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segunda-feira, 16 de março de 2009

Marca d'água

Marca d'água
Joseph Brodsky (CosacNaify, 2006)

"Sempre concordei com a ideia de que Deus é tempo, ou pelo menos de que Seu espírito é. Talvez essa ideia seja até mesmo da minha própria lavra, mas agora não me lembro. De qualquer modo, sempre pensei que se o Espírito de Deus se movia sobre a face da água, a água tinha de refleti-lo. Daí meu sentimento pela água, por suas dobras, rugas, ondulações, e - como sou um homem do Norte - por seu cinza. Simplesmente penso que a água é a imagem do tempo, e a cada véspera de Ano Novo, de modo um tanto pagão, tento ficar perto da água, preferivelmente à beira de um mar ou de um oceano, para olhar o surgimento, a partir dela, de uma nova ajuda, um novo punhado de tempo. Não procuro uma jovem nua cavalgando uma concha; procuro uma nuvem ou a crista de uma onda quebrando na margem à meia-noite. Isso, para mim, é o tempo que sai da água, e fico olhando o desenho semelhante a renda que ela depõe na margem, não com conhecimento de um cigano, mas com ternura e com gratidão.

Esse é o modo, e em meu caso o porquê, como eu ponho meus olhos nesta cidade. Não há nada de freudiano nessa fantasia, ou de especificamente cordado, embora se pudesse estabelecer alguma conexão evolucionista - quando não simplesmente atávica - ou autobiográfica entre o desenho que uma onda deixa na areia e seu exame por um descendente de ictiossauro, e ele próprio um monstro. A renda vertical das fachadas venezianas é o melhor verso que o tempo-aliás-água deixou em terra ferma em qualquer lugar. Além disso, há sem dúvida uma correspondência, se não uma dependência total, entre a natureza retangular desses expositores da renda - ou seja, os prédios locais - e a anarquia da água que refuta a noção de forma. É como se o espaço, aqui mais do que em qualquer outro lugar, cônscio de sua inferioridade em relação ao tempo, lhe respondesse com a única propriedade que este não possui: a beleza. E é por isso que a água pega essa resposta e a torce, espanca e rasga, mas em última instância a leva intacta para o Adriático."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Uma estadia no inferno

Uma estadia no inferno
Arthur Rimbaud (Martin Claret, 2002)

Não me conformo de encontrar apenas esta edição de Uma estadia no inferno, com tradução do Ivo Barroso, à venda no site da Livraria Cultura. Não foi o livro que eu li - eu jamais teria lido qualquer coisa editada pela Martin Claret. Pode parecer preconceito, e talvez seja mesmo, no mínimo pelas capas horrorosas que essa editora tem coragem de pôr no mercado. Depois, pela péssima qualidade dos livros, que inclui acabamento, papel e traduções geralmente mal-feitas, quando não postas sob suspeita de plágio.

Não é o caso, pelo menos isso, dessa tradução de Barroso, que li emprestada numa edição de 1983 da Civilização Brasileira - como não conheço o livro da Martin Claret, não posso nem atestar se mantiveram a qualidade do trabalho. E eu gostei tanto que copiei, pra minha leitura particular, vários trechos escritos por meu francês atormentado preferido. Rimbaud faz parte daquele tipo de artista, seja escritor, poeta, ator, músico, que precisava mesmo ter morrido cedo; ou, no caso dele, se "aposentado" precocemente. Fica o mito e a dúvida a respeito do que teria sido sua obra caso ele tivesse produzido mais.

De Delírios - II - Alquimia do verbo:

"Vim a ser uma ópera fantástica: percebi que todos os seres têm o fatalismo da felicidade: a ação não é vida, mas uma forma de estragar a força, um enervamento. A moral é a fraqueza do cérebro.

A cada ser, muitas outras vidas me pareciam devidas. Este senhor ignora o que faz: é um anjo. Esta família é uma ninhada de cães. Em presença de alguns homens, conversei em voz alta com algum outro momento de suas vidas. - Foi assim que amei um porco."