terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Dentro da noite

Dentro da noite
João do Rio (Antiqua, 2002)

Ainda não encontrei o João do Rio aqui em casa, então resolvi escrever a partir apenas de minhas lembranças. Ia começar dizendo que os dois melhores contos desse livro - acho que os dois melhores do autor - não servem para estômagos fracos. Mas que se danem os estômagos fracos: a morbidez é fundamental em Dentro da Noite e O bebê de tarlatana rosa. E quem torcer o nariz para comportamentos igualmente tortos vai perder literatura de primeira.

Na verdade, nem acho tão mórbido assim. O comportamento de Rodolfo em Dentro da noite pode não ser comum, mas está longe de ser inverossímil: pequenas crueldades podem tomar proporções impensáveis e causar um prazer que tanto o Marquês de Sade quanto o Nelson Rodrigues já exploraram muito melhor do que eu. Também há um certo sadismo - ou não vem dele o orgulho de Heitor ao contar a história? - em O bebê de tarlatana rosa, que no mínimo serve pra fazer a gente aprender uma palavra nova; tarlatana é o tipo de tecido usado na fantasia da moça que o narrador conhece num carnaval. E que, para horror e espanto dos que ouvem o relato, tem um traço bem mais marcante que sua roupinha cor-de-rosa. Rodolfo e Heitor chegam a ser cruéis. E igualmente maravilhosos.

2 comentários:

ruy disse...

Oi, Isabel. Gosto dos dois contos e concordo que não sejam para estômagos fracos (o Nelson Rodrigues, aliás, citou mais de uma vez "O Bebê de Tarlatana Rosa" em suas crônicas, que foi o que chamou minha atenção para o texto). Eles só têm uma ou outra coisa que me incomoda -em "Dentro da Noite", por exemplo, a menção explícita ao Sade me parece dispensável, soa quase como uma nota de rodapé (ou um trecho de verbete de enciclopédia) ali no meio da narrativa. Mas é detalhe.

Aproveito pra dizer que sou leitor constante do seu blogue (embora, até agora, silencioso) e gosto muito dele. Consigo até "perdoar" o fato de você achar o Borges chato, hehehe. (= Um beijo.

Isabel Pinheiro disse...

Ruy, bem-vindo (com atraso)! Eu não sabia que o Nelson Rodrigues citou o João do Rio. Gostei. E, como escrevi no post, falei dos contos sem ter o livro ao meu lado, então não me lembro dessa citação ao Sade. Mas assim que encontrá-lo vou reler e prestar atenção nisso.

Quanto ao Borges... quem sabe um dia eu não insisto, insisto, insisto, e acabo gostando do velhinho? :-)

Um beijo