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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Poemas, sonetos e baladas

Poemas, sonetos e baladas
Vinicius de Moraes (Companhia das Letras, 2008)

Nunca fui muito fã do "Soneto de fidelidade". Em minha pós-adolescência ("pré-juventude"? Como se chama a época que vai dos 18 aos 20 anos?), no final da década de 80, declamar os versos de Vinicius virou meio que lugar-comum, e eu acho que o poema se banalizou - quase como usar as frases do Pequeno príncipe em cartões de amor com dobraduras, se é que me faço entender.

Apesar disso, o verso final - e talvez o mais banalizado do soneto - não me sai da cabeça desde que me despedi, há pouco (e pela milionésima vez nas mesmas circunstâncias) de um homem que não sei quando vou voltar a ver. Porque ele mora em outro país, porque levamos vidas muito diferentes, porque só funcionamos assim, de vez em quando. Nos vemos pouco e sempre por períodos de tempo muito curtos, e alguns anos precisaram se passar pra eu entender que isso não tem importância, que o amor é maior do que a angústia de não saber quando nos veremos de novo, que o amor é maior do que as diferenças entre nossas vidas, que o amor se transforma para continuar sendo amor, e que é infinito enquanto dura.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Esconderijos do tempo

Esconderijos do tempo
Mario Quintana (Globo, 2005)

Queridíssima amiga e um pouco de mim mesma no passado, K. me deu esse livro de presente de aniversário. Tinha que ser esse, mesmo sabendo que eu adoro tudo o que conheço de Mario Quintana, porque é nele que está Bilhete, meu poema preferido do velhinho gaúcho. (E que, mesmo sendo tão curtinho, eu ridiculamente nunca consegui decorar inteiro.)

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mas há outros belos poemas no livro. Ando bem impressionada com Intermezzo - mesmo porque, achei que eu tivesse tido o privilégio de inventar a expressão "bolha de tempo". Que nada. Quintana veio muito antes de mim.

Nem tudo pode estar sumido
ou consumido...
Deve - forçosamente - a qualquer instante
formar-se, pobre amigo, uma bolha de tempo nessa Eternidade...
e onde
- o mesmo barman no mesmo balcão,
por trás a esplêndida biblioteca de garrafas,
fonte da nossa colorida erudição -
haveremos de continuar aquela nossa velha discussão
sobre tudo e nada
até
que, fartos de tudo e nada,
desta e da outra vida,
a rir como uns perdidos,
a chorar como uns danados,
beberemos os dois nos crânios um do outro...
até o teto desabar!

(Perdão! até a bolha rebentar...)

O que a gente faz quando sente muita saudade?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Giacomo Leopardi

Giacomo Leopardi

Encontrei umas anotações antigas com dois poemas de Leopardi na tradução de Ivo Barroso. Naquela época eu era bem jovem, estudava italiano e estava apaixonada pela sonoridade de sua poesia - a ponto de, como já escrevi em outro post, misturar os versos de obras diversas para criar um poema só meu. (Dolce e clara è la notte, e senza vento...) (Luna, cara luna, che fai tu in ciel? Dimme, che fai?) (Sorgi la sera e vai, contemplando i deserti, indi ti posi.)

Procurei por algum livro em português com a obra de Leopardi traduzida por Ivo Barroso; não encontrei. Há, no site da livraria Cultura, uma edição da Nova Aguilar sem informações sobre o tradutor. E o site da Nova Aguilar está em construção. Para não perder de vista os poemas, portanto, reuni aqui duas versões em português, tal como encontrei nas anotações, e uma no original, em italiano. Todas lindas.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Sonetos

Sonetos
Guilherme de Almeida (Imesp, 2008)

Da série "por que minha memória guarda essas coisas bizarras e eu não consigo me lembrar de pagar o IPVA em dia?" Sempre que corto os cabelos um pouco mais curtos, como aconteceu essa semana, me veem à cabeça uns versos do Guilherme de Almeida: Sabes / esta manhã cortei os meus cabelos / Denunciavam-me tanto! / E a ti também, meu poeta. A lembrança literal acaba aí, mas depois vinha algo a respeito da facilidade da moça em colocar o chapéu e como isso ia melhorar a vida deles.

Tá certo, não se trata de nenhum soneto. Mas na falta da coleção completa de Guilherme de Almeida, capa dura, que herdei da minha avó, esse foi o livro que me pareceu mais apropriado para o post. É que, além do trecho sobre a solução capilar para o relacionamento de musa e poeta, eu só me lembro mesmo de alguns sonetos, a maioria de rima pobrinha ou, pior, de rima e temática pobrinhas. Tinha um volume só sobre a Revolução de 32, mas esse nunca me pegou. E, acredito, muita coisa sobre São Paulo além-guerra. Não li tudo, não. E ainda prefiro me lembrar de Guilherme de Almeida por causa da moça que foi ao cabeleireiro do que pela tradução que ele fez de If, do Rudyard Kipling, um poema edificante que fala de tudo o que eu não sou.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Precautions

Precautions
Eugenio Montale

Há dias eu acordo com esse poema do Montale na cabeça, nessa versão em inglês que não sei quem traduziu, e que conheci quando o metrô de Nova York resolveu fazer uma campanha edificante para apresentar poesia às pessoas. (Aliás, não sei nada sobre Montale - se chegou a escrever em inglês, se esse poema foi realmente traduzido.) Here it goes:

Not incorrectly
they advised me
to use the long spoon
if I went to dine with the devil.

Unfortunately
on those rare occasions
the only one available
was short.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Livro das perguntas

Livro das perguntas
Pablo Neruda (CosacNaify, 2008)

"Pablo Neruda era muito feio. Tinha um nariz que se destacava bastante da cara, e por isso não tinha amigos. Para não se entediar, deu para escrever poemas, e escreveu tantos que encheu todos os papéis que tinha em sua casa." Assim começa a impagável definição de Miguel Ángel Mouriño, 9 anos, para o autor desse livro - são dele, e de outros garotos, as minibiografias dos artistas envolvidos no projeto. No posfácio, Herrín Hidalgo conta de uma edição chilena do Livro das perguntas com respostas de crianças para as indagações do poeta. Imagino que delícia deva ser.

Não dei muita bola quando o livro foi lançado, há alguns meses, pois conheço pouco tanto de Neruda quanto do tradutor, Ferreira Gullar. Foi uma bela surpresa. À poesia dos dois juntou-se o talento ilustrador de Isidro Ferrer, autor de divertidas colagens, várias com o rosto - e o narigão - de Neruda. O título das perguntas/poemas é apenas um numeral. Como a XXXVIII, que diz:

Não crês que a morte vive
dentro do sol de uma cereja?

Também não pode matar-te
um beijo da primavera?

Crês que o luto faz avançar
a bandeira de teu destino?

Vês na caveira tua estirpe
condenada a virar osso?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

The complete English poems

The complete English poems
John Donne (Penguin, 1986)

O livro sobre o qual vou falar não é esse aí ao lado, que escolhi como ilustração e link na falta da edição (meio que roubada) que eu tenho - um volume fininho chamado John Donne, o poeta do amor e da morte (J.C. Ismael Editor, 1986), com introdução, seleção, tradução e notas de Paulo Vizioli. Deve ter saído de campo há décadas: na Livraria Cultura não há referência nem como esgotado e os 18 resultados do Google são quase todos citações.

Eu já escrevi aqui várias vezes que meu poema preferido em língua inglesa é Ephemera, do Yeats. Mas nunca disse que o John Donne também tem seu lugar no meu Top Ten. É A valediction: forbidding mourning, um belíssimo poema de despedida e de promessa que me causa, a cada leitura, o mesmo arrepio de emoção nos versos finais. Taí: nunca tinha me ocorrido que despedida e promessa também estão no cerne de Ephemera. E não é por acaso.

domingo, 12 de outubro de 2008

The Collected Poems of W.B. Yeats

The Collected Poems of W.B. Yeats
W.B. Yeats (Free Press, 1996)

Sérgio Rodrigues, de quem sou fã de carteirinha, me fez passar a maior vergonha: apostou que, entre os leitores de seu ótimo blog, eu poderia ter lido algo de J-M. G. Le Clézio, o recente vencedor do Nobel de literatura. Não li. Aliás, nem conhecia o escritor. E, pelo que tenho visto sobre seus livros editados em português, o único que talvez entre na minha sempre crescente lista de próximas leituras é O africano, editado pela Cosac Naify.

Yeats, evidentemente, não tem nada a ver com isso. Mas pensando no que será que eu já li dos ganhadores do Nobel, me lembrei da visita a um sebo, há uns três anos, onde nós dois encontramos uma coleção enorme, de capa dura vermelha, com livros de todos os ganhadores do Nobel até, sei lá, talvez a década de 70. Íamos passando os olhos pelas lombadas com cara de espanto: "esse eu não li", "desse eu nunca ouvi falar", "esse não foi aquele que escreveu tal coisa?". Dois ignorantes absurdos. E, se eu não li Le Clézio, nem Roger Martin du Gard, Salvatore Quasimodo, Yasunari Kawabata, Günter Grass, que vencedor do Nobel poderia ocupar um post neste blog? Yeats, decidi. O autor do meu poema preferido, Ephemera. E como nada tenho a dizer além disso, porque não me considero uma grande leitora de poesia, o post acabou.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ou isto ou aquilo

Ou isto ou aquilo
Cecilia Meireles (Nova Fronteira, 2002)

Muita gente acha Ou isto ou aquilo - o poema - meio bobo. "Ou se tem chuva e não se tem sol / Ou se tem sol e não se tem chuva!". Eu não acho. Tá certo, é tudo bem óbvio. Mas o poema tem a minha cara: a do indeciso. Ou inseguro. A de quem, diante de duas situações tão diferentes, e quase sempre excludentes, não sabe ou não pode escolher o caminho do meio.

Em quase toda a minha vida profissional eu não fiz outra coisa senão tomar decisões. E mesmo assim sinto uma dificuldade enorme em fazer escolhas fora do trabalho. É como se eu não acreditasse que posso mesmo ser boa nisso. Então nessas horas de angústia - como a de hoje, como a que já vem vindo há semanas - eu recorro a Cecilia Meireles. O poema não me ajuda a escolher. Mas mostra que não estou sozinha nisso.

sábado, 26 de julho de 2008

Antologia poética

Antologia poética
Vinicius de Moraes (Companhia das Letras, 1992)

Toda adolescente que se preza sabe recitar de cor e salteado - ou pelo menos sabia, na minha época - o Soneto de fidelidade, de Vinicius de Moraes. E acho que foi por causa dos sonetos, que hoje acho adocicados demais, que me interessei por esse livro (ok: não faz tanto tempo assim eu escrevi uma dedicatória com o Soneto do amigo; achei que podia impressionar).

Minha edição, comprada do finado Círculo do Livro, tem mais de vinte anos. E sempre que volto a ela volto a meu poema preferido de Vinicius, se não meu poema preferido em língua portuguesa: Ausência. Como é que pode algo tão conhecido emocionar sempre, a cada vez que se retorna a ele? Até hoje só consegui decorar o começo, acho que os dois primeiros versos. E, por alguma ironia, tenho na cabeça poemas inteiros de autores menores, aprendidos ainda durante a adolescência. Vai ver me recuso a decorar Ausência para ter sempre o prazer de voltar a ele. E continuar me emocionando.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Collected poems

Collected poems
Paul Auster (Penguin USA, 2004)

Na Flip de 2004, em Parati, eu perguntei a Paul Auster se ele costuma reler suas obras. Ele disse que não. Depois perguntei se ele tem intenção de escrever poesia outra vez. Ele disse que não. Pois minha teoria maldosa é a de que Auster, algum dia, releu seus poemas e, a partir daí, tomou duas decisões: nunca mais escrevê-los nem reler qualquer coisa de sua autoria.

Repito: maldade pura (embora as perguntas tenham mesmo acontecido). Mas a brincadeira vem fácil quando se compara a poesia do americano à maioria de seus romances e aos livros de não-ficção que ele escreveu. Além dos versos compostos por Paul Auster, Collected poems traz diversas traduções que ele fez de poemas em francês. São todos fracos; servem apenas como curiosidade, ainda que um ou outro me agrade pelo tema ou pela sonoridade.

Essa maneira bobinha e engraçadinha de falar de Paul Auster pela primeira vez aqui no blog denota, na verdade, um grande medo: escrever sobre sua obra em prosa e refletir sobre o que ela representa para mim. Paul Auster é um dos meus dois autores estrangeiros vivos preferidos (o outro é Ian McEwan). Acho que é um ótimo escritor - com direito a altos e baixos, como quase todos - e descobri-lo, com Leviatã, me fez pensar a respeito de temas literários que até então nunca tinham passado pela minha cabeça (e que me atormentam até hoje).

Talvez PA merecesse o primeiro post a respeito de um autor, e não de uma obra específica. Eu detesto sua badaladíssima Trilogia de Nova York. Adoro Leviatã. E Noite do oráculo. E O livro das ilusões (como não gostar de alguém que dá esse título a um livro?). Mas minha austermania não me impede de enxergar os defeitos óbvios em obras mais rasas, como Mr. Vertigo. Respiro fundo: quem sabe eu crie coragem para, um dia, escrever direitinho sobre os efeitos Auster em minha vida.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Macau

Macau
Paulo Henriques Britto (Companhia das Letras, 2003)

Meu conhecimento sobre poesia resume-se a "gosto" ou "não gosto". Nada entendo de métrica, forma, lírica e rimas. Até hoje, um poema que me emociona demais toda vez que o leio, e portanto costumo chamá-lo de meu preferido, é Ephemera, de William Butler Yeats. Outro é Ausência, de Vinicius de Moraes - o verso "Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado" já serviu como epígrafe de um texto que escrevi. Baseada em referências que não vão muito além dessas, eu posso dizer que gosto, e muito, de Macau, vencedor merecido do prêmio Portugal Telecom de 2004.

Professor de respeito e ótimo tradutor de William Faulkner, Philip Roth, Elizabeth Bishop e John Updike, entre outros (é dele a tradução do excelente Reparação, de Ian McEwan), Paulo Henriques Britto criou uma obra tão consistente quando reduzida. Macau tem apenas 80 páginas, todas cheias de densidade. O título de alguns poemas brinca com a própria forma: Três tercinas, Sete sonetos simétricos, Dez sonetóides mancos. Outros antevêem o tema: Acalanto, Três pactos de morte. Meu preferido são as Três tercinas, tão profundamente simples e tão profundamente apropriadas para uma recente fase da minha vida. Acho que é preciso um certo gênio pra escrever versos assim.