Mostrando postagens com marcador entrevistas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador entrevistas. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de janeiro de 2009

Diálogos - Borges Sabato

Diálogos - Borges Sabato
Organizado por Orlando Barone (Globo, 2005)

Nunca escondi que, dos quatro ou cinco escritores argentinos que conheço, Borges é o que menos faz meu gênero - Cortázar e Bioy Casares me emocionam muito mais. Mesmo assim, seria idiotice não reconhecer sua importância para a literatura, e não só a de seu país. Comprei esse livro logo depois de descobrir Ernesto Sabato, de quem havia lido O túnel e O escritor e seus fantasmas. Gostei muito; trata-se de uma série de conversas entre os dois, realizadas no verão de 1974-75, com Borges aos 75 anos e Sabato aos 63. Falam de escrita, suas obras, a obra dos outros, amigos em comum, as artes em geral. Nesse contexto, beleza: leio Borges com prazer.

"É que eu acredito na teologia como literatura fantástica. É a perfeição do gênero." (Borges)

"Mas por que toda realidade tem que ser coerente?" (Sabato)

"Há outra idéia, que eu li, de que se criasse uma linguagem sem nenhuma correspondência com nenhum real. Isso significa buscar uma palavra que correspondesse ao fato de ter sede quando tivesse passado das seis da tarde, por exemplo. E isso seria uma só palavra." (Borges) [Ele não conhecia The meaning of tingo.]

"O natural é o acostumado. (...) O que estou dizendo: bastariam pequeníssimas diferenças para produzir pavor." (Sabato)

"O que nós sabemos sobre a loucura? Quem sabe se o que nós fizemos até agora é, simplesmente, supervalorizar a sensatez que, com frequencia, é simples mediocridade?" (Sabato)

Borges: - Como, o senhor tem medo da morte?
Sabato: - A palavra exata seria tristeza. Morrer me parece muito triste.
Borges: - Eu penso que assim como a gente não pode se entristecer por não ter visto a Guerra de Tróia, não ver mais este mundo tampouco pode entristecer, não é mesmo? Na Inglaterra, há uma superstição popular que diz que nós não saberemos que morremos até que comprovemos que o espelho não nos reflete. Eu não vejo o espelho.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Os escritores

Os escritores - As históricas entrevistas da Paris Review
(Companhia das Letras, 1988)

Estou lendo a "biografia" de George Plimpton, o sujeito que colocou de pé a Paris Review, uma revista literária criada por americanos na década de 50, em Paris. (O motivo das aspas será devidamente explicado no post sobre o livro, assim que eu terminar a leitura.) E então me deu vontade de tirar da estante os dois volumes de Os escritores, lançados em 1988 e 1989 por uma iniciante Companhia das Letras, com a reunião das melhores entrevistas publicadas pela revista ao longo de décadas. (Segundo parêntese: é engraçado ver como eram fraquinhos o projeto gráfico do livro e o texto de orelha no ano em que a editora abriu as portas.)

Logo no primeiro volume encontrei dois post-its e várias frases grifadas. Na entrevista com Dorothy Parker, a respeito de colegas escritoras que, a seu ver, não mereciam muito respeito: "E pensar que havia aquele pobre otário do Flaubert que rolava no chão durante três dias procurando a palavra certa." Em Borges, um post-it laranja e nenhuma anotação (Ruy, eu gosto do Borges quando são livros de entrevistas; tem um dele com o Sábato que é muito bacana.) O segundo volume (é a capa que ilustra o post) tem Nabokov, Garcia Márquez, Isak Dinesen, Auden, Hemingway... Ambos estão esgotados há séculos; consegui os dois volumes graças àquele meu livreiro infalível.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Rolling Stone

Rolling Stone - As melhores entrevistas da revista Rolling Stone
Jann S. Wenner e Joe Levy (Larousse do Brasil, 2008)

Se eu fosse tradutora e me deparasse com um trecho que, traduzido, daria em "Em Bonequinha de Luxo, era isso o que Holly Golightly costumava fazer, todas as vezes que ela fazia o que costumava chamar de 'os significados vermelhos'. Ela costumava ir visitar o iaque no zoológico.", eu certamente saberia que alguma coisa estava errada. Não vou nem entrar no mérito da péssima construção das frases. Mas que raios quer dizer "significados vermelhos"? Como eu saberia tratar-se de uma frase de Truman Capote, iria pesquisar em seu livro, Bonequinha de luxo. E veria que mean red não quer dizer, nem aqui nem na China, "significados vermelhos". Mean red é um estado de espírito, como a personagem mesmo explica. Mean red é estar na pior.

Ok, admito a fase de extremo mau humor com erros de tradução e revisão. Mas como é que alguém deixa escapar uma bobagem desse tamanho? O tradutor não viu que a frase não faz o menor sentido? O editor? O revisor? E piora. Na mesma entrevista de Truman Capote para Andy Warhol, o tradutor indica que os dois estão "No bar Carlyle do Hotel", assim mesmo. Qualquer pessoa minimamente informada sobre a Nova York da época - sobre Nova York, de maneira geral - saberia que os dois estavam no bar do hotel Carlyle. E não, "ordinarily" não significa "ordinariamente", e sim "normalmente, costumeiramente, em geral".

As entrevistas da revista americana Rolling Stone com gente como Jim Morrison, John Lennon, Joni Mitchell, Capote, Coppola, Eric Clapton, Mick Jagger, Bill Clinton e o Dalai Lama, entre outros, são um tesouro. Que foi tratado como lixo nessa edição brasileira da Larousse. Eu já tinha desconfiado das entrevistas de Jim Morrison e John Lennon, duas figuras tão ricas e que aparecem tão sem graça no livro, como se todas as suas respostas tivessem sido dadas no mesmo tom, monocórdias, sem ênfase em nada. Quando cheguei no Capote, quase enfartei. É mesmo pedir muito que um livro seja tratado com o respeito que merece?