sábado, 19 de julho de 2008

Seis propostas para o próximo milênio

Seis propostas para o próximo milênio
Italo Calvino (Companhia das Letras, 1990)

Minha edição desse livro de Calvino é também da Companhia das Letras, mas de uma coleção bem mais antiga, e que tinha capas bem mais feias. O livro que eu tenho nem é tão velho assim - comprei em junho de 1991, como anotei com marca-texto azul numa das páginas iniciais - mas já está esfarelando. Nem meus dez volumes da Inspetora, bem mais antigos, estão tão acabados. Nem meu Ernani Silva Bruno, de 1954. E o que eu sinto quando vejo o Seis propostas... esfacelado não é dó, não é tristeza: é orgulho. Isso é que dá ler demais, e eu definitivamente sou do tipo que deixa o livro aberto pra marcar a página, ou marca com a orelha, que anota a lápis, volta a anotar com caneta, e depois com canetas de outras cores de acordo com as releituras, e que comenta as anotações. Só não entendo por que nunca consegui dobrar as pontas das páginas para me lembrar onde parei a leitura; como a camareira do Ex-libris de Anne Fadiman, vai ver eu acho que o livro podia sofrer.

Seis propostas... reúne cinco textos que Italo Calvino preparou para uma série de conferências em Harvard. Morreu antes de completar o sexto, mas o trabalho que deixou vale por toda a sua obra. Segundo o escritor, a literatura deve se basear em leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. Não preciso nem pegar o livro na estante para me lembrar de um exemplo de leveza, o trecho de um poema de Leopardi que falava sobre a lua (...luna, cara luna, che fai tu in ciel? dimme, che fai?...). Um não, dois trechos de dois poemas - em 1991, eu ainda estudava italiano e gostava de declamá-los como se fossem um só. É esquisito pensar agora, ao escrever esse post, que meu livro preferido de Calvino pregue virtudes que eu não sei se consigo aplicar na escrita ou na vida. O novo milênio já chegou e anda correndo. Mas onde a leveza, onde a exatidão?

2 comentários:

Clara Lopez disse...

nossa, isabel, fiquei emocionada com seu post sobe o calvino, delicado, bonito, uma homenagem digna dele e do livro. esse tipo de leitura recorrente eu fiz da Aula, do barthes, mas nem assim me lembro de cor trechos da obra, aliás, nunca me lembro de quase nada que leio, o que me deixa sempre com a sensação esquisita.
um abraço,
clara

Isabel Pinheiro disse...

Clara, obrigada. Mas minha memória não é das melhores, não. Acho que guardo apenas as coisas que realmente interessam. Há livros na minha estante para os quais eu olho e não sinto nada, não lembro da história, não sei por que estão ali. Acontece muito, também, com filmes: não raro eu saio do cinema e no dia seguinte já não sei o que vi - pior, não lembro nem se gostei! :-) Abraço