. Já tentei muitas vezes e sempre travo. Na última vez, uma amiga me sugeriu uma edição da 34, cuja tradução foi super premiada, coisa e tal. Náo passei dos primeiros 20% da obra. Desisti. Ao menos por enquanto!

Isabel Pinheiro disse...

Ih, eu definitivamente não me expressei direito. :-) Não tenho nada, nem birra, contra os clássicos. Fosse assim eu não teria lido Machado, Pessoa, a Ilíada, o Paraíso Perdido, sei lá quantos outros.

Eu apenas não me forcei a ler o que não estava a fim. Também comecei Guerra e Paz. E Anna Karenina, como já disse em outro post. E Dom Quixote. A Divina Comédia, li até uns quatro círculos do Inferno. Mas, por um motivo ou outro (preguiça, burrice, timing, ansiedade, tradução?), esses livros não me pegaram - assim como não me pegaram dezenas de outros livros, menos aclamados publicamente ou muito mais populares (outro dia mesmo escrevi sobre esse best seller Comer, Rezar, Amar, não consegui passar acho que nem do prólogo).

E como o livro de Bayard também fala de clássicos (mas não só), achei que seria uma boa oportunidade de eu manifestar minha opinião a respeito dessa tirania que por vezes se impõe à leitura alheia. Quantas vezes eu já ouvi coisas do tipo "Ah, mas se você não leu TAL COISA, não leu nada!" Sabe aquele tipo de gente pra quem, se você não subiu ao alto da Torre Eiffel, não viu Paris? E se eu tenho medo de altura? :-)

Abração, gostei da discussão, Isabel

Bruce e Diana disse...

Eu não li a maioria dos clássicos, admito e me envergonho disso porque eu queria ter lido mas não deu tempo de ler tudo que queria na vida. Tratei de fazer uma lista com alguns que preciso ler de qualquer maneira, farei isso este ano.
Não li Dom Quixote, Proust também não. Li algo de Balzac e gostei, leria mais se tivesse tempo, mas resolvi ler um de cada enquanto não chegar ao fim da lista dos clássicos.
Adoro Hemingway...entro no clima com uma facilidade deliciosa. E – adoro dizer isso pra quem me entende – não consigo ler Guimarães Rosa, e não foi por falta de tentativa. Chato demais!
Ufa, que alívio saber que você também não leu. Se você não leu é sinal que eu posso me dar ao luxo. {D.}

Isabel Pinheiro disse...

Hahahaha, querida, até parece que eu sou parâmetro! :-)

Viu o que eu falei de você num post mais antiguinho? Contos de fadas! Beijos, saudade

K. disse...

Adoro posts polêmicos!!!! Vou comentar também, hehehe. Eu li D. Quixote, Grande Sertão e outros classicões por obrigação. São bons -- e eu nem vou dizer o contrário aqui --, mas não é tão legal quanto ler um livro por livre e espontânea vontade. Eu entendo totalmente o que quis dizer...

BEIJOS!

bruceediana disse...

Comentário da Karina não vale, hehehe... Ela leu tudo, viu tudo e o pior, lembra de tudo!

Essa menina ainda vai conseguir ir à Bienal de São Paulo TODOS os anos, hehehe.

Confesso que me faltam alguns clássicos, mas li Don Quixote, uns três de Hemingway, Machado de Assis...

Me esforço para ler Umberto Eco, consegui com o Nome da Rosa e o Pêndulo de Foucault, mas até hoje a Ilha do dia anterior me assombra.

Podem falar à vontade, hoje leio só o que gosto e não me importo mais com figurinhas carimbadas.

Abraços, Bruce

Isabel Pinheiro disse...

Ganhou de mim, Bruce. Não consegui chegar nem ao Pêndulo. E A ilha... eu comprei quando saiu, na Laselva do aeroporto; tive que carregar aquele trambolho pela viagem inteira, sem que tenha conseguido avançar uma página. Beijos!

bruceediana disse...

Fui até a página 30. Umas 15 vezes...
Bruce

Rosalin disse...

Oi Isabel

Gostei demais da discussão que se formou em torno de sua opinião a respeito de leitura. Concordo com você em número, gênero e grau.
Adoro ler, mas só leio o que gosto. E meu gosto nem de longe é "refinado".
Nunca li nenhum dos autores citados por vocês, já ouvi falar de todos e o máximo que cheguei a ler foi um Machado, Bernardo Guimarães na época da escola. Gostei.
Meu método é ler o que me aparece pela frente, sem distinção de raça cor ou sexo...hehehehehe
Enfim, adoro ler e leio o que gosto. Sem culpa!...

Até mais...
Rosalin