segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Kindle

Kindle

Então eu resolvi me dar de presente um Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. Já faz umas duas semanas que ele chegou e eu ainda não me canso de usar, exibir, mostrar pra todo mundo as funções maravilhosas do aparelho, contar quais foram os livros que comprei - e já li dois deles! (Sim, é meio bizarro, mas parece que eu consigo ler mais rápido no Kindle.)

Entre outras coisas, o bichinho aí em cima permite que eu faça uma busca de palavras ou expressões no texto que estou lendo - uma bênção quando se trata de obras de referência -, que eu mova o cursor sobre uma palavra para saber o significado dela no New Oxford American Dictionary (que já vem com o aparelho), que eu "sublinhe" determinados trechos do livro, que eu faça as anotações que quiser num pequeno teclado (elas aparecem automaticamente num arquivo chamado "My clippings") e que eu aumente ou diminua o tamanho da letra da forma mais confortável. Tem mais: se eu tivesse preguiça de ler e quisesse ouvir o texto, daria pra ligar o áudio e, de quebra, escolher se eu quero a leitura em uma voz feminina ou masculina.

Pra completar, a média de preços dos livros para Kindle, vendidos apenas pela Amazon.com, é muito menor que a dos livros em papel, tanto faz se comprados aqui, por livrarias importadoras, ou pela própria Amazon, e infinitamente mais baixo que as versões em português, quando são editadas no Brasil. Um exemplo disso é Invisible, o último Paul Auster, que custa R$ 54,74 na Livraria Cultura, com entrega em até seis semanas. Comprei o mesmo livro por US$ 9,99 e, 1 minuto depois - sim, 1 minuto depois - ele já estava no meu Kindle. Outra vantagem: encontrar títulos originais em inglês que já estão fora de catálogo no Brasil - foi o caso de Rabbit, Run (Coelho corre), de John Updike, o primeiro livro que li no aparelhinho.

Ler no Kindle não é desconfortável: a tela tem um tamanho adequado, não reflete muita luz e, ao contrário do computador, se parece, mesmo, com papel - além disso, ele é muito leve e fácil de manusear. Nem aquela sensação de saber o quanto já se leu ou o quanto ainda falta para o fim do livro ele deixou de fora: uma barra, no pé da tela, mostra a porcentagem do que já foi lido até então. Quando o modo wireless está desligado, a bateria dura uma eternidade - mesmo que você deixe o troço ligado o dia inteiro, no modo de espera (e tanto as fotos de escritores quanto as ilustrações que servem como protetor de tela são maravilhosas). Até agora, descobri apenas dois "defeitos": 1) a impossibilidade de folhear as páginas para trás, para encontrar de novo um trecho recém-lido, mas sobre o qual ficou alguma dúvida (nesse caso, é preciso usar a tecla "back page" até chegar ao lugar em questão, e depois voltar tudo com o botão "next page"; 2) no livro de Paul Auster, algumas palavras estão com, digamos, "erro de digitação": aparecem com letras separadas, como em "plea su re", ou "pur pose" (são exemplos inventados; até fiz algumas anotações sobre isso, mas estou com preguiça de procurar agora).

Resolver o primeiro problema é fácil: preciso terminar de ler o User's guide que vem com o Kindle pra saber como usar o marcador de páginas (por enquanto, uso apenas a função que me permite retomar a leitura do último ponto onde parei antes de desligar o aparelho). O segundo, espero, resulta da pressa de lançar uma versão eletrônica do livro ao mesmo tempo em que ele foi editado em papel; um erro que poderia acontecer em qualquer veículo de leitura.

sábado, 14 de novembro de 2009

Recettes insolites

Recettes insolites
(Hachette, 2002)

Meu querido amigo B., antigo companheiro de sábados culinários temáticos, me deu este livro de presente quando eu resolvi que ia aprender francês. Não passei do primeiro semestre de estudos e mal-e-mal ainda sei conjugar o verbo être, mas por um desses mistérios da vida eu tenho uma certa facilidade para ler receitas em francês (principalmente com a ajuda do Dicionário tradutor de gastronomia em 6 línguas). Pelo menos é o que acontece com essas Recettes insolites, que são insolites porque usam combinações bem curiosas de ingredientes em receitas salgadas e doces.

O primeiro capítulo trata de "café, chá, chocolate e álcool" em pratos como filé de saint-pierre com chá verde, frango com chocolate, geleia de vinho. Depois, vêm as especiarias e temperos (quero fazer a salada de queijo de cabra com mel), legumes e frutas (sopa de beterraba com laranja e nozes), ervas e flores (conserva de dália, blinis de algas, sopa de urtiga). O mais bacana é que nada disso é bizarro, a não ser na aparência - tudo tem jeito de dar certo e ficar muito, muito saboroso, porque a combinação de ingredientes tem equilíbrio e faz sentido. E as ilustrações, coloridas e delicadas, ajudam a dar vontade de ir correndo pra cozinha.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Confidencial

Confidencial - Segredos de Moda, Estilo e Bem-Viver
Costanza Pascolato (Jaboticaba, 2009)

Já fazia tempo que eu estava de olho neste livro - mas, ao mesmo tempo, eu tinha feito o propósito de tentar não comprar nada até o fim do ano, pra ver se dava conta de ler pelo menos alguns dos títulos empilhados em minha casa. Acho que bati meu recorde: fiquei 139 dias sem gastar dinheiro com livros pra mim (comprei alguns pra dar de presente, li uns quatro ou cinco dos antigos). Mas entrei em férias na semana passada e esse foi o melhor pretexto que encontrei para ir à Livraria Cultura e sair de lá com a Costanza debaixo do braço.

Só que eu achei - talvez tenha lido em algum lugar, quando o volume foi lançado, ou foi só wishful thinking - que a porção autobiográfica da obra seria maior que a parte de, vá lá, e com as devidas aspas, "autoajuda fashion". Ok, estou exagerando: não se trata de um manual de estilo como, por exemplo, o ótimo The little black book of stile (autoajuda fashion de primeira). E, que pena, tampouco fala da vida de Costanza como eu gostaria de saber, como biografia, mesmo.

Eu queria ler mais sobre a vida de Costanza Pascolato porque essa mulher é, para mim, o maior exemplo brasileiro de elegância e postura - fora que usa um perfume delicioso, que não diz a ninguém qual é (eu, pelo menos, nunca soube que tenha dito). Mas se faltam detalhes sobre sua trajetória (ela diz, en passant, que nasceu na Itália, veio pro Brasil ainda criança, trabalhou como editora de moda na Abril, hoje cuida da tecelagem da família, viaja muito a trabalho, nada do que eu já não soubesse), ela capricha em alguns conselhos para o, como diz, bem-viver. Alimentar-se corretamente, fazer exercícios (o dela é o pilates), fotografar-se em vários ângulos para descobrir que tipo de roupa fica melhor em seu corpo, manter uma disciplina ferrenha para conseguir o que deseja. Também lista modelos clássicos (a camisa branca, o terno bem-cortado, as pérolas, coisas que o também ótimo The one hundred explora melhor), fala da importância da maquiagem, de espiritualidade e do que talvez seja seu principal "segredo": tratar bem as pessoas, não importa quem sejam elas.

Dá pra ler em dois dias, uma leitura leve, que pode ser enquadrada na categoria "autoajuda" deste blog: livros que, com informações úteis e conselhos factíveis, ajudam a gente a se sentir melhor na própria pele.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Enchantment - The life of Audrey Hepburn

Enchantment - The life of Audrey Hepburn
Donald Spoto (Harmony Books/Random House, 2006)

Nem sei quando foi que eu comecei a amar Audrey Hepburn - sei que Bonequinha de luxo efetivamente mudou a minha vida e que, se eu pudesse escolher, teria exatamente o shape e os Givenchy de Holly Golightly. Já adulta, fui vendo um filme de Audrey atrás do outro: Cinderela em Paris, Sabrina, o ótimo Um clarão nas trevas, Paris quando alucina, My fair lady, Como roubar 1 milhão de dólares, Charada, A princesa e o plebeu.

Sabendo da minha admiração pela atriz, minha cunhada me deu esta biografia de presente, há uns dois anos. Mas só agora consegui pegar pra ler direito: gostei de muitas coisas e não gostei de várias outras. Foi bacana, por exemplo, conhecer detalhes do começo da vida de Audrey Hepburn - saber que ela passou a Segunda Guerra, ainda criança, fingindo ser holandesa, e não britânica, pra não correr o risco de ser pega pelos alemães; saber que ela testemunhou o fuzilamento do tio e de dois primos, também durante a guerra; saber que ela carregou pelo resto da vida o trauma de ter sido abandonada pelo pai. E são bacanas as histórias dos bastidores de diversos filmes da jovem atriz: o caso dela com William Holden e o mau-humor de Humphrey Bogart em Sabrina, a traição do estúdio ao dublá-la sem aviso prévio em My fair lady, o estrelismo de Fred Astaire em Cinderela em Paris, a recusa de Gary Grant em trabalhar com Audrey até Charada.

O lado ruim do livro resume-se - e isso não é pouco - à idolatria de Donald Spoto em relação a seu personagem. O autor trata Audrey Hepburn como uma mulher sem defeitos: amada por todos, estudiosa, simples, modesta em relação ao próprio talento, devotada aos maridos, à mãe, ao pai e aos filhos, elegante sem ser fashion victim, ciosa da própria privacidade, generosa, dedicada a causas nobres. Mas santos não existem, certo? Eu acho impossível que Audrey Hepburn - que qualquer ser humano - não tenha dado uma escorregadinha sequer. Ainda assim, até para falar de pelo menos duas vezes em que ela traiu seu primeiro marido, Mel Ferrer (com o roteirista Robert Anderson e com o ator Albert Finney), Spoto escreve como se ela fosse apenas a vítima de um casamento infeliz, e logo muda de assunto para não ter que entrar no mérito da coisa. Quem sabe, um dia, eu encontre uma biografia mais pé no chão sobre ela.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Eloise

Eloise
Kay Thompson (Cia. das Letrinhas, 2002)

Li hoje, no Daily Beast, uma matéria sobre Hilary Knight, o ilustrador de Eloise - e descobri, com a maior surpresa, que a Kay Thompson que escreveu a história é a mesma Kay Thompson que viveu o papel da editora de moda em um dos meus filmes preferidos com Audrey Hepburn, Cinderela em Paris (sincronicidade, diria o Jung: estou, nos últimos dias, lendo uma biografia de AH). Eu nunca teria imaginado. E se, como diz Anne Fadiman em At large and at small, a vida dos autores pode servir para aumentar nossa compreensão da obra, agora eu gosto ainda mais de Eloise.

Não que a menina seja uma criança adorável, no sentido Pollyanna-boazinha da coisa. Eloise é espoleta e traquinas. Tem 6 anos e mora no hotel Plaza, em Nova York, com a babá, um cachorrinho e uma tartaruga chamada Skipperdee. Nenhum lugar, nem ninguém, são obstáculos para a garota fazer o que mais gosta: descobrir o mundo, ainda que apenas dentro do hotel. Ela vai a casamentos para os quais não foi convidada. Sobe e desce pelas escadas ou pelo elevador o dia inteiro. Bate altos papos com o garçom e outros funcionários do Plaza. E brinca de faz de conta, e irrita o professor de francês, e conta que sabe mascar chiclete e soletrar. Acho que Eloise é uma criança feliz.

The lost symbol

The lost symbol
Dan Brown (Doubleday, 2009)

A meu favor, conta o fato de eu nunca ter me considerado "intelectual" - porque dá uma certa vergonha gastar meu tempo lendo uma bobagem de Dan Brown quando eu poderia tirar o atraso de tanto livro bom que comprei e acabou guardado na estante sem sequer ter sido aberto. Bem, não sou perfeita. E sei que a) qualquer Dan Brown, por mais que tenha 500 páginas, pode ser lido em um fim de semana; b) não é preciso prestar atenção nas qualidades literárias do autor, já que elas não existem; c) por mais inverossímeis que sejam, suas tramas rocambolescas conseguem me deixar extremamente curiosa pra saber como é que tudo será resolvido no final.

(Meu único comentário sobre a escrita de Dan Brown - como disse, não existem qualidades literárias, e ninguém precisa ser crítico pra ver isso - diz respeito à maneira irritante como ele usa frases em itálico sem a menor coerência e muito menos parcimônia, como bem notou o blog de livros do Guardian. "The Cube. Katherine Solomon's lab." Que raios é isso? O pensamento do sujeito ou apenas uma forma de enfatizar o lugar aonde ele chegou? É irritante. E acontece o tempo inteiro.)

A essa altura - o livro será lançado no Brasil ainda este mês -, muita gente já deve saber do que trata a nova empreitada do professor Robert Langdon, de Anjos e demônios e O código Da Vinci: a busca frenética por um de seus grandes amigos, sequestrado por um maluco em Washington, e a tentativa de solucionar um antigo mistério ligado à Maçonaria. Como nas aventuras anteriores de Langdon, tudo acontece muito, muito rápido (dessa vez, em apenas uma noite). Como nas aventuras anteriores, não dá pra saber em quem confiar (seria a diretora da CIA mocinha ou bandida? E o administrador do Congresso? E o padre cego? E o próprio amigo sequestrado?). E, como nas aventuras anteriores, não faltam perigos e reviravoltas (mas quem, em sã consciência, pode acreditar que Dan Brown mataria seu principal e mais lucrativo personagem?).

Sei lá se é porque já estou familiarizada com a fórmula do escritor, ou porque conheço os principais monumentos de Washington D.C., ou porque é tudo mesmo muito óbvio - neste livro, consegui "descobrir" os dois principais mistérios da história bem antes da metade. Vantagem? Nenhuma. Apenas a constatação de que, por pior escrito que seja, O código Da Vinci ainda é mais divertido.

domingo, 18 de outubro de 2009

Secret ingredients

Secret ingredients
Organizado por David Remnick (Random House, 2007)

Taí um livro que eu queria ter feito, taí o tipo de livro que eu queria passar o resto da minha vida fazendo: uma seleção de excelentes textos sobre comida publicados na revista New Yorker. E não são apenas resenhas de restaurantes ou perfis de gente que marcou época na cozinha, mas histórias - histórias como a de quando Julia Child, afônica, foi a um restaurante chinês e se comunicou com a dona apenas trocando bilhetinhos, ou o conto escrito por Louise Erdrich sobre a amizade entre duas corajosas mulheres, uma delas casada com um açougueiro.

Para mim, o melhor talvez esteja nos textos que abrem o capítulo "Eating in", escritos por M.F.K. Fisher. Eu já tinha lido dois livros de Ms. Fisher: Um alfabeto para gourmets, que me agradou muito, e Como cozinhar um lobo, que, na época, achei meio mais-ou-menos (hoje eu fico pensando, ainda mais depois de ler os textos dela em Secret ingredients, se não seria bom retomar essas leituras com uma predisposição maior para entender a voz de M.F.K. Fisher - uma voz que, como a de Elizabeth David, soa mal-humorada a princípio, mas vai revelando uma ironia inteligente e um conhecimento enorme à medida em que a gente se acostuma ao discurso).

O primeiro texto de "Eating in" é o Secret ingredients que dá nome ao livro. Assim como eu, a autora tem uma birra enorme de gente que escreve receitas sem contar o "pulo do gato": aquela pitada de um temperinho que faz toda a diferença, a técnica de assar de um jeito perfeito, as quantidades todas em "punhado", "mãozada", "um tanto". Em outro artigo, Ms. Fisher fala das casseroles, receita que toda dona de casa americana preparava, nos anos 60, achando que estava economizando tempo ao assar (numa caçarola, ahá) sobras de comida com arroz ou macarrão. (Ela escreveu isso em 1968 e, já naquela época, pregava o uso de pelo menos legumes frescos para deixar o prato mais apetitoso.) Ms. Fisher é elegante e engraçada até para falar de tripa - e dar uma receita completa do ingrediente, com direito a descrições e detalhes que fazem a gente agradecer por livro de cozinha não vir com o cheiro da própria.