quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Budapeste

Chico Buarque (Companhia das Letras, 2003)

Li Budapeste durante um vôo de Montevidéu a São Paulo, com escala em Buenos Aires, numa solitária e gripada noite de domingo. Por gostar tanto do Chico cantor-compositor, nunca tive coragem de ler um de seus livros anteriores - as referências não eram nada animadoras. Mas nessa noite fria, em junho de 2004, eu tinha um motivo pra encarar o mais recente rebento buarquiano: Chico participaria da Flip, em julho, ao lado do meu ídolo Paul Auster. Nada mais justo que ler o livro para acompanhar a conversa dos dois (Noite do Oráculo, o sensacional livro de Auster lançado na mesma época, fica para outro post).

E eu me surpreendi. Budapeste é bom. Tem alguns senões - fiquei muito incomodada com a estrutura repetitiva, Hungria-Kriska-Rio-Vanda-Hungria-Kriska, etc -, mas superou em muito a minha expectativa, a idéia de que ia encontrar um livro hermético e tentativamente poético. Ao contrário, é leve e muito divertido. Dá até pra imaginar um sorrisinho de Chico Buarque elaborando as frases frente ao computador, divertindo-se na arte de escrever. Além dele, outro artista merece crédito: Raul Loureiro, autor da deliciosa capa (um trecho do livro na frente, o mesmo trecho em "linguagem de espelho" no verso) e do primoroso projeto gráfico.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O homem do terno marrom

O homem do terno marrom
Agatha Christie (Record, 1997)

Admito incondicionalmente minha paixão pelos livros de Agatha Christie (de preferência, na versão original em inglês; as edições publicadas pela Nova Fronteira na década de 80, quando tomei gosto pelos livros, tinham traduções pavorosas). Com exceção de A ratoeira, uma peça de teatro, acho que já li todos. E O Homem do Terno Marrom continua sendo um dos meus preferidos. Por causa dele, sonho em conhecer a África do Sul - viajar de trem pelo país, comprar girafas de madeira feitas pelos nativos, ver a Table Mountain no horizonte e, como a protagonista Anne Beddingfield, encontrar o amor nos braços de um homem calado e misterioso.

Trata-se de um road book que começa em Londres, quando Anne perde o pai e, por acaso, vê-se envolvida em dois assassinatos. Sem nada que a prenda na Inglaterra e decidida a encontrar o tal Homem do Terno Marrom, o suspeito dos crimes, a moça embarca rumo à África num navio onde viajam os principais personagens da história: uma dama da sociedade, um homem riquíssimo e seu secretário, um padre, um coronel. Do navio, a trama passa para um trem que percorre a África do Sul enquanto Anne percebe que virou alvo dos criminosos. Adoro reler a cena em que Harry socorre Anne, depois de um atentado no meio da selva: faz parte do espírito romântico adolescente que persiste em mim até hoje.

sábado, 6 de outubro de 2007

Mongólia e Nove Noites

Mongólia
Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 2003)

Nove Noites
Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 2002)

Decidi escrever sobre Mongólia e Nove Noites ao mesmo tempo não só porque são livros do mesmo autor e porque gostei muito de ambos, mas porque, no fundo, os dois são o mesmo livro. Ok: a história de um se passa entre os índios da Amazônia; a do outro, na aridez da Mongólia. Ambos, porém, tratam do mesmo tema: alguém desaparece, há vestígios do sumido, outro alguém segue os passos do desaparecido, desvenda os caminhos que ele percorreu e, no fim, um segredo é revelado ao leitor.

Tendo lido esses e mais dois livros de Bernardo Carvalho (Onze, bem fraquinho, e o interessante As iniciais), acredito poder afirmar que trata-se de um dos melhores escritores em atividade no Brasil. Gosto do domínio que ele tem sobre a palavra nos romances que escreveu (em compensação, sua veia cronística é muito chata). E acho uma pena que seus dois melhores livros sejam, na verdade, um só. Creio que gostei de Mongólia porque foi o primeiro que li, porque trata de uma cultura e uma realidade tão diferentes e porque, afinal, a história faz a gente querer saber como tudo vai terminar. Bernardo Carvalho escreveu com propriedade: viajou pelo país e pôde ver os edifícios opressivos, os templos e os incríveis grupos nômades que circulam pelo território com suas casas portáteis. Mas, no embate entre os dois livros-irmãos, o mais velho sai ganhando. A estrutura e o desfecho de Nove Noites não surpreendem quem já tenha lido Mongólia, mas as cartas do protagonista, seu dilema pessoal, o cotidiano e os rituais indígenas são capazes de envolver o leitor numa prosa irresistível como só um bom escritor consegue produzir.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

A menina que roubava livros

A menina que roubava livros
Markus Zusak (Intrínseca, 2007)

Confissão nº 1: comprei esse livro assim que ele foi lançado porque achei a capa muito, muito bonita.

Confissão nº 2: tivesse esperado mais tempo para comprar e ler o livro, eu o teria deixado de lado por puro preconceito. Tamanho sucesso e conseqüente exposição me levariam a crer que esse não passava de outro best seller de gosto duvidoso, como as pipas e os livreiros e Cabul.

A história é narrada pela Morte, que conta de seus três encontros com uma menina chamada Liesel, a garota do título. Liesel é alemã na pior época da História: logo antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Órfã dos pais por causas políticas, Liesel vai parar na casa de uma família alemã nada nazista. Logo conquista os pais adotivos. E faz amizade com o garoto vizinho. E então surge um Judeu. E o Judeu desenha e escreve uma história para Liesel. Contar mais seria estragar o lirismo, a tristeza e a sensibilidade da história de Zusak, escritor australiano de pais alemães que viveram a guerra . Zusak esteve no Brasil para a Bienal do Rio de 2007. Numa entrevista a Edney Silvestre para a Globonews, contou que uma das histórias mais terríveis do livro - a do judeu e do pedaço de pão - foi presenciada por sua mãe na Alemanha. Mérito de Zusak: seu livro é, sim, bem triste. Mas nada deprimente.

Os Maias

Os Maias
Eça de Queiroz (Ateliê Editorial, 2001)

Ao lado de O Morro dos Ventos Uivantes, esse é um livro que me dá imenso prazer a cada leitura. A prosa envolvente de Eça, seu humor peculiar e inteligente, a triste história de amor de Carlos Eduardo e Maria Eduarda e personagens impagáveis como Dâmaso e João da Ega, o meu preferido, sempre dão oportunidade para novas descobertas. Foi só na terceira leitura que fiquei apaixonada por Carlos da Maia. Em outra delas, fui tocada pela fragilidade caprichosa de Maria Eduarda. Em comum, sempre, só mesmo a torcida para que Carlos e Eduarda, por um passe de mágica literário, pudessem dessa vez conseguir ficar juntos.

Minha paixão pelo livro é tão grande que eu nem quis assistir à minissérie exibida pela Globo em 2001. Parecia um crime contaminar a imaginação com a estampa de atores conhecidos. Meu Carlos da Maia não é tão bonito quanto o Fábio Assunção, mas ainda assim envolvente. Minha Maria Eduarda é loiríssima e delicada, dona de um corpo quase diáfano. Dâmaso é um janota gordinho. Raquel, o Ega, o velho Afonso, a condessa Gouvarinho, todos moram na minha cabeça, e não na tela da TV.

Ah, e Sintra: até hoje tenho vontade de conhecer Sintra, em Portugal, apenas por causa do livro.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Deus - um delírio

Deus - um delírio
Richard Dawkins (Companhia das Letras, 2007)

Quando eu contei a um amigo que estava lendo - e adorando - o mais recente livro de Richard Dawkins publicado no Brasil, ele disse: "esse é o tipo do livro inútil. Nenhum ateu precisa dele para confirmar sua descrença e nenhum religioso vai ler". O livro não é inútil: tem, no mínimo, trechos muito divertidos. Mas meu amigo não deixa de ter razão ao notar que essa nova investida de Dawkins não vai convencer ninguém a mudar de time na esfera religiosa.

É capaz de os cristãos passarem diante do livro fazendo o sinal-da-cruz. Crentes, de qualquer tipo, não devem duvidar de que a obra é herética ou de que o pobre Dawkins está fadado a um longo confinamento no inferno: ele trata o criacionismo e toda a série de preceitos morais baseada na Bíblia como lenda, mentiras pré-fabricadas para atender ao poder religioso. Mas quem simpatiza com a idéia de que Deus não existe e que a única forma de religião possível é o darwinismo pode curtir as mais de 500 páginas dedicadas pelo biólogo britânico a provar que a noção de Deus é uma invenção humana e que nada no criacionismo faz sentido. Seu ataque ao conservadorismo americano, por exemplo, traz bons argumentos e informações. Mesmo assim, o livro deixa um gosto amargo no leitor. O que incomoda não é o excesso de panfletarismo ou virulência: é a impressão que o cientista passa de ter usado Deus - um delírio para desforrar-se de desafetos pessoais; não são poucos os parágrafos dedicados a ridicularizar os inimigos.

Ex-libris

Ex-libris
Anne Fadiman (Jorge Zahar, 2002)

Tem gente que não entende meu gosto por releituras. Acham que, porque leram uma vez, já conhecem "o fim da história" e por isso não faz sentido reler literatura. Não dá pra discutir - eu também não entendo por que tem gente que revê 1000 vezes o filme Duro de Matar.

Tem gente que não admite uma sujeirinha em seus livros. Que só falta pegá-los com luvas cirúrgicas, não usa a orelha, cobre com papel-manteiga pra evitar da capa amarelar. Eu USO meus livros. Grifo. Escrevo nas margens. Derramo lágrimas sobre a tinta, dobro a lombada pra ficar mais confortável de ler na cama, às vezes marco a página com a lapiseira que usei pra fazer anotações.

Por essas e outras (eu também adoro ganhar livros de presente! eu também adoro escrever e receber dedicatórias! eu também "reviso" cardápios e tudo quanto é texto que cai nas minhas mãos!), desde a primeira página eu me senti a alma gêmea de Anne Fadiman, editora e escritora americana que juntou suas "confissões de uma leitora comum" no pequeno e delicioso Ex-Libris. O primeiro texto trata do casamento de duas bibliotecas: a dela e a do marido. Outro fala de plágios (e de como a mãe dela, correspondente de guerra, foi plagiada por um escritor que virou best seller). Outro, de sebos (e dos 8,5 quilos de livros usados que ela ganhou certa vez do marido, como presente de aniversário). Mas Anne Fadiman não trata apenas de histórias familiares. Seus textos sobre livros e o prazer de ler acabam sendo uma fonte de referências para quem, como eu, esconde uma obsessão (uma estante excêntrica, diria ela): o amor por livros sobre livros. O único defeito de Ex-libris é o tamanho: 162 páginas que a gente lê de uma tacada. Ando pensando em começar uma campanha para fazer Anne Fadiman escrever mais.