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domingo, 17 de maio de 2009

Bíblia

Bíblia Sagrada
(Editora Vida, 2003)

Eu adoro as listas Top 10 do site do Guardian. Agora à noite, sem sono, resolvi xeretar no acervo de quase 300 listas sobre literatura já feitas pelo jornal. E uma delas - Top 10 books in which things end badly - feita pelo escritor Richard Gwyn, começa pela Bíblia, um livro que sempre rondou nossa vida (ou pelo menos a de quem, como eu, cresceu como católico) como exemplo edificante, moralista, os bons vão para o céu e os maus vão para o inferno, faça o bem e receberás o paraíso.

Gwyn fala especificamente do Novo Testamento - como é que pode terminar bem uma história em que o filho acaba sendo crucificado pela vontade do próprio pai? -, mas quando eu vi a lista me vieram primeiro à cabeça algumas histórias do Velho Testamento. Abraão, por exemplo, que é obrigado por seu deus a sacrificar o próprio filho (tá, ele não sacrifica, mas só porque um anjo o redime na última hora). Jó, que sofre um infortúnio atrás do outro. E Moisés, pra mim a pior delas, porque mostra a crueldade com que pode ser recompensada a fé. O cidadão é separado da família ainda bebê, rompe com a família de criação para libertar os escravos judeus do Egito, lidera o povo pelo deserto durante sei lá quantas décadas e quando, finalmente, consegue ver a terra prometida do alto de um morro, seu deus o avisa de que ele vai morrer antes de colocar os pés lá. É o supra-sumo da sacanagem. Concordo com a lista do Guardian: nada pode terminar pior.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Deus - um delírio

Deus - um delírio
Richard Dawkins (Companhia das Letras, 2007)

Quando eu contei a um amigo que estava lendo - e adorando - o mais recente livro de Richard Dawkins publicado no Brasil, ele disse: "esse é o tipo do livro inútil. Nenhum ateu precisa dele para confirmar sua descrença e nenhum religioso vai ler". O livro não é inútil: tem, no mínimo, trechos muito divertidos. Mas meu amigo não deixa de ter razão ao notar que essa nova investida de Dawkins não vai convencer ninguém a mudar de time na esfera religiosa.

É capaz de os cristãos passarem diante do livro fazendo o sinal-da-cruz. Crentes, de qualquer tipo, não devem duvidar de que a obra é herética ou de que o pobre Dawkins está fadado a um longo confinamento no inferno: ele trata o criacionismo e toda a série de preceitos morais baseada na Bíblia como lenda, mentiras pré-fabricadas para atender ao poder religioso. Mas quem simpatiza com a idéia de que Deus não existe e que a única forma de religião possível é o darwinismo pode curtir as mais de 500 páginas dedicadas pelo biólogo britânico a provar que a noção de Deus é uma invenção humana e que nada no criacionismo faz sentido. Seu ataque ao conservadorismo americano, por exemplo, traz bons argumentos e informações. Mesmo assim, o livro deixa um gosto amargo no leitor. O que incomoda não é o excesso de panfletarismo ou virulência: é a impressão que o cientista passa de ter usado Deus - um delírio para desforrar-se de desafetos pessoais; não são poucos os parágrafos dedicados a ridicularizar os inimigos.