Diálogos - Borges SabatoOrganizado por Orlando Barone (Globo, 2005)
Nunca escondi que, dos quatro ou cinco escritores argentinos que conheço, Borges é o que menos faz meu gênero - Cortázar e Bioy Casares me emocionam muito mais. Mesmo assim, seria idiotice não reconhecer sua importância para a literatura, e não só a de seu país. Comprei esse livro logo depois de descobrir Ernesto Sabato, de quem havia lido O túnel e O escritor e seus fantasmas. Gostei muito; trata-se de uma série de conversas entre os dois, realizadas no verão de 1974-75, com Borges aos 75 anos e Sabato aos 63. Falam de escrita, suas obras, a obra dos outros, amigos em comum, as artes em geral. Nesse contexto, beleza: leio Borges com prazer.
"É que eu acredito na teologia como literatura fantástica. É a perfeição do gênero." (Borges)
"Mas por que toda realidade tem que ser coerente?" (Sabato)
"Há outra idéia, que eu li, de que se criasse uma linguagem sem nenhuma correspondência com nenhum real. Isso significa buscar uma palavra que correspondesse ao fato de ter sede quando tivesse passado das seis da tarde, por exemplo. E isso seria uma só palavra." (Borges) [Ele não conhecia The meaning of tingo.]
"O natural é o acostumado. (...) O que estou dizendo: bastariam pequeníssimas diferenças para produzir pavor." (Sabato)
"O que nós sabemos sobre a loucura? Quem sabe se o que nós fizemos até agora é, simplesmente, supervalorizar a sensatez que, com frequencia, é simples mediocridade?" (Sabato)
Borges: - Como, o senhor tem medo da morte?
Sabato: - A palavra exata seria tristeza. Morrer me parece muito triste.
Borges: - Eu penso que assim como a gente não pode se entristecer por não ter visto a Guerra de Tróia, não ver mais este mundo tampouco pode entristecer, não é mesmo? Na Inglaterra, há uma superstição popular que diz que nós não saberemos que morremos até que comprovemos que o espelho não nos reflete. Eu não vejo o espelho.

