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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Toujours Provence

Toujours Provence
Peter Mayle (Vintage Books, 1992)

Os livros de Peter Mayle - eu comecei com Hotel Pastis - fazem parte do gênero ai-que-inveja-absurda-da-vida-desse-cara. Numa versão "crônicas", é mais ou menos como o Minhas receitas da Provence, de Patricia Wells. Sei não, esse povo parece ter o sério e prazeroso distúrbio de esfregar na cara da gente como a vida pode ser boa e feliz e divertida, principalmente quando se tem uma conta corrente abastada e uma casa na Provence. Ai que inveja absurda da vida desse cara!

Bem, eu sou partidária ferrenha da literatura como incentivadora (ou promotora) de sonhos, então adoro ler o Peter Mayle e a Patricia Wells, e imaginar como seria a minha vida entre os mercados de frutas e legumes frescos da aldeia, os problemas com encanadores, os turistas enxeridos, os jantares informais com os vizinhos, cheios de comidinhas gostosas e vinhos idem. É bacana pensar que um dia eu também posso circular, ainda que a passeio, por lugares chamados Cavaillon, Buoux, Ménerbes, Gordes. E, enquanto não acontece, sonhar com isso nos livros.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Big Loira

Big Loira e outras histórias de Nova York
Dorothy Parker (Companhia das Letras, 1987)

Eu nunca sei muito bem o que responder quando alguém vem com aquelas perguntas idiotas e divertidas, como "em que outra época você gostaria de ter vivido?". Acho que em várias. Na virada do século 19 para o 20, no Rio de Janeiro. Ou no Rio dos anos 50. Durante a Semana de Arte Moderna em São Paulo. E na Nova York dos anos 20, quando a turma de Dorothy Parker ia encher a cara na Round Table do hotel Algonquin - quem sabe assim eu não confundiria mais tipos como Alexander Woollcott, Harold Ross, Edna Ferber e outros frasistas que o Ruy Castro vive citando.

Não sou muito chegada em contos, nunca fui. Mas Big Loira é daquele tipo de livro que sempre pego, e para reler sempre o mesmo texto: "Um telefonema", as melhores seis páginas já escritas sobre a paranóia que devasta uma mulher à espera da ligação do ser amado. Toda, toda mulher já passou por isso. Ameaçou jogar o telefone na parede. Rezou implorando pro aparelho tocar. Fez promessas em troca do trimmm-trimmm imediato. E nada. Nessas horas, o único consolo é pensar que nada mudou: os homens dos anos 20 também custavam a telefonar.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sex and the city

Sex and the city
Candace Bushnell (Record, 2003)

Eu nunca fui fã do seriado - pra mim, Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) é uma das mulheres mais chatas da história da TV. Nem sendo a mais insegura das criaturas dá pra agüentar tanta carência emocional. Mas minhas amigas, TODAS, adoravam a série, e eu até achei divertido um ou outro episódio, então encontrei o livro em liquidação, em inglês, e resolvi dar mais uma chance pra história das quatro amigas que, solteiras, em Manhattan, passam os dias entre homens, sapatos de grife, Cosmopolitans e restaurantes badalados.

Conclusão: o livro consegue ser ainda mais chato do que a série (pelo menos na TV a gente pode babar pelos homens e pelos sapatos de grife). Consta que a autora incluiu várias experiências pessoais nos textos; o principal personagem masculino seria seu ex-affair, um editor da revista Vogue. Não circulo por meios glamurosos para saber se o que ela conta é possível mesmo existir. Pelo menos ao meu redor - e olha que, tirando a quantidade astronômica de homens que passam pelo mulherio literário, eu também sou solteira, carente, bem-sucedida na profissão e tenho loucura por sapatos, assim como boa parte das minhas amigas - ninguém tem tanta roupa de grife, tantos amantes casuais, tantos convites para festas. Totalmente dispensável. Ainda prefiro ver um ou outro episódio na TV, de vez em quando; consigo me identificar com situações isoladas, não com esse monte de mulher estranha do livro de Bushnell.

domingo, 1 de junho de 2008

Pequenas epifanias

Pequenas epifanias
Caio Fernando Abreu (Agir, 2006)

Comecei a ler Caio Fernando Abreu tardiamente, pouco antes de sua morte, em 1996, nas crônicas do jornal O Estado de S. Paulo. E foi um daqueles casos de pesar, um "como é que eu nunca tinha lido esse cara antes?", uma tristeza antecipada porque Caio Fernando, quando descobriu que o vírus da aids já havia se manifestado em seu corpo, escancarou a verdade no jornal, numa crônica belíssima.

Ela, ao lado de outras duas favoritas, estão reunidas neste volume póstumo, publicado ainda em 1996. O meu foi meio que trocado com um então namorado - eu fiquei com o Pequenas epifanias dele, ele levou pra sempre meu Feliz ano novo (de quebra, numa era pré-email, o ex se comunicava por escrito com o CFA; o escritor até o cita em algumas correspondências reunidas em outro volume póstumo, Cartas, editora Aeroplano, 2002). Há tempos eu percebo que sempre retorno a esse livro só para ler as duas crônicas favoritas, que têm o mesmo mês como tema: Sugestões para atravessar agosto (linda, um alento para o mês frio e comprido que joga na nossa cara o fato de outro ano já ter ido pela metade) e Agostos por dentro (muito bela, muito emocionante; eu choro). Caio já sabia que estava morrendo. E mesmo que deixasse a tristeza tomar conta de vez em quando, ainda tinha muita coisa bacana para dizer aos leitores.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O amor acaba

O amor acaba
Paulo Mendes Campos (Civilização Brasileira, 1999)

Foi no verão de 2001. Tínhamos acabado de sair do cinema, depois de ver o belíssimo Amor à Flor da Pele, e corremos para um restaurante japonês - quem viu o filme é capaz de entender a vontade louca que me deu de comer gohan, aquele arroz branquinho e grudento, à moda oriental. E foi assim, entre tigelas de gohan e pratinhos de sushi, que começou a discussão sobre o filme e, lógico, seu tema principal: o amor. Não importava tanto descobrir se a linda Maggie Cheung e o charmoso Tony Leung tinham, afinal, consumado aquele namoro platônico. Mais importante era tentar entender que tipo de sentimento, que tipo de amor é esse que tanto une quanto afasta, que pode ser grande e ao mesmo tempo tão contido.

E a certa altura da nossa conversa eu me lembrei desse texto de Paulo Mendes Campos: O amor acaba. Coisa de eu ter lido ainda bem jovem, e de ter guardado na memória não só o teor da crônica, a sucessão de maneiras às vezes tão banais e quase despercebidas de como o amor pode acabar, mas também a sensação de arrepio que eu sentia toda vez que chegava à última linha, um arrepio de emoção por uma frase tão bonita e por uma verdade tão grande. Meu amigo não concordou com Paulo Mendes Campos; ele acreditava na máxima rodrigueana de que "se acabou, não era amor". E eu não concordei - ainda não concordo - com meu amigo. O amor acaba, sim. "Às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido", escreveu PMC. Não poderia achar mais verdadeiro.

sábado, 12 de abril de 2008

Assim te conquistei

Assim te conquistei
Chris Campos (Versar, 2008)

Seria muito injusto dizer que Assim te conquistei é um livro de auto-ajuda amorosa. Mas seu principal defeito passa perto: é colocar ali um pezinho, ainda que disfarçado nas frases edificantes que permeiam cada uma das 30 histórias de amor e relacionamento editadas no volume. Não causa espanto, pois segue a mesma linha de outros dois livros da editora Versar, um sobre lições de vida recebidas dos pais e outro, das mães (não li nenhum deles).

É uma pena, porque a maioria das 30 histórias escolhidas teria tudo para se transformar em belas narrativas literário-jornalísticas. Tem gente que está junta há 1 ano, há 10, há 30, há 50. Hetero e homossexuais. Gente que foi amante antes de virar marido ou mulher. Gente que se amou e hoje é mais feliz como amigo do ex. Eu gostaria de saber mais, por exemplo, sobre Carla e Antônio, que depois de 20 anos de um relacionamento clandestino conseguiram finalmente ficar juntos porque a mulher dele, que sempre soube do caso do marido, resolveu conceder o divórcio. Concedeu por quê? Como descobriu a existência de Carla? Como é que os dois viveram esses 20 anos secretos? Da maneira como o livro foi concebido - relatos curtos e entremeados das tais frases edificantes -, a gente fecha a última página com a sensação de que ainda havia mais história pra contar.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Minhas histórias dos outros

Minhas histórias dos outros
Zuenir Ventura (Planeta do Brasil, 2005)

É o tipo de livro que você termina e fica com vontade de mandar um email pro autor pedindo "conta mais?" Eu já gostava do Zuenir Ventura desde 1968 - O ano que não terminou, e virei fã de vez ao ler as crônicas que ele escrevia para o nomínimo.com, que os céus o guardem. O título deste livro, aliás, se não me engano saiu de uma enquete informal que o próprio Zuenir promoveu e contou em uma de suas crônicas no site; trata-se de uma paródia ao Minhas memórias dos outros, do hoje desconhecido Rodrigo Octávio.

É, também, um caso incomum de livro de entrega direitinho o que vende no título: pra não escrever suas memórias comme il faut, Zuenir Ventura resolve contar passagens importantes - ou divertidíssimas - de sua vida com os outros, os amigos, a família, os colegas de profissão. Um dos textos mais surpreendentes dá conta da morte de Pedro Nava e da decisão generalizada da imprensa em esconder os detalhes do suicídio e a homossexualidade do escritor em seu obituário. Outro emociona ao tratar a história até então desconhecida de como Zuenir e sua família abrigaram um garoto que foi testemunha no assassinato de Chico Mendes. Zuenir, conta mais?

domingo, 2 de dezembro de 2007

Um filme é para sempre

Um filme é para sempre
Ruy Castro (Companhia das Letras, 2006)

Ruy Castro não é apenas o melhor biógrafo que temos hoje no Brasil. É, também, o sujeito mais indicado para escrever sobre a música e o cinema de uma época que foi embora deixando muita saudade, mesmo em quem não a viveu - meu caso. Prova disso é esta coletânea de textos sobre cinema, quase toda voltada para os filmes dos anos 20 a 50 e para os artistas que neles trabalharam: Lana Turner, Frank Sinatra, Gene Kelly, Esther Williams, Clara Bow...

A graça do livro está na afinidade de Ruy Castro com o tema, visível em textos que tratam de detalhes e curiosidades dignas de aficcionado. Um deles conta a história de Max Factor, o maquiador e cabeleireiro que deu origem a uma bem-sucedida linha de cosméticos com seu nome (Factor foi esteticista da família real russa e teve de se maquiar pra fingir de doente e conseguir escapar à escravidão real). Em outros, o autor conta passagens da vida e da carreira de atores e diretores como Bette Davis, Orson Welles, Marlon Brando, Stanley Kubrick, Zsa Zsa Gabor. Ou bastidores de filmes que marcaram o cinema, a exemplo de A malvada, Cantando na chuva, 2001, Crepúsculo dos deuses. Duro é conter a vontade de sair correndo pra locadora de DVD assim que acaba cada texto do livro.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Não é sopa

Não é sopa
Nina Horta (Companhia das Letras, 1995)

O que não é sopa é o preço de livros no Brasil - principalmente os de culinária. E esse nem tem fotos maravilhosas (não tem foto nenhuma), não foi impresso em papel cuchê, não tem capa dura nem formato especial. Mesmo assim, se eu pudesse recomendar a alguém gastar seu rico dinheirinho (quase R$ 60) na aquisição de um único livro de culinária, esse é o que eu indicaria (minha edição, de 1995, ainda traz o preço marcado a lápis na primeira página: R$ 27. Alguém aí calcula pra ver se a inflação faz sentido?).

É preciso esclarecer: esse não é um livro apenas de receitas. Elas aparecem quase como coadjuvantes para as inspiradas crônicas de Nina Horta sobre comida. Nina ainda escreve toda quinta-feira na Folha de S. Paulo, mas tem mais graça ler tudo junto, vários textos agrupados em capítulos temáticos. São sacadíssimas suas considerações sobre comida perversa e comida de alma. Dá vontade de entrar no primeiro avião quando ela conta de jantares em Nova York e em Londres. E de ter um sítio em Parati, de ter tido aulas com Martha Kardos, de ter conhecido a empregada do "vós qué, vós faz". Só não concordo com Nina em duas coisas: eu adoro abobrinha e, na contramão de todo leitor culinário que conheço, acho Elizabeth David uma chata. Mesmo assim, sempre que posso releio alguns textos de Não é sopa - e aproveito para adaptar a divertida citação que ela faz sobre minha adorada abobrinha ao detestado pepino.

sábado, 17 de novembro de 2007

Noites tropicais

Nelson Motta (Objetiva, 2000)

Da bossa nova ao lançamento de Marisa Monte, o jornalista Nelson Motta transitou pelos principais grupos da música brasileira nos últimos 50 anos. Ganhou festival nos anos 60, foi diretor artístico de gravadora, namorou Elis Regina, compôs sucessos para Lulu Santos e escreveu a letra de Dancin' Days, um clássico da discoteca. Também teve uma boate no Morro da Urca. E foi casado com Marília Pêra. E foi amigo de Tim Maia. E de Paulo Coelho. Conheceu, enfim, metade de quem já interessou no cenário musical do país.

Pois antes que escrevessem sua imperdível biografia, Nelson Motta resolveu, ele mesmo, botar a memória pra funcionar e contar casos de sua vida num volume agradabilíssimo, que tem o subtítulo de Solos, improvisos e memórias musicais. De como Elis Regina largou Ronaldo Bôscoli para ficar com ele (e de como o largou para ficar com César Camargo Mariano). De como Tim Maia viveu ilegal nos Estados Unidos antes de voltar para o Brasil e estourar como cantor. De como se driblava a censura na época pesada do governo militar. E por que o hit Como uma onda ganhou o improvável subtítulo Zen surfismo. Mesmo quem nunca ouviu falar de alguns persoangens do livro tem motivos para ler Noites tropicais: no mínimo, vai ficar interessado em conhecer mais da história de nossa música.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A mulher que não prestava

A mulher que não prestava
Tati Bernardi (Panda Books, 2006)

Eu tenho a sorte de conhecer a Tati Bernardi - e de, depois de uma impressão inicial esquisita, poder admitir que eu estava errada: essa garota é um barato e sua conversa só perde mesmo para os textos que ela escreve. Mulher nenhuma consegue passar pelas páginas desse livro sem se identificar com a maioria das crônicas. A mulher-personagem da Tati somos todas nós que já levamos um pé na bunda, que temos complexo de inferioridade, que encanamos com a celulite e que invariavelmente escolhemos o cara errado.

A Tati escreve uma espécie de Sex and the City tupiniquim sem os vestidos fashion e as sandálias Manolo Blahnik. Suas crônicas, ao contrário dos dramas de Carrie & Cia., não precisam das ruas de Manhattan para acontecer. O glamour, ao contrário, está sempre nos outros, e nunca na mulher desesperada, cansada e confusa que ocupa as páginas do livro. Dá gosto em concluir: com a Tati na parada, o mercado brasileiro de livros não precisa de Melancias, Sophies Kinsellas e nenhum outro título de chick lit importada. Temos a nossa, autêntica e original, porta-voz das neuroses femininas.