terça-feira, 29 de abril de 2008

Collected poems

Collected poems
Paul Auster (Penguin USA, 2004)

Na Flip de 2004, em Parati, eu perguntei a Paul Auster se ele costuma reler suas obras. Ele disse que não. Depois perguntei se ele tem intenção de escrever poesia outra vez. Ele disse que não. Pois minha teoria maldosa é a de que Auster, algum dia, releu seus poemas e, a partir daí, tomou duas decisões: nunca mais escrevê-los nem reler qualquer coisa de sua autoria.

Repito: maldade pura (embora as perguntas tenham mesmo acontecido). Mas a brincadeira vem fácil quando se compara a poesia do americano à maioria de seus romances e aos livros de não-ficção que ele escreveu. Além dos versos compostos por Paul Auster, Collected poems traz diversas traduções que ele fez de poemas em francês. São todos fracos; servem apenas como curiosidade, ainda que um ou outro me agrade pelo tema ou pela sonoridade.

Essa maneira bobinha e engraçadinha de falar de Paul Auster pela primeira vez aqui no blog denota, na verdade, um grande medo: escrever sobre sua obra em prosa e refletir sobre o que ela representa para mim. Paul Auster é um dos meus dois autores estrangeiros vivos preferidos (o outro é Ian McEwan). Acho que é um ótimo escritor - com direito a altos e baixos, como quase todos - e descobri-lo, com Leviatã, me fez pensar a respeito de temas literários que até então nunca tinham passado pela minha cabeça (e que me atormentam até hoje).

Talvez PA merecesse o primeiro post a respeito de um autor, e não de uma obra específica. Eu detesto sua badaladíssima Trilogia de Nova York. Adoro Leviatã. E Noite do oráculo. E O livro das ilusões (como não gostar de alguém que dá esse título a um livro?). Mas minha austermania não me impede de enxergar os defeitos óbvios em obras mais rasas, como Mr. Vertigo. Respiro fundo: quem sabe eu crie coragem para, um dia, escrever direitinho sobre os efeitos Auster em minha vida.

Harry Potter e as relíquias da morte

Harry Potter e as relíquias da morte
J.K. Rowling

Acho que não existe nada pior para um leitor compulsivo e ansioso do que uma história publicada em série. Quando o primeiro Harry Potter saiu em português, eu decidi: não vou morrer antes de ler o último episódio dessa saga. E pelos sete anos seguintes eu quase virei uma fanática dessas que discutem a trama em fóruns na internet e vão ao lançamento vestidas de Hermione. Li os dois primeiros volumes em português e a partir do terceiro eu só não ficava na fila da livraria, esperando as caixas serem abertas, porque já tinha encomendado o meu livro em inglês pela Amazon e lido tudo antes que ele chegasse aqui.

Eu gosto muito da boa literatura infanto-juvenil (tá, e da ruim também, desde que traga queridas lembranças da infância), mas não pensei que fosse cair tanto de amores por Harry Potter; no início, até torci o nariz pela badalação excessiva. Só que quando a curiosidade venceu e eu comprei o primeiro volume, a surpresa foi enorme: desde Monteiro Lobato, eu nunca tinha visto alguém criar um mundo de fantasia tão coerente e interessante. (Declaração: acho Tolkien muito, muito chato.) Pra completar, a história é ótima e tem uma dose certa de mistérios e revelações - você sai de cada livro com algumas dúvidas respondidas e outras ainda mais intrigantes.

A trama é manjadíssima (aos 11 anos, Harry Potter descobre que é bruxo, que seus pais morreram para salvá-lo do terrível vilão Voldemort e que ele, de alguma forma, tem seu destino ligado ao coisa-ruim do mundo mágico) e enorme (são sete livros! Tem gente que morre, que surge, segredos, aulas de magia, viagens, jogos de quadribol...). E não é porque pertence a um mundo diferente que Harry se vê livre das dores e aflições comuns a todo ser humano. Ao longo da saga, ele briga com os amigos, vira um adolescente chato, vê muita gente querida morrer e carrega nas costas um peso de culpa e confusões que o faria passar uns bons anos no divã.

Abri As relíquias da morte com um certo receio: e se J.K. Rowling resolvesse jogar fora tudo o que escrevera antes e apelar para um final meloso e maniqueísta? Não foi o que aconteceu. O sétimo volume é, certamente, o melhor de toda a série, onde tudo se encaixa e se explica. Pensando bem, até mesmo o epílogo, que de início achei dispensável, tem lá sua razão de ser. Agora eu já posso morrer - bem, pelo menos enquanto Rowling não inventar algo parecido outra vez.

PS. Apesar de eu ter lido a maior parte da saga em inglês, é preciso elogiar a excelente tradução de Lia Wyler, que conseguiu captar a essência dos neologismos latinistas de J.K. Rowling e criar termos em português à altura. Deu um show.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O amor acaba

O amor acaba
Paulo Mendes Campos (Civilização Brasileira, 1999)

Foi no verão de 2001. Tínhamos acabado de sair do cinema, depois de ver o belíssimo Amor à Flor da Pele, e corremos para um restaurante japonês - quem viu o filme é capaz de entender a vontade louca que me deu de comer gohan, aquele arroz branquinho e grudento, à moda oriental. E foi assim, entre tigelas de gohan e pratinhos de sushi, que começou a discussão sobre o filme e, lógico, seu tema principal: o amor. Não importava tanto descobrir se a linda Maggie Cheung e o charmoso Tony Leung tinham, afinal, consumado aquele namoro platônico. Mais importante era tentar entender que tipo de sentimento, que tipo de amor é esse que tanto une quanto afasta, que pode ser grande e ao mesmo tempo tão contido.

E a certa altura da nossa conversa eu me lembrei desse texto de Paulo Mendes Campos: O amor acaba. Coisa de eu ter lido ainda bem jovem, e de ter guardado na memória não só o teor da crônica, a sucessão de maneiras às vezes tão banais e quase despercebidas de como o amor pode acabar, mas também a sensação de arrepio que eu sentia toda vez que chegava à última linha, um arrepio de emoção por uma frase tão bonita e por uma verdade tão grande. Meu amigo não concordou com Paulo Mendes Campos; ele acreditava na máxima rodrigueana de que "se acabou, não era amor". E eu não concordei - ainda não concordo - com meu amigo. O amor acaba, sim. "Às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido", escreveu PMC. Não poderia achar mais verdadeiro.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Fazes-me falta

Fazes-me falta
Inês Pedrosa (Planeta, 2003)

Faz parte da categoria "ai que inveja, como eu queria ter escrito isso". E da assustadora categoria "como é que podem ter escrito tão bem sobre mim sem ao menos me conhecerem?". É difícil falar de Fazes-me falta sem ter vontade de chorar. Folhear o livro para rever as dezenas de passagens anotadas, os post-its cor-de-laranja grudados nas páginas, alguns já amassados de tanto que eu esperei o dia de ler em voz alta as frases que eu mais gostei. Fazes-me falta é daquele tipo de livro que - assim como O passado, covardemente não lido - materializa as conversas que eu tive com ele, a história que eu vivi com ele, as discussões que tivemos e a milagrosa identidade. No livro de Inês Pedrosa, ela morreu e se comunica com o amigo em cartas recheadas de sentimento e lembranças; ele responde com questionamentos sobre Deus e o relacionamento. Dizer só isso é pouco; só que mais não há para ser dito.

Das páginas 13 e 14, que nem estavam marcadas com post-it: "Tu foste simplesmente à tua vida e eu fui à minha. Como sabes, eu vivo por relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso. De qualquer modo, a morte espreita sobre todos os prazeres dessa cronologia a que nos agarramos para escapar ao tempo. O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu - íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus - quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. Olho para o mar do Guincho, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas de mergulhar, e sinto-me também eu meio morto, meio frio. Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora de jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem o silêncio se transtornem. Cair em ti, cada vez mais longe da mísera ficção de mim."

Bonequinha de luxo

Bonequinha de Luxo
Truman Capote (Companhia das Letras, 2005)

Eu não tenho a menor idéia do motivo que leva um roteirista a mudar completamente o final de uma história já existente -- e, com isso, mudar todo o espírito da mesma história -- ao adaptá-la para o cinema. Se é por razões comerciais, por que não criar uma trama do zero? Pois aconteceu com Bonequinha de luxo, que acabou se tornando um dos meus filmes preferidos, mas que pouco tem a ver com a novela original. Ok, os principais elementos estão lá: Holly Golightly, uma garota acostumada a receber dinheiro de seus acompanhantes e que sonha em dar o golpe do baú, Paul Varjack, o escritor que se muda para o prédio de Holly, o ex-marido caipirão, o fotógrafo japonês, os principais fatos da história. Mas o clima, o ar, que diferença...

A novela de Capote não tem nada do jeitão conto-de-fadas do filme, reforçado pela escolha dos apolíneos Audrey Hepburn e George Peppard para os papéis principais. No livro, Holly é claramente uma garota de programa interessada em se casar com um milionário. Dá em cima de um, de outro, chega a ficar grávida de um abastado brasileiro de olho numa união conveniente. Nada dá certo, e nada parece mais distante para ela do que encontrar um lugar onde ela se sinta segura como na Tiffany. Envolvida num esquema criminoso, rejeitada pelo brasileiro, ela resolve sumir no mundo: pega um avião e nunca mais é vista por ninguém conhecido. É esse sumiço, na verdade, que dá origem à narrativa, quando uma suposta fotografia dela na África faz Paul Varjack começar a escrever a história. "Sempre volto aos lugares em que vivi, às casas e à vizinhança.", diz a primeira frase. Excelente começo.

sábado, 19 de abril de 2008

The meaning of tingo

The meaning of tingo
Adam Jacot de Boinod (Penguin UK, 2006)

Houve uma fase - que na verdade ainda existe, mas anda apenas latente - em que eu queria botar as mãos na maior quantidade possível de livros a respeito de palavras. Acabei formando outra estante excêntrica, além da de "livros sobre livros", muito útil para um trabalho que eu comecei e, quem sabe, um dia tenha coragem de terminar. Essa minibiblioteca de dicionários e afins (um dia escrevo aqui sobre History in English words, do Owen Barfield, um dos "afins" mais bacanas que li na época) estreou sua vertente estrangeira com The meaning of tingo, um livrinho divertido cheio de palavras cuja tradução - para o inglês, pelo menos, e certamente para o português também - não se daria na forma simples de um vocábulo apenas.

Tingo, por exemplo: para os habitantes da Ilha de Páscoa, quer dizer mais ou menos "tirar tudo o que se deseja de um amigo pedindo um objeto emprestado de cada vez". E os esquimós inuítes têm uma palavra específica, areodjarekput, para "trocar esposas por alguns dias". Num blog já desativado, o escritor confessa que seu termo preferido é o alemão Scheissenbedauern, "a frustração que alguém sente quando algo não sai tão mal quando esperava". Boa palavra.

PS. Procurando a ilustração para esse post, que retrata a capa britânica do livro, e não a americana que eu tenho, descobri que Boinod escreveu uma continuação: Toujours tingo. Oba.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Precisamos falar sobre o Kevin

Precisamos falar sobre o Kevin
Lionel Shriver (Intrínseca, 2007)

Na Folha de S. Paulo de domingo, o psicanalista Renato Mezan escreveu um artigo sobre o assassinato da menina Isabella - em São Paulo, não se fala em outra coisa. E uma das frases me chamou a atenção porque resume bem a sensação que eu tive durante toda a leitura de Precisamos falar sobre o Kevin, um livro excelente que, depois do começo meio arrastado, prende a atenção até a última página: "... casos como o de Isabella, como o de mães que tentam matar seus bebês indesejados, provocam uma repulsa mais profunda porque põem em jogo a crença na naturalidade dos sentimentos familiares."

Pois é a tal "naturalidade dos sentimentos familiares" que Eva Khatchadourian questiona o tempo todo durante sua narrativa, que começa algum tempo depois que o filho, Kevin, de 16 anos, promove uma matança generalizada à moda de Columbine. Nas cartas que Eva escreve para o marido, Franklin, ela relembra os momentos do encontro dos dois, o pequeno apartamento em Nova York, o nascimento de Kevin, a mudança para uma casa horrível no subúrbio, o conseqüente afastamento - tudo para tentar entender o que aconteceu, e justificar seus sentimentos, e perdoar Franklin pela condescendência, e passar a limpo uma existência, a de Kevin, desconhecida por seus próprios pais. Começar o livro sabendo da tragédia que é seu ponto culminante não atrapalha em nada. Quanto mais Eva escreve, mais queremos saber das circunstâncias que levaram a ela. E, no final, fechamos o volume com aquela rara sensação de inveja, a sensação de "como eu queria ter escrito isso".