segunda-feira, 11 de maio de 2009

O livro de cozinha de Alice B. Toklas

O livro de cozinha de Alice B. Toklas
Companhia das Letras (1996)

Panorama da minha geladeira: um pedaço de manteiga, um litro de leite, um vidro de azeitonas pretas pela metade, duas garrafas de água mineral, geléia de figo, metade de um pacote de pão integral e dois ovos que não sei desde quando estão lá. (E uma garrafa de tequila ao lado do providencial margarita mix da José Cuervo, mas isso não conta.) Não tive tempo, e muito menos vontade, de ir ao supermercado. Sinto que eu poderia viver de leite com corn flakes até o ânimo voltar. E então me lembrei desse livro, quase uma autobiografia culinária da época em que Gertrude Stein e Alice B. Toklas viveram juntas, na França, de 1908 a 1946.

Com duas guerras mundiais nas costas, as duas passaram por vários períodos de racionamento. Durante a Ocupação, conta Toklas, a cota de carne semanal por pessoa era de 125 g. Elas se viravam com os produtos de sua horta e com os peixes dos rios próximos - até que os alemães proibiram a pesca. A certa altura, começaram a faltar leite, manteiga e ovos. De repente, alguém descobriu como pegar lagostins. E foi assim, de improviso em improviso, que as duas não só sobreviviam como ainda conseguiam receber os amigos. Nina Horta, em seu excelente Não é sopa, conta que mesmo depois da Segunda Guerra a dupla viveu dias de vacas magras. Convidaram o jovem estilista Pierre Balmain para jantar e ele deu por falta de um quadro de Cézanne na casa das duas. "Estamos jantando o Cézanne", disse Gertrude Stein, sem se abalar.

Queria eu ter a imaginação de Alice B. Toklas pra preparar alguma coisa com os parcos ingredientes da minha geladeira. Sei lá, umedecer as fatias de pão com o leite, espalhar por cima a geléia de figo, bater os ovos com um pouco de açúcar, derramar por cima e levar ao forno. Não deve ser de todo ruim. Mas aí eu fico sem ter o que comer no café, amanhã.

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